terça-feira, fevereiro 09, 2016

Reclamar ou posso


Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade.

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã.

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
(A lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão.

Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos celebrar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso - com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção.

Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão.

Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera -
Nosso futuro recomeça:
Venha, que o que vem é perfeição

Link: http://www.vagalume.com.br/legiao-urbana/perfeicao-com-trecho-da-musica-ao-vivo.html#ixzz3zcsV7WZL

segunda-feira, fevereiro 08, 2016

Conheça Francisco Carvalho.

O BICHO HOMEM

Que bicho é o homem 
de onde ele veio 
para onde vai? 
Onde é que entra 
de onde é que sai? 

Que raio lhe acende 
a chama da fúria? 
O que é que sobra 
da cesta básica 
de sua penúria? 

Que bicho é o homem 
do que se enfeita? 
Que mão o ampara 
no chão de enigmas 
em que se deita? 

Que bicho é o homem 
que mama no seio 
da reminiscência? 
E que embala a morte 
em seu devaneio? 

Que bicho é esse 
que carrega o fardo 
de uma dor medonha? 
Que sucumbe ao charco 
mas ainda sonha? 

Que bicho vagueia 
na treva hedionda? 
Que pantera esguia 
será mais veloz 
do que a própria sombra? 

O homem que tece 
as malhas da lei. 
Que bicho é o homem 
que transforma em pêssegos 
as fezes do rei? 

Que bicho é o homem 
que ama e desama 
que afaga e magoa? 
E que às vezes lembra 
um anjo em pessoa? 

O homem que vai 
para a eternidade 
num saco de lixo. 
Que bicho é o homem 
de salário fixo? 

Que bicho é o homem 
que trapaceia? 
Que às vezes pensa 
Que é mais brilhante 
do que a papa-ceia? 

Que bicho é esse 
que escreve as vogais 
das cinzas do pai? 
— De onde ele veio 
e para onde vai? 

Que bicho é o homem 
que se interroga? 
léguas de volúpia 
sonhos e utopias 
tudo se evapora? 

Que bicho é o homem 
de argila e colostro 
que lavra e semeia? 
mas só colhe insônias 
em lavoura alheia? 

Os rastros do homem 
no vento ou na água 
são rastros de fera. 
Mas que bicho é esse 
que se dilacera? 

O homem suplica 
os deuses concedem. 
Que bicho é o homem 
que sempre regressa 
às praias do Éden? 

Que bicho é o homem 
que escreve poemas 
na aurora agônica 
e depois acende 
a fogueira atômica? 

Que bicho te oferta 
um ramo de rimas 
e à sombra dos mortos 
semeia gemidos 
por sete Hiroximas? 

Que bicho te espreita 
aos olhos dos becos 
onde os cães insones 
mastigam as sombras 
dos antigos donos? 

Que bicho é o homem 
que rasteja e voa 
que se ergue e cai? 
— De onde ele veio 
e para onde vai? 

Que bicho é o homem 
de onde ele veio 
e para onde vai? 
Onde é que entra 
de onde é que sai?

Para ouvir o poema musicado acesse.

domingo, fevereiro 07, 2016

ESTUDO

Subitamente descobrimos o acaso 
na nuvem que passa pelo pássaro 
ou no pássaro que soturnamente percorre a nuvem. 

De repente aprendemos a flor das coisas 
e os seus movimentos na paisagem. 
De repente trocamos a imagem pela paisagem 
a palmatória pela parábola. 

De repente descobrimos que os espelhos nos evitam 
que o amanhã pertence aos outros 
que da janela somos observados 
por super-homens de celulóide. 
De repente é o metal do amor que silencia 
no coração onde tudo é paisagem. 

Subitamente compreendemos 
que as palavras envelhecem com os homens 
que o amor também envelhece 
quando as palavras envelhecem.

sábado, fevereiro 06, 2016

HERÓI

Herói não é o que vai irrigar as lavouras 
da morte nos campos de batalha. 
Não é o que volta das trincheiras minadas 
de explosivos com medalhas no peito 
mutilações no corpo e na alma. 

Herói não semeia tulipas de sangue 
ramalhetes de napalm e rosas de átomo. 
— Não é o aventureiro que fez xixi na lua. 

— Herói é o que vai todas as tardes à padaria 
mais próxima buscar o pão ainda morno 
para testemunhar o mistério da vida. 


FRANCISCO CARVALHO

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Soneto de Fidelidade  – Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.


Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento


E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama


Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Não, não pense...temos colunistas que escrevem artigos sensacionais.
Bom tem algumas asneiras, afinal colunista da televisão tem que convencer, tem que vender, promessas em litros e kilos.
Um futuro para os burros espertos?
Sim, eu disse burros como eu e você que todo dias comemos, o que foi enlatado.
Digo com a mais absoluta certeza...pensar te faz um pessoa perigosa.


quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Nosso dia vai chegar
Teremos nossa vez.
Não é pedir demais:
Quero justiça,
Quero trabalhar em paz.
Não é muito o que eu lhe peço
Eu quero trabalho honesto
Em vez de escravidão.
Deve haver algum lugar
Onde o mais forte
Não consegue escravizar
Quem não tem chance.
De onde vem a indiferença
Temperada a ferro e fogo?

Quem aguarda os portões da fabrica?

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Sente o desafio e provoque um desempate:
Desarme a armadilha e desmonte o disfarce.
Se afaste do abismo
Faça do bom-senso a nova ordem.
Não deixe a guerra começar.
Pense isso um pouco,
Não há nada de novo.
Você vive insatisfeito e não confia em ninguém
E não acredita em nada
E agora é isso cansaço e falta de vontade,
Mas, faça do bom-senso a nova ordem:

Não deixe a guerra começar.

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias. Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça: - Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, janeiro 31, 2016

A princípio bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos. Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida, o cinema, o teatro: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar a luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio. Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade. Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade. 
Martha Medeiros

sábado, janeiro 30, 2016

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece tua alma! É a alma que estraga o amor. Só nas ilusões divinas a alma pode encontrar satisfação. Não em outra alma. Só emum deus ou fora do mundo. As almas são incomunicáveis. Deixa então seu corpo estender-se com outro corpo, porque os corpos se entendem, mas as almas não. 

Manuel Bandeira

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Não chame o meu amor de Idolatria 
Nem de ídolo realce a quem eu amo, 
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo. 
É hoje e sempre o meu amor galante, 
Inalterável, em grande excelência; 
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença. 
'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo; 
'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento; 
E em tal mudança está tudo o que primo, 
Em um, três temas, de amplo movimento. 
'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora; 
Num mesmo ser vivem juntos agora.

WS

quinta-feira, janeiro 28, 2016

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma 

quarta-feira, janeiro 27, 2016

Ainda há pouco, era apenas uma estrela
Uma imensa tocha antes do mergulho
Agora vem à tona
Sua ira é intensa
E você deseja saber

Se há algo
Que possa acalmá-lo outra vez
Os pássaros
A lua cheia e todo o céu leitoso
E todas as formas da natureza
Mostravam a grandeza do mundo
Em lágrimas

Condenado como Ulisses
E como príamos
Morto com seus companheiros
Morto com seus companheiros
Morto.... Apareceu
No momento em que a lua ia se elevando
E todo pranto forma a imagem do homem

terça-feira, janeiro 26, 2016

Como é por dentro outra pessoa? Quem é que o saberá sonhar? A alma de outrem é outro universo, com que não há comunicação possível, nem há verdadeiro entendimento. Nada sabemos da alma, senão da nossa. As almas dos outros são olhares, são gestos, são palavras, supondo-se qualquer semelhança no fundo. Entendemo-nos porque nos ignoramos. A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver. 
Fernando Pessoa

segunda-feira, janeiro 25, 2016

Mas olhe para todos ao seu redor e veja o q temos feito de nós e a isso considerado vitória de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. 
Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. 
Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. 
Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. 
Temos construído catedrais, e ficando do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. 
Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.
Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. 
Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. 
Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. 
Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. 
Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. 
Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no q realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. 
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. 
Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. 
Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. 
Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. 
E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia 
Clarice Lispector

domingo, janeiro 24, 2016

 TALVEZ QUEM SABE ...
Talvez, quem sabe um dia, por uma alameda do zoológico, ela também chegará. Ela, que também amava os animais, Entrará sorridente assim como está na foto sobre a mesa. Ela é tão bonita, ela é tão bonita que, na certa, eles a ressuscitarão. O século trinta vencerá o coração destroçado já pelas mesquinharias. Agora vamos alcançar tudo o que não podemos amar na vida com o estrelar das noites inumeráveis. Ressuscita-me, ainda que mais não seja por que sou poeta e ansiava o futuro. Ressuscita-me lutando contra as misérias do cotidiano. Ressuscita-me, por isso ressuscita-me. Quero acabar de viver o que me cabe, minha vida, para que não mais existam amores servis. Ressuscita-me para que ninguém mais tenha De sacrificar-se por uma casa, um buraco. Ressuscita-me para que a partir de hoje, a partir de hoje, a família se transforme e o pai seja pelo menos o universo e a mãe seja no mínimo a terra, a terra, a terra.

Maiakovski

sábado, janeiro 23, 2016

Um dia, tudo será memória. As pessoas que andam naquela rua, as gentis, as sábias, as más, todas, todas serão memória, o mendigo que passa sem o cão, o ginasta, a mãe, o bobo, o cético, a turista, deus, inclusive, regendo o fim das coisas memoráveis, também será memória. Deus e os pardais. Os grandes esqueletos do museu britânico e todo sofrimento serão memória. Eu, sentado aqui, serei só esses versos que dizem haver um eu sentado aqui.

sexta-feira, janeiro 22, 2016

Todo mundo aceita que ao homem cabe pontuar a própria vida: que viva em ponto de exclamação, se tiver a alma dionisíaca. Que viva em ponto de interrogação, em caso de filosofia ou de poesia. E que viva equilibrando-se entre vírgulas e sem pontuação (na política!). O homem só não aceita do homem que use a pontuação fatal: que use, na frase em que vive, o inevitável ponto final

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Esquece o futuro. Ele não te pertence. O presente te basta. Mas é preciso ser rápido quando ele é mau presente, e andar devagar quando se trata de saboreá-lo. Expressões como “passar o tempo” espelham bem a maneira de viver dessa gente prudente, que imagina não haver coisa melhor para fazer da vida. Deixam passar o presente, esquivam-se, ignoram o presente, como se estar vivo fosse coisa desprezível. A natureza nos deu a vida em condições tão favoráveis, que só mesmo por nossa culpa ela poderá se tornar pesada e inútil. 
Montaigne

quarta-feira, janeiro 20, 2016

Ando só
Pois só eu sei
Pra onde ir
Por onde andei
Ando só
Nem sei por que
Não me pergunte
O que eu não sei

Pergunte ao pó
Desça o porão
Siga aquele carro
Ou as pegadas que eu deixei
Pergunte ao pó
Por onde andei
Há um mapa dos meus passos
Nos pedaços que eu deixei

Desate o nó

Que te prendeu
A uma pessoa que nunca te mereceu
Desate o nó
Que nos uniu
Num desatino
Um desafio

Ando só

Como um pássaro voando
Ando só
Como se voasse em bando
Ando só
Pois só eu sei andar
Sem saber até quando
Ando só

terça-feira, janeiro 19, 2016

Como é por dentro outra pessoa? Quem é que o saberá sonhar? A alma de outrem é outro universo, com que não há comunicação possível, nem há verdadeiro entendimento. Nada sabemos da alma, senão da nossa. As almas dos outros são olhares, são gestos, são palavras, supondo-se qualquer semelhança no fundo. Entendemo-nos porque nos ignoramos. A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver.
Fernando Pessoa

segunda-feira, janeiro 18, 2016

A fábula

Era uma vez um planeta mecânico
Lógico, onde ninguém tinha dúvidas
Havia nome pra tudo e para tudo uma explicação
Até o pôr-do-sol sobre o mar era uma gráfico

Adivinhar o futuro não era coisa de mágico
Era um hábito burocrático, sempre igual
Explicar emoções não era coisa ridícula
Havia críticos e métodos práticos

Cá pra nós, tudo era muito chato
Era tudo tão sensato, difícil de agüentar
Todos nós sabíamos decor
Como tudo começou e como iria terminar

Mas de uma hora pra outra
Tudo que era tão sólido desabou, no final de um século
Raios de sol na madrugada de um sábado radical
Foi a pá de cal, tão legal

Não sei mais de onde foi que eu vim
Por que é que estou aqui
E para onde devo ir
Cá pra nós, é bem melhor assim
Desconhecer o início e ignorar o fim
Da fábula

domingo, janeiro 17, 2016

Dos Minuano 3 minutos

Se você me der 3 minutos
Vai entender o que eu sinto
Eu não sou santo, mas não minto (não vou mentir)
Se você me der 3 minutos

Se você me der uma chance
Não vou deixar que a gente dance
Esqueça o que pensa que sabe
Duvide da crença e, quem sabe?

Vai sentir o que eu sinto, se você me der 3 minutos
Só acredito no que pode ser dito em 3 minutos
Por isso eu grito, só te peço 3 minutos

No caos me sinto à vontade:
a tempestade é meu elemento
No pampa, o vento: violino minuano

Na fria janela de um apartamento
À espera do salto: perigo, suspense
No alto inverno portoalegrense

Só acredito no que pode ser dito em 3 minutos
Só acredito no que pode ser dito em 3 minutos
Por isso eu peço aos 4 ventos: 3 minutos

sábado, janeiro 16, 2016

Não quero jogar fora o pouco tempo que nos resta
Não quero jogar lenha na fogueira das vaidades
Só tenho uma ficha, uma única certeza:
Ninguém vai aceitar chamadas a cobrar

Não adianta reclamar do pouco tempo que nos resta
Nos resta aproveitar antes que seja tarde
Só temos uma escolha:
Um momento apenas ou a vida inteira pra se arrepender

Caiu, !a última ficha caiu!
vai cair a ponte!
!nós vamos cair no rio!
Águas vão rolar, o tempo vai passar
E ninguém vai aceitar chamadas a cobrar

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Não quero muitas e nem poucas palavras. Não quero definições e nem quero sentenças. Quero apenas caminhar com sede e ouvir-me silenciosamente, enquanto atravesso essa vida em tumulto, esse alarde, essa insana busca de tudo, para o nada que preciso.
 Aline Binns

quinta-feira, janeiro 14, 2016

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Eu, em tudo que acho que sei sobre a educação no Brasil e principalmente na cidade de São Paulo, sei que o pensamento, meus senhores e minha senhoras, o pensamento apesar de tudo o que se possa dizer dele, é, hoje, estéril. Por isso não  algum risco de que um dia ele venha a triunfar.

Joaquim Nabuco

terça-feira, janeiro 12, 2016

VIVEMOS HOJE

Vivemos hoje num tempo de chantagem universal, em três formas complementares: a chantagem da violência, a chantagem do consumo e a chantagem do humorismo. 
Com qualquer uma delas, aspira-se sempre à mesma coisa: que o homem vulgar possa sentir-se confortável, à margem dos acontecimentos.

Ortega y Gasset

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Diante da vida, eu jamais tenho o prazer do espetáculo. Eu vivo. Isso de morrer não tem importância, o importante é viver um pouco agitando e encantando a vida. Pra mim, viver é gastar avida. 
 Mário de Andrade

domingo, janeiro 10, 2016

Sermão de Santo Antônio (1654): Padre Antonio Vieira
Também conhecido como "O Sermão dos Peixes", pois nele o padre usa a imagem dos peixes como símbolo para fazer uma crítica aos vícios dos colonos portugueses que se aproveitavam da condição dos índios para escravizá-los e sujeitá-los ao seu poder. Leia um trecho do sermão:
Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? (...) Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar o Pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente (...) Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas atitudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios. (...)  

sábado, janeiro 09, 2016

Quando eu não te tinha...
 
 Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo...
Agora Amo a Natureza como um monge calmo a Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até a beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor — Tu não me tiraste a Natureza...
Tu mudaste a Natureza...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim.
Por tu existires, vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e para te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as coisas.
Não me arrependo do que fui outrora
Por que ainda o sou.


Alberto Caeiro

sexta-feira, janeiro 08, 2016

Venham leis e homens de balanças, mandamentos daquém e dalém mundo venham ordens, decretos e vinganças, desça o juiz em nós até ao fundo. Nos cruzamentos da cidade, brilhe, vermelha, a luz inquisidora. Risquem no chão os dentes da vaidade e mandem que os lavemos à vassoura a quantas mãos existam, peçam dedos para sujar nas fichas dos arquivos não respeitem mistérios, nem segredos, pois que é natural nos homens serem esquivos. Ponham livros de ponto em toda a parte, relógios a marcar a hora exata. Não aceitem outra arte, que não sejam inquérito, local e data. Mas quando nos julgarem bem seguros,cercados de bastões e fortalezas, hão-de cair em estrondo os altos muros. E chegará o dia das surpresas.
José Saramago

quinta-feira, janeiro 07, 2016

E depois de fazer tudo o que fazem, levantam-se, tomam banho, cobrem-se de talco, perfumam-se, penteiam-se, vestem-se, e assim progressivamente vão voltando a ser o que não são.

quarta-feira, janeiro 06, 2016

Um dia desses eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar
Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, janeiro 05, 2016

Estou procurando. Estou procurando. Estou tentando entender.Tentando passar a alguém o que vivi até agora, e não sei a quem. Mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi. Confesso que tenho medo dessa desorganização profunda.



Clarice Lispector



segunda-feira, janeiro 04, 2016

Cuidado! Até cortar os nossos próprios defeitos pode ser perigoso. Pois nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro.
 Clarice Lispector

domingo, janeiro 03, 2016

Como é o lugar quando ninguém passa por ele?
Existem as coisas sem ser vistas? O interior do apartamento desabitado, a pinça esquecida na gaveta, os eucaliptos à noite no caminho três vezes deserto, a formiga sob a terra no domingo, os mortos, um minuto depois de sepultados, nós, sozinhos no quarto sem espelho?

Carlos Drummond de Andrade

sábado, janeiro 02, 2016

O que pode vir a ser fatal para os poderosos, é que para eles as culturas dos outros povos nada mais são do que outras culturas.
H. Strand
 As diferenças se movimentam, com o tempo, elas mudam de lugar, se reorganizam, mas jamais desaparecem.
T. Todorov

sexta-feira, janeiro 01, 2016

Em 2016 não devemos esquecer que a tecnologia é apenas uma ferramenta. O talento, este sim, é tudo. O gênio é ainda um pouco mais que tudo.
Quanto à originalidade, é a mais perigosa das tentações: a de não se parecer com nada. Sozinha, a originalidade é uma qualidade negativa. Precisa de companhia para ter valor. É por isso que o gênio não é feito só de originalidade, mas, antes, de talento. Talento para exprimir o pensamento universal. Já a tecnologia é apenas uma ferramenta. Por si só, é nada.
Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo