quarta-feira, dezembro 24, 2014

Ó ideal,
Que estás no meu céu interior, Verdade viva, Que faz minha alma Imortal,
Para que tua tendência Evolutiva. Seja realizada,
Para que teu nome, Se afirme pelo trabalho, Para que tua revelação
Seja manifestada a cada Espetáculo,
A cada espetáculo concede-me A ideia criadora,
Que assim como ela está Entendida no meu coração Seja entendida no meu corpo.
Ó ideal, Preserva-me dos reflexos Da matéria,
Que eu compreenda Que o sofrimento benfeitor Está na origem da minha Encarnação.
Livra-me do desespero E que teu nome seja Santificado
Pela minha coragem  Na prova.
Ó ideal, Faze com que eu Não diferencie
O fracasso do sucesso.
E perdoa a minha Dificuldade de comunicação,
Assim como eu perdoo Os que não têm ouvidos
De ouvir Nem olhos de ver.
Ó ideal, Destrói meu orgulho, Que poderia afastar-me Da tua luz-guia,
Nutre meu devotamento, Porque és,
Ó ideal, A realeza, o equilíbro, a força Da minha intuição.
Plínio Marcos

terça-feira, dezembro 23, 2014

Tédio
Você sabe tão bem quanto eu que uma das principais causas do tédio é a estreiteza de nosso destino.
Todas as manhãs despertamos iguais ao que éramos na véspera.
Ser eternamente o mesmo é insuportável para os espíritos refinados pela reflexão.
Sair do próprio eu é um dos sonhos mais inteligentes que um homem pode ter.
 Julien Green

segunda-feira, dezembro 22, 2014

Estou procurando. Estou procurando. Estou tentando entender.Tentando passar a alguém o que vivi até agora, e não sei a quem. Mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi. Confesso que tenho medo dessa desorganização profunda que existe em mim..
 Clarice Lispector

domingo, dezembro 21, 2014

O amor é horrível em si mesmo porque não tem regras. E mesmo você, que hoje não está sentindo nada de horror, vai sentir esse horror.

sábado, dezembro 20, 2014

Especular sobre os devaneios das outras pessoas sempre vai te fazer pequeno. Pensar, simples e involuntariamente, já esmaga muito do que você acredita, criando outras certezas que serão esmagadas um pouco depois.
É difícil acreditar em algo que exponha o que você realmente é. É difícil, impossível, ser uma coisa só. Talvez por isso algumas pessoas falem pouco, valorizando o poder do silêncio.
Talvez por isso algumas pessoas falem e riam tanto, mostrando a coragem que querem mostrar que tem, de ser... Seja lá o que for.
Mentimos pra nós mesmos, muitas vezes, só para nos convencermos de que somos tal coisa, de que nunca mudamos ou de que agora somos totalmente diferentes.
A verdade é que a nossa existência depende essencialmente da existência dos outros.
Nós somos tudo o que vimos, tudo do que gostamos, tudo o que fizemos e que normalmente não faríamos. Nós somos aquele calafrio que se sente por alguém com quem você nunca conversou e que nem faz seu tipo, aquela alegria que vem sem explicação, durante o dia mais sem graça, o envolvimento com as personagens de um livro.
Ser é como amar, como ter esperança, essas coisas que não dão pra tocar e das quais a gente vive apanhando.
Thiago Cunha

sexta-feira, dezembro 19, 2014

Devagar, o tempo transforma tudo em tempo. O ódio transforma-se em tempo. O amor transforma-se em tempo. A dor transforma-se em tempo. Os assuntos que julgamos mais profundos, mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis, transformam-se devagar em tempo. Mas, por si só, o tempo não é nada, a idade não é nada, a eternidade não existe.

José Luís Peixoto

quinta-feira, dezembro 18, 2014


Todo o meu esforço canalizo para a vida. Não para o equilíbrio, não para as certezas. Sigo suportando nas costas todo o peso da desesperança, pois que a esperança, é ridículo, dramático, que a humanidade ainda precise dela.
Esperança em quê? Em remédios que curem?... Em poemas que se dão de mão em mão? E as cartas sem resposta? E os becos sem saída? E a nova hipocrisia?
E o deus-dinheiro que nos espreita a cada esquina?... E a África? E a América Latina?...
E todas essas universidades e tantos analfabetos?...
Toda gente sabe a extensão da verdade: surpreendendo a paisagem esfomeada, o gatilho já não precisa do dedo de ninguém.
José Luis Peixoto

quarta-feira, dezembro 17, 2014


Familia - Quem tem Razão

Buscar harmonia é muito difícil, nem sempre faço o que quero, ou seja, faço mas as pessoas não acham que, o que eu fiz foi o certo....
Hoje acordei, sai sem compromisso, andando na avenida São João tentando não pisar nas fezes e o lixo que se acumula no centro velho, velho centro entregue a aventureiros que querem o poder... pensando se a vida fosse ...não... não vou desviar do assunto, família...
A mãe faz tricô
O filho vai à guerra
Acha isso tudo muito natural, a mãe
E o pai que faz o pai?
Faz Negócios
A mulher faz tricô
O filho luta na guerra
Ele negócios
Acha isso tudo muito natural, o pai
E o filho e o filho
o quê que o filho acha?
Nada absolutamente nada acha o filho
Acham isso muito natural, o pai e a mãe
Quer dizer,

O comércio não conhece a morte.

Jacques Prévert

terça-feira, dezembro 16, 2014

"Feminina"


Eu queria ser mulher para poder me estender ao lado dos meus amigos, nos cafés.
Eu queria ser mulher para poder passar pó de arroz pelo meu rosto diante de todos, nos cafés.
Eu queria ser mulher para não ter que pensar na vida...
Conhecer muitos velhos, a quem eu pedisse dinheiro.
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro falando de modas, fazendo fofocas, muito entretida.
Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios, aguçá-los ao espelho antes de me deitar.
Eu queria ser mulher para que me fosse bem todos esses ílios.
Esses ílios que no homem, francamente não se pode desculpar.
Eu queria ser mulher para ter muitos amantes, e enganá-los, a todos, mesmo ao predileto.
Como eu gostaria de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto, o mais bonito.
Enganá-lo com um rapaz gordo, feio e de modos extravagantes.
Eu queria ser mulher para excitar quem me olha-se.
Eu queria ser mulher para poder me recusar.
  Mário de Sá-Carneiro

segunda-feira, dezembro 15, 2014


Há algo de suicida na maneira em que nós, humanos, tratamos as crianças. Nós a deixamos estacionadas na frente do televisor para que engulam horas e horas de programas estúpidos e de violência gratuitas.

elas saem imaturas e inadaptáveis para a nossa sociedade.
As crianças são o pedaço mais frágil desta sociedade que temos. São as primeiras a morrer de fome. As mais maltratadas pelas guerras. Nós as escravizamos, a torturamos, a prostituímos.
Independente do horror e da indecência que isto pressupõe, nós estamos construindo um futuro de monstros. Este inferno deixa pegadas que não desaparecem.

domingo, dezembro 14, 2014


Esbarram em mim, nem noto. 
Eu vejo pelas costas: mulato alto, roupas gastas, mas moda jovem. Cabelo rente, boné. Ele correu ao perceber alguém do outro lado da rua. Um branco, classe média, os dois com 17 anos. Talvez colegas no curso pré-vestibular ali perto. Sem dúvida, amigos. Mulato e branco, o Brasil. E ali, mais que o Brasil, o homem. Falam-se com uma felicidade que acende um ao outro. E essa felicidade acende até a mim. Tem tudo para se dizer e não podem parar de sorrir, desde que se viram. Eu também sorrio, sem intenção, pelo que sentem sem precisar saber que na amizade está a vida.

sábado, dezembro 13, 2014

O que sei 
Se eu soubesse algo que me fosse útil, mas prejudicial à minha família, eu rejeitaria. Se eu soubesse algo que fosse útil à minha família, mas prejudicial ao meu país, eu esqueceria. Se eu soubesse algo que fosse útil ao meu país, mas prejudicial à humanidade, eu consideraria esse algo um crime.
 Charles de Montesquieu

sexta-feira, dezembro 12, 2014

José
 E agora, José?
A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você?
Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama protesta, e agora, José?Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José?
E agora, José? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio - e agora?  
Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais. José, e agora? 
Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse, a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse…
Mas você não morre, você é duro, José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José! José!
José, pra onde?

quinta-feira, dezembro 11, 2014

Mas eu não sabia, eu não sabia. Não se pode saber tudo. Mesmo o que creio saber, tem horas, que não creio.

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Li num texto sobre o Enrico Fermi, o físico italiano que foi um dos pais da bomba atômica. Um dia resolveu fazer uma alteração no processo que usava para induzir a radioatividade usando neutrons (ou coisa parecida, sou meio fraco em física, na verdade sou contra).

O chumbo não estava dando certo, em vez de chumbo usaria outra coisa. Parafina, decidiu, sem pensar. Foi a decisão mais importante da sua vida, até ali. A colisão com o núcleo de hidrogênio da parafina fazia diminuir a velocidade dos neutrons, e todos sabem o que isso significa.

Espero que saibam, porque eu não sei. O importante é que os nêutrons vagarosos foram os responsáveis, pelo Prêmio Nobel que Fermi ganhou em 1938.

Ele era, segundo o texto, ‘o mais racional e o menos impulsivo dos cientistas’, mas escolhera a parafina num impulso. Tivera a intuição da parafina.

A história da ciência está cheia de sacadas do mesmo tipo, de manifestações do que outro cientista, Michael Polanyi, chama de ‘conhecimento tácito’, ou o que nós sabemos sem saber que sabemos.

Albert Einstein – outro que intuiu e ‘inventou’, muito mais do que deduziu racionalmente ele dizia que tinha um sentimento na ponta dos dedos, que substitui a percepção convencional e a racionalização.

Muitas vezes é a ponta dos dedos que sabe o que nós não sabemos que sabemos. Einstein, aparentemente, consultava a ponta dos seus dedos com frequência.

Tudo isto a respeito de que? Não sei. Eu talvez esteja querendo dizer que se deva recorrer a ponta dos dedos para entender o que se passa na política brasileira hoje, já que os órgãos com que tradicionalmente se avalia a realidade nacional não estão dando conta.

Ou está havendo uma grande mudança disfarçada de nada ou um grande nada disfarçado de mudança. Por aí. Ou não. Se eu não sei nem o que sei, vou saber o que estou dizendo?
 Luiz Fernando Veríssimo

terça-feira, dezembro 09, 2014

Sabe aqueles ambulantes que saíam pela cidade a afiar as facas?
Eu gostava de seu assobio estridente, das chispas de fogo fabricadas pelo metal contra metal, dos olhos infantis que admiravam o relampejar, das cozinheiras e arrumadeiras que, da janela, piscavam para o portuga, padroeiro dos degoladores de galinha.
... o afiador de facas, o pipoqueiro, o sorveteiro, o baleeiro, o leiteiro
... profissões populares que se foram com a rapidez que trouxe o automóvel e o avião, esses aparelhos assassinos do século!
Fui reler o poema de Drummond. “Que século, meu Deus!” Diziam os ratos que começavam a roer o edifício.
 
Graciliano Ramos

segunda-feira, dezembro 08, 2014

Frio. Já é se dar o direito de ser frio. Que dia.
Eu tento passar por ele incógnito. Me entra nos ossos.
É uma questão pessoal. Eu finjo que o frio não me ofende. Talvez se emende, porque o frio tem a delicadeza de um punhal.