sábado, outubro 18, 2014


Até quando?
Nada mais surpreendente do que ver com que facilidade a maioria é governada pela minoria.
É observar ao longo da história a submissão implícita com que os homens sujeitam seus sentimentos e paixões aos de seus governantes.
De que modo se realiza esse prodígio?
Como são os governados que detêm a força (apenas eles, a maioria, não sabem disso!).
Os governantes nada têm por respaldo senão a opinião pública.
É somente na opinião pública que se fundamentam os governos, desde os mais despóticos e militarizados até os mais liberais e populares.
Não é, por isso, estranho o quanto mentem os poderosos com a ajuda dos meios de comunicação.

David Hume

quinta-feira, outubro 16, 2014

Ando só
Foi temendo o isolamento que eu me integrei na multidão.
Isolei-me ainda mais!
Foi receando a miséria que amealhei.
Me tornei miserável!
Foi apavorado ante a morte que me defendi.
E acabei matando!
E pior: foi temendo o medo de ter medo que me tornei medroso. 
 Eduardo Canabrava Barreiros

segunda-feira, outubro 13, 2014

Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,
Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.
Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?
Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?
Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores.

Na noite e ao fim da estrada.
Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.
Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.
 Fernando Pessoa

domingo, outubro 12, 2014

Ninguém sabe
mas você foi o escolhido.
O seu amor é único,
o seu amor é um homem sentado
pensando em seu cachorro morto.
O seu amor é a última orquídea do inverno
é pássaro pedindo água
pupila adormecida.
E você nem se importa
pelo fato de ser melhor.
O seu nariz é grego,
você é tão bonito e nem liga.
É verdade que você tem sofrido muito mas isso faz parte.
Quando você anda na rua as árvores florescem.
Você é meu amigo.
Você é eu.
Renata Pallottini

sábado, outubro 11, 2014

Depois do 2°
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

sexta-feira, outubro 10, 2014

O convite
Se o anarquista que há em mim se junta com o ingênuo que há em você e propõe: "vamos fazer uma República Utópica?".
O princípio da realidade passa com a sirene aberta, pára e nos autua em flagrante.
Alex Polari

quinta-feira, outubro 09, 2014

Amor é quando é concedido participar um pouco mais.
Amor é a grande desilusão de tudo mais.
Amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter inclusive amor.
É a desilusão do que se pensava que era amor.
Amor não é prêmio por isso não envaidece.
Clarice Lispector

quarta-feira, outubro 08, 2014

Por si só, a realidade não vale nada. É a percepção que dá sentido à realidade.
Existe uma hierarquia entre as percepções, até sobre os sentidos. As mais refinadas e sensíveis figuram no topo.
Refinamento e sensibilidade se originam na única fonte possível: a cultura. Cultura, cujo instrumento principal é a linguagem.
A avaliação da realidade feita através de um prisma como este - a cultura - é, portanto, a mais precisa; provavelmente, a mais justa.
 Joseph Brodsky

terça-feira, outubro 07, 2014

O desbarato mais absurdo não é o dos bens de consumo, mas o da humanidade: milhões e milhões de seres humanos nasceram para ser trucidados pela História, milhões e milhões de pessoas que não possuíam mais do que as suas simples vidas. De pouco ela lhes iria servir, mas nunca faltou quem de tais miuçalhas tivesse sabido aproveitar-se. A fraqueza alimenta a força para que a força esmague a fraqueza. 
 José Saramago

segunda-feira, outubro 06, 2014

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.

Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres, é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?

O mar da história é agitado.
As ameaças e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio, cortando-as
como uma quilha corta as ondas.
Maiakoviski
A verdade é tudo aquilo que o homem precisa para viver, não pode ganhar nem comprar dos outros.
Todo homem deve produzi-la sempre no seu íntimo, se não ele se arruína.
Viver sem a verdade é impossível, mas não exagere o culto da verdade.
Não há um único homem no mundo, que não tenha mentido muitas vezes e com razão.
 Franz Kafka

domingo, outubro 05, 2014


Poemas não são para serem publicados
Poemas são Drag Queens
Rolando piteiras em puteiros ou somos nós,
Poetas velhos de caras borradas
Poetas de cinco centavos
Poemas não são para serem publicados


Poemas são para serem escritos
Às vezes rasgados
Às vezes guardados
Podem ser confessionais, imorais de vanguarda
Podem ser apenas a voz humílima do guarda
Podem ser criança



Mas em Geral
São sem esperança de serem publicados
Poemas custam caro e não fazem o mesmo efeito de um choque
Não fazem o efeito de um baseado
Poemas não servem para trepar nem nada



Nem sequer tente publicar seus poemas
Faça-os voltar calados às gavetas
Com eles ninguém se meta



Dormirão como dormem os drogados:
tristes, gelados, pesados
mas serão sempre únicos
Sempre ineditamente mediúnicos



Sempre salvos das graças das prebendas
Sempre coisas pudendas (ainda que sujos)



Poemas, sempre úmidos
Noviços, fim de feira
maus de venda e de vida.



Não são nem mesmo um incentivo à leitura,
pois quem vai ler linhas quebradas
oriundas de alma idem?

                                                                 Renata Pallottini

sábado, outubro 04, 2014

Sábado...tem bananada..tem sim senhor
Toda vez que se inaugura um palco os deuses do teatro ficam contentes e festejam! Não porque ganharam um novo templo, são deuses humildes, não querem ser adorados nem gostam... Mas porque sabem que assim os homens ao redor serão mais felizes. Terão ali a oportunidade rara de assistir à própria grandeza, de ver espelhada ali a sua própria grandeza. Ali serão vividas grandes amizades e amores. Ali todos trabalharão juntos, criando acontecimentos que jamais ocorreriam sem o palco. O palco sabe que não é apenas tábuas no chão, que é um gerador de significados. Ali é o lugar onde a imaginação ficará livre, sendo a imaginação o único campo onde um homem é realmente livre. Ali serão discutidos os problemas da comunidade, porque o palco sempre foi a melhor tribuna. Ali homens diante de homens falarão de sua alma, discutirão e compartilharão alegrias e tristezas como se fossem um só. Trabalharão alegremente por um mundo melhor, mais solidário. Inaugurar um teatro é criar uma ilha de liberdade, de lucidez, de solidariedade. Nada une mais as pessoas do que o teatro. Não é apenas um local de diversão, é isso também, mas principalmente é um lugar de reflexão, de descoberta, da revolução e do encontro com o outro.
Domingos de Oliveira                  

sexta-feira, outubro 03, 2014

Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d'aquém e d'além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças,
desça em nós o juízo até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos à vassoura.

A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte
que a prosa de registo, o verso acta.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.
José Saramago

quinta-feira, outubro 02, 2014

Eu sou como um circo de lonas estragadas
Onde o palhaço já não faz mais rir
Onde o trapézio há muito está parado porque o medo foi morar ali.
Eu sou como um circo de lonas estragadas
Em que a banda já não quer tocar
Onde as jaulas se restaram abertas porque nem bicho se deixou ficar.
Eu sou como um circo de lonas estragadas
Sem ter mais público para aplaudir
Temendo aqueles que atiram facas
Temendo tudo que lhe quer ferir.
Eu sou como um circo de lonas estragadas
Sem alegria qualquer, sem emoção.
No entanto, existe aquela corda bamba
Onde balança o meu coração.


 Mabel Veloso

quarta-feira, outubro 01, 2014

O Direito a Preguiça

Vivemos um culto ao trabalho que é a negação do bem estar. Então publico aqui dez trechos de um clássico que combate esse culto, O Direito à Preguiça, de Paul Lafargue. Que era genro do Marx, mas isso não vem ao caso. Foi escrito em 1880, mas tem uma estranha atualidade.
Lafargue francês, e seu livro foi uma resposta a um outro que proclamava o Direito ao Trabalho.

1) “Sejamos preguiçosos em tudo, exceto em amar e em beber, exceto em sermos preguiçosos.”

2)”O trabalho é a causa de toda a degenerescência intelectual, de toda a deformação orgânica. Comparem o puro-sangue das cavalariças de Rothschild, servido por uma criadagem de bímanos, com a pesada besta das quintas normandas que lavra a terra, carrega o estrume, que põe no celeiro a colheita dos cereais.”

3) ”Os filósofos da antigüidade ensinavam o desprezo pelo trabalho, essa degradação do homem livre; os poetas cantavam a preguiça, esse presente dos Deuses.”

4) ”Jeová, o deus barbudo e rebarbativo, deu aos seus adoradores o exemplo supremo da preguiça ideal; depois de seis dias de trabalho, repousou para a eternidade.”

5) ”O provérbio espanhol diz: Descansar es salud (Descansar é saúde).”

6) “A nossa época é, dizem, o século do trabalho; de fato, é o século da dor, da miséria e da corrupção.”

7) “Introduzam o trabalho de fábrica, e adeus alegria, saúde, liberdade; adeus a tudo o que fez a vida bela e digna de ser vivida.”

8) ”Que se proclamem os Direitos da Preguiça, milhares de vezes mais nobres e sagrados do que os tísicos Direitos do Homem; que as pessoas se obrigue a trabalhar apenas três horas por dia, a mandriar e a andar no regabofe o resto do dia e da noite”

9) “O trabalho desenfreado é o mais terrível flagelo que já atacou a humanidade.”


10) “A paixão cega, perversa e homicida do trabalho transforma a máquina libertadora em instrumento de sujeição dos homens livres: a sua produtividade empobrece-os.”
pragmatismopolitico.com.br

terça-feira, setembro 30, 2014

Isto que eu estou sentindo pode-se chamar felicidade.
Só que a própria felicidade é temor, susto, apreensão.
Não dá pra dar felicidade, mas eu gostaria de lhes dar como uma flor.
Deus não me puna os pecados, neles já vem o castigo.
Pecados de egoísmo, indecisão, deixar morrer de fome e comer,
amar demais e não saber amar.
Eu sinto nos ombros a culpa do mundo mas sozinho sucumbo.
Eu choro no cinema.
Paulo Hecker Filho

segunda-feira, setembro 29, 2014

O que não tenho é desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os...
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!

 Manuel Bandeira

domingo, setembro 28, 2014

Entre o autor e o público, posta-se o intermediário.
E o gosto do intermediário é bastante intermédio, medíocre.
Medianeiros médios pululam nos meios, onde, galopando, teu pensamento chega.
Um deles considera tudo sonolento:
"sou homem de outra têmpera! perdão", e repete um só refrão:
"O público não compreenderá".
Camponês, só viu um faz tempo, antes da guerra.
Operários, deu com dois, uma vez, numa ponte, vendo subir a água da enchente.
Mas diz que os conhece como a palma da mão. Que sabe tudo o que querem!
Aqui vai meu aparte: chega de chuchotar bobagens para os pobres. Também eles, podem compreender a arte. Logo, que se eleve a cultura do povo!
Uma só, para todos.
 Wladimir Maiakovski

sábado, setembro 27, 2014

Duas festas no Mar
Uma sereia encontrou um livro de Freud no mar.
Ficou sabendo de coisas que o rei do mar nem sonhava.
Quando a sereia leu Freud sobre uma estrela do mar, tirou o pano de prata
que usava para esconder a sua cauda de peixe.
E o mar então deu uma festa.
E no outro dia a sereia achou um livro de Marx dentro de um búzio do mar.
Quando a sereia leu Marx ficou sabendo de coisas que o rei do mar nem sonhava
nem a rainha do mar.
Tirou então a coroa que usava para dizer que não era igual aos peixinhos.
Quebrou na pedra a coroa.
E houve outra festa no mar.

Sosígenes Costa