sábado, janeiro 02, 2016

O que pode vir a ser fatal para os poderosos, é que para eles as culturas dos outros povos nada mais são do que outras culturas.
H. Strand
 As diferenças se movimentam, com o tempo, elas mudam de lugar, se reorganizam, mas jamais desaparecem.
T. Todorov

sexta-feira, janeiro 01, 2016

Em 2016 não devemos esquecer que a tecnologia é apenas uma ferramenta. O talento, este sim, é tudo. O gênio é ainda um pouco mais que tudo.
Quanto à originalidade, é a mais perigosa das tentações: a de não se parecer com nada. Sozinha, a originalidade é uma qualidade negativa. Precisa de companhia para ter valor. É por isso que o gênio não é feito só de originalidade, mas, antes, de talento. Talento para exprimir o pensamento universal. Já a tecnologia é apenas uma ferramenta. Por si só, é nada.
Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo

quinta-feira, dezembro 31, 2015

Quando 2016 nascer, não façam desta vida um estandarte, nem acenem para ele com esperanças de melhores tempos.

Quem garante?
Adaptado de  Alex Polari

quarta-feira, dezembro 30, 2015

Crise e por isso não temos como suprir as necessidades do povo, mas penso que não há sentido na nossa miséria. Fome não é prova de fortaleza, é apenas não ter comido! Esforço não é vergar as costas e arrastar, não é mérito!
A miséria não é condição das virtudes, meus amigos! E não me venham com a beleza das riquezas que fomos capazes de produzir!
Se a nossa gente fosse abastada e feliz, aprenderia as virtudes da abastança e da felicidade. Mas hoje, as virtudes dos pobres nascem... da pobreza!
Eu abomino isso! Sim, abomino! Ou vocês querem que eu minta a nossa gente?
Bertolt Brech

terça-feira, dezembro 29, 2015

Provisoriamente não cantaremos o amor,
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços...
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, e medo das mães, e medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nosso túmulos nascerão flores
amarelas e medrosas.
Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, dezembro 28, 2015

Nada é mais perigoso do que a certeza de ter razão, é preciso refletir tendo a dúvida como companheira.
Quando há um progresso do seu autoconhecimento, é sempre uma má notícia.
Uma das maiores descobertas do século XX foi a da agressiva estupidez com que se comporta um homem quando sabe muito de alguma coisa e ignora todas as demais, ou seja, a especialização é imoral.

domingo, dezembro 27, 2015

Todas as palavras esdrúxulas, como os sentimentos esdrúxulos, são naturalmente ridículas.
  Álvaro de Campos

sábado, dezembro 26, 2015

A alma humana é um manicômio de caricaturas. Se uma alma pudesse revelar-se com verdade, nem houvesse um pudor mais profundo que todas as vergonhas conhecidas e definidas, seria, como dizem da verdade, um poço, mas um poço sinistro cheio de ecos vagos, habitado por vidas ignóbeis, viscosidades sem vida, lesmas sem ser, ranho da subjetividade. Eis a alma.
Bernardo Soares

sexta-feira, dezembro 25, 2015

                                                       Povo e o Brasil
O Brasil ainda tem sorte de ser povo talvez, porque povo é uma palavra com eco. Todo mundo usa essa palavra, mas ninguém sabe direito. Mas eu posso dizer a vocês que a passageira do meu lado, viúva, 60 anos, tem dois gatos de que gosta e dois netos de que não. Os gatos ela comanda, os netos é uma batalha. Sobre este mundo e o outro sabe tudo, ela vê televisão. O país não tem remédio, ninguém tem mais trabalho, os que tem não querem trabalhar, os políticos só roubam, nem vale a pena falar. Aproveita e volta ao sério: sério para ela são as telenovelas, então ela fala sem parar. Ela fala de Big Brother, ela fala da Fazenda, ela fala do Raul Gil, ela fala do povo brasileiro. A passageira do lado é o passageiro em geral, o povo. O louvado povo por discursos e jornal. Há que começar do ovo, porque alguma coisa andou mal.
Então é Natal.

quinta-feira, dezembro 24, 2015

Para Marcel Proust, a maioria considera claras as ideias que estejam tão confusas quanto as suas.
Para Anatole France, uma besteira dita por milhões de bocas não deixa de ser uma besteira.
Para Schiller, o bom senso tem sido de poucos, seria bom pesar os votos, ao invés de contá-los.
Para  Ideilson, a vida só é valida se cada dia nascemos de novo.  

Feliz Natal

quarta-feira, dezembro 23, 2015

O que me basta?
A princípio bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos. Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida, o cinema, o teatro: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar a luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio. Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade. Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.
 Martha Medeiros

terça-feira, dezembro 22, 2015

 Viajar! Perder Países

Ser outro constantemente

Por a Alma não ter raízes

De viver de ver somente


Não pertencer nem a mim

Ir em frente, Ir a seguir

A ausência de ter um fim

E da ânsia de o conseguir


Viajar assim é viagem

Mas faço-o sem ter de meu

Mais que o sonho da passagem

O resto é só terra e céu


Fernando Pessoa

segunda-feira, dezembro 21, 2015

Se eu soubesse algo que me fosse útil, mas prejudicial à minha família, eu rejeitaria. Se eu soubesse algo que fosse útil à minha família, mas prejudicial ao meu país, eu esqueceria. Se eu soubesse algo que fosse útil ao meu país, mas prejudicial à humanidade, eu consideraria esse algo um crime.
 Charles de Montesquieu

domingo, dezembro 20, 2015

E depois de fazer tudo o que fazem, levantam-se, tomam banho, cobrem-se de talco, perfumam-se, penteiam-se, vestem-se, e assim progressivamente vão voltando a ser o que não são.
Julio Cortázar

sábado, dezembro 19, 2015

O que vocês esperavam que acontecesse quando tiraram a mordaça que tapava essas bocas negras? Esperavam que elas lhes lançassem louvores? E essas cabeças que seus avós e seus pais haviam dobrado à força até o chão?
O que esperavam? Que se reerguessem com adoração nos olhos?
Ei-los em pé. Homens que nos olham. Ei-los em pé. Faço votos para que vocês sintam como eu a comoção de ser visto.
Hoje, esses homens pretos nos miram e nosso olhar reentra em nossos olhos. Tochas negras iluminam o mundo e nossas cabeças brancas não passam de pequenas luminárias balançadas pelo vento.
 Jean-Paul Sartre

sexta-feira, dezembro 18, 2015

Já somos o esquecimento que seremos, a poeira elementar que nos ignora, não foi Adão e que é agora todos os homens. Nós somos apenas as duas datas: a do princípio e a do fim. Eu não sou o insensato que se aferra ao mágico som de seu próprio nome. Eu penso com esperança naquele homem que não saberá o que eu fui sobre a terra. Em baixo do indiferente azul do céu, esta meditação é um consolo.
Jorge Luis Borges

quinta-feira, dezembro 17, 2015

Que existe mais, senão afirmar a multiplicidade do real?
A igual probabilidade dos eventos impossíveis?
A eterna troca de tudo em tudo?
A única realidade absoluta?
Seres se traduzem.
Tudo pode ser metáfora de alguma outra coisa ou de coisa alguma.
Tudo irremediavelmente metamorfose!
Paulo Leminski

quarta-feira, dezembro 16, 2015

A criança come o barro pensando comer o ovo. Diz a gente grande: é verme. Não, é fome. A cena se repete, e ela pode comer o descampado inteiro. Uma besta rosnando quieta, babando como cão raivoso.Andemos por esse pátio ausente de morangos. Dividamos nossas fomes, bebamos nossos próprios sangues. A cidade é de Deus, aqui nunca é outono. Nem Bob Esponja faz rir o lábio do menino que descasca. Frieza no sol a pino de quarenta graus. Amamentemos de fúria a ética inventada pelo homem. Pois “cuspe” é a palavra inventada para engolir a seco a mosca que nos tornamos nós!
Araripe Coutinho

terça-feira, dezembro 15, 2015

Por quantas impossíveis geografias

Ainda permaneceremos exilados na fronteira do equívoco

Mesmo nos sabendo vizinhos de terras devolutas?

 Ézio Deda

segunda-feira, dezembro 14, 2015

Esta estrada onde eu moro, entre duas voltas do caminho,
Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem.
Todo mundo é igual. Todo mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única. Até os cães.
Estes cães da roça até parecem homens de negócios:
Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:
Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos,
Que a vida passa! Que a vida, a vida passa!
E que a mocidade vai acabar.
 Manuel Bandeira