sexta-feira, janeiro 29, 2016

Não chame o meu amor de Idolatria 
Nem de ídolo realce a quem eu amo, 
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo. 
É hoje e sempre o meu amor galante, 
Inalterável, em grande excelência; 
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença. 
'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo; 
'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento; 
E em tal mudança está tudo o que primo, 
Em um, três temas, de amplo movimento. 
'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora; 
Num mesmo ser vivem juntos agora.

WS

quinta-feira, janeiro 28, 2016

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma 

quarta-feira, janeiro 27, 2016

Ainda há pouco, era apenas uma estrela
Uma imensa tocha antes do mergulho
Agora vem à tona
Sua ira é intensa
E você deseja saber

Se há algo
Que possa acalmá-lo outra vez
Os pássaros
A lua cheia e todo o céu leitoso
E todas as formas da natureza
Mostravam a grandeza do mundo
Em lágrimas

Condenado como Ulisses
E como príamos
Morto com seus companheiros
Morto com seus companheiros
Morto.... Apareceu
No momento em que a lua ia se elevando
E todo pranto forma a imagem do homem

terça-feira, janeiro 26, 2016

Como é por dentro outra pessoa? Quem é que o saberá sonhar? A alma de outrem é outro universo, com que não há comunicação possível, nem há verdadeiro entendimento. Nada sabemos da alma, senão da nossa. As almas dos outros são olhares, são gestos, são palavras, supondo-se qualquer semelhança no fundo. Entendemo-nos porque nos ignoramos. A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver. 
Fernando Pessoa

segunda-feira, janeiro 25, 2016

Mas olhe para todos ao seu redor e veja o q temos feito de nós e a isso considerado vitória de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. 
Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. 
Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. 
Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. 
Temos construído catedrais, e ficando do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. 
Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.
Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. 
Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. 
Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. 
Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. 
Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. 
Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no q realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. 
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. 
Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. 
Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. 
Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. 
E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia 
Clarice Lispector

domingo, janeiro 24, 2016

 TALVEZ QUEM SABE ...
Talvez, quem sabe um dia, por uma alameda do zoológico, ela também chegará. Ela, que também amava os animais, Entrará sorridente assim como está na foto sobre a mesa. Ela é tão bonita, ela é tão bonita que, na certa, eles a ressuscitarão. O século trinta vencerá o coração destroçado já pelas mesquinharias. Agora vamos alcançar tudo o que não podemos amar na vida com o estrelar das noites inumeráveis. Ressuscita-me, ainda que mais não seja por que sou poeta e ansiava o futuro. Ressuscita-me lutando contra as misérias do cotidiano. Ressuscita-me, por isso ressuscita-me. Quero acabar de viver o que me cabe, minha vida, para que não mais existam amores servis. Ressuscita-me para que ninguém mais tenha De sacrificar-se por uma casa, um buraco. Ressuscita-me para que a partir de hoje, a partir de hoje, a família se transforme e o pai seja pelo menos o universo e a mãe seja no mínimo a terra, a terra, a terra.

Maiakovski

sábado, janeiro 23, 2016

Um dia, tudo será memória. As pessoas que andam naquela rua, as gentis, as sábias, as más, todas, todas serão memória, o mendigo que passa sem o cão, o ginasta, a mãe, o bobo, o cético, a turista, deus, inclusive, regendo o fim das coisas memoráveis, também será memória. Deus e os pardais. Os grandes esqueletos do museu britânico e todo sofrimento serão memória. Eu, sentado aqui, serei só esses versos que dizem haver um eu sentado aqui.

sexta-feira, janeiro 22, 2016

Todo mundo aceita que ao homem cabe pontuar a própria vida: que viva em ponto de exclamação, se tiver a alma dionisíaca. Que viva em ponto de interrogação, em caso de filosofia ou de poesia. E que viva equilibrando-se entre vírgulas e sem pontuação (na política!). O homem só não aceita do homem que use a pontuação fatal: que use, na frase em que vive, o inevitável ponto final

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Esquece o futuro. Ele não te pertence. O presente te basta. Mas é preciso ser rápido quando ele é mau presente, e andar devagar quando se trata de saboreá-lo. Expressões como “passar o tempo” espelham bem a maneira de viver dessa gente prudente, que imagina não haver coisa melhor para fazer da vida. Deixam passar o presente, esquivam-se, ignoram o presente, como se estar vivo fosse coisa desprezível. A natureza nos deu a vida em condições tão favoráveis, que só mesmo por nossa culpa ela poderá se tornar pesada e inútil. 
Montaigne

quarta-feira, janeiro 20, 2016

Ando só
Pois só eu sei
Pra onde ir
Por onde andei
Ando só
Nem sei por que
Não me pergunte
O que eu não sei

Pergunte ao pó
Desça o porão
Siga aquele carro
Ou as pegadas que eu deixei
Pergunte ao pó
Por onde andei
Há um mapa dos meus passos
Nos pedaços que eu deixei

Desate o nó

Que te prendeu
A uma pessoa que nunca te mereceu
Desate o nó
Que nos uniu
Num desatino
Um desafio

Ando só

Como um pássaro voando
Ando só
Como se voasse em bando
Ando só
Pois só eu sei andar
Sem saber até quando
Ando só

terça-feira, janeiro 19, 2016

Como é por dentro outra pessoa? Quem é que o saberá sonhar? A alma de outrem é outro universo, com que não há comunicação possível, nem há verdadeiro entendimento. Nada sabemos da alma, senão da nossa. As almas dos outros são olhares, são gestos, são palavras, supondo-se qualquer semelhança no fundo. Entendemo-nos porque nos ignoramos. A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver.
Fernando Pessoa

segunda-feira, janeiro 18, 2016

A fábula

Era uma vez um planeta mecânico
Lógico, onde ninguém tinha dúvidas
Havia nome pra tudo e para tudo uma explicação
Até o pôr-do-sol sobre o mar era uma gráfico

Adivinhar o futuro não era coisa de mágico
Era um hábito burocrático, sempre igual
Explicar emoções não era coisa ridícula
Havia críticos e métodos práticos

Cá pra nós, tudo era muito chato
Era tudo tão sensato, difícil de agüentar
Todos nós sabíamos decor
Como tudo começou e como iria terminar

Mas de uma hora pra outra
Tudo que era tão sólido desabou, no final de um século
Raios de sol na madrugada de um sábado radical
Foi a pá de cal, tão legal

Não sei mais de onde foi que eu vim
Por que é que estou aqui
E para onde devo ir
Cá pra nós, é bem melhor assim
Desconhecer o início e ignorar o fim
Da fábula

domingo, janeiro 17, 2016

Dos Minuano 3 minutos

Se você me der 3 minutos
Vai entender o que eu sinto
Eu não sou santo, mas não minto (não vou mentir)
Se você me der 3 minutos

Se você me der uma chance
Não vou deixar que a gente dance
Esqueça o que pensa que sabe
Duvide da crença e, quem sabe?

Vai sentir o que eu sinto, se você me der 3 minutos
Só acredito no que pode ser dito em 3 minutos
Por isso eu grito, só te peço 3 minutos

No caos me sinto à vontade:
a tempestade é meu elemento
No pampa, o vento: violino minuano

Na fria janela de um apartamento
À espera do salto: perigo, suspense
No alto inverno portoalegrense

Só acredito no que pode ser dito em 3 minutos
Só acredito no que pode ser dito em 3 minutos
Por isso eu peço aos 4 ventos: 3 minutos

sábado, janeiro 16, 2016

Não quero jogar fora o pouco tempo que nos resta
Não quero jogar lenha na fogueira das vaidades
Só tenho uma ficha, uma única certeza:
Ninguém vai aceitar chamadas a cobrar

Não adianta reclamar do pouco tempo que nos resta
Nos resta aproveitar antes que seja tarde
Só temos uma escolha:
Um momento apenas ou a vida inteira pra se arrepender

Caiu, !a última ficha caiu!
vai cair a ponte!
!nós vamos cair no rio!
Águas vão rolar, o tempo vai passar
E ninguém vai aceitar chamadas a cobrar

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Não quero muitas e nem poucas palavras. Não quero definições e nem quero sentenças. Quero apenas caminhar com sede e ouvir-me silenciosamente, enquanto atravesso essa vida em tumulto, esse alarde, essa insana busca de tudo, para o nada que preciso.
 Aline Binns

quinta-feira, janeiro 14, 2016

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Eu, em tudo que acho que sei sobre a educação no Brasil e principalmente na cidade de São Paulo, sei que o pensamento, meus senhores e minha senhoras, o pensamento apesar de tudo o que se possa dizer dele, é, hoje, estéril. Por isso não  algum risco de que um dia ele venha a triunfar.

Joaquim Nabuco

terça-feira, janeiro 12, 2016

VIVEMOS HOJE

Vivemos hoje num tempo de chantagem universal, em três formas complementares: a chantagem da violência, a chantagem do consumo e a chantagem do humorismo. 
Com qualquer uma delas, aspira-se sempre à mesma coisa: que o homem vulgar possa sentir-se confortável, à margem dos acontecimentos.

Ortega y Gasset

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Diante da vida, eu jamais tenho o prazer do espetáculo. Eu vivo. Isso de morrer não tem importância, o importante é viver um pouco agitando e encantando a vida. Pra mim, viver é gastar avida. 
 Mário de Andrade

domingo, janeiro 10, 2016

Sermão de Santo Antônio (1654): Padre Antonio Vieira
Também conhecido como "O Sermão dos Peixes", pois nele o padre usa a imagem dos peixes como símbolo para fazer uma crítica aos vícios dos colonos portugueses que se aproveitavam da condição dos índios para escravizá-los e sujeitá-los ao seu poder. Leia um trecho do sermão:
Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? (...) Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar o Pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente (...) Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas atitudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios. (...)  

sábado, janeiro 09, 2016

Quando eu não te tinha...
 
 Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo...
Agora Amo a Natureza como um monge calmo a Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até a beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor — Tu não me tiraste a Natureza...
Tu mudaste a Natureza...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim.
Por tu existires, vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e para te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as coisas.
Não me arrependo do que fui outrora
Por que ainda o sou.


Alberto Caeiro

sexta-feira, janeiro 08, 2016

Venham leis e homens de balanças, mandamentos daquém e dalém mundo venham ordens, decretos e vinganças, desça o juiz em nós até ao fundo. Nos cruzamentos da cidade, brilhe, vermelha, a luz inquisidora. Risquem no chão os dentes da vaidade e mandem que os lavemos à vassoura a quantas mãos existam, peçam dedos para sujar nas fichas dos arquivos não respeitem mistérios, nem segredos, pois que é natural nos homens serem esquivos. Ponham livros de ponto em toda a parte, relógios a marcar a hora exata. Não aceitem outra arte, que não sejam inquérito, local e data. Mas quando nos julgarem bem seguros,cercados de bastões e fortalezas, hão-de cair em estrondo os altos muros. E chegará o dia das surpresas.
José Saramago

quinta-feira, janeiro 07, 2016

E depois de fazer tudo o que fazem, levantam-se, tomam banho, cobrem-se de talco, perfumam-se, penteiam-se, vestem-se, e assim progressivamente vão voltando a ser o que não são.

quarta-feira, janeiro 06, 2016

Um dia desses eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar
Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, janeiro 05, 2016

Estou procurando. Estou procurando. Estou tentando entender.Tentando passar a alguém o que vivi até agora, e não sei a quem. Mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi. Confesso que tenho medo dessa desorganização profunda.



Clarice Lispector



segunda-feira, janeiro 04, 2016

Cuidado! Até cortar os nossos próprios defeitos pode ser perigoso. Pois nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro.
 Clarice Lispector

domingo, janeiro 03, 2016

Como é o lugar quando ninguém passa por ele?
Existem as coisas sem ser vistas? O interior do apartamento desabitado, a pinça esquecida na gaveta, os eucaliptos à noite no caminho três vezes deserto, a formiga sob a terra no domingo, os mortos, um minuto depois de sepultados, nós, sozinhos no quarto sem espelho?

Carlos Drummond de Andrade

sábado, janeiro 02, 2016

O que pode vir a ser fatal para os poderosos, é que para eles as culturas dos outros povos nada mais são do que outras culturas.
H. Strand
 As diferenças se movimentam, com o tempo, elas mudam de lugar, se reorganizam, mas jamais desaparecem.
T. Todorov

sexta-feira, janeiro 01, 2016

Em 2016 não devemos esquecer que a tecnologia é apenas uma ferramenta. O talento, este sim, é tudo. O gênio é ainda um pouco mais que tudo.
Quanto à originalidade, é a mais perigosa das tentações: a de não se parecer com nada. Sozinha, a originalidade é uma qualidade negativa. Precisa de companhia para ter valor. É por isso que o gênio não é feito só de originalidade, mas, antes, de talento. Talento para exprimir o pensamento universal. Já a tecnologia é apenas uma ferramenta. Por si só, é nada.
Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo

quinta-feira, dezembro 31, 2015

Quando 2016 nascer, não façam desta vida um estandarte, nem acenem para ele com esperanças de melhores tempos.

Quem garante?
Adaptado de  Alex Polari

quarta-feira, dezembro 30, 2015

Crise e por isso não temos como suprir as necessidades do povo, mas penso que não há sentido na nossa miséria. Fome não é prova de fortaleza, é apenas não ter comido! Esforço não é vergar as costas e arrastar, não é mérito!
A miséria não é condição das virtudes, meus amigos! E não me venham com a beleza das riquezas que fomos capazes de produzir!
Se a nossa gente fosse abastada e feliz, aprenderia as virtudes da abastança e da felicidade. Mas hoje, as virtudes dos pobres nascem... da pobreza!
Eu abomino isso! Sim, abomino! Ou vocês querem que eu minta a nossa gente?
Bertolt Brech

terça-feira, dezembro 29, 2015

Provisoriamente não cantaremos o amor,
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços...
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, e medo das mães, e medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nosso túmulos nascerão flores
amarelas e medrosas.
Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, dezembro 28, 2015

Nada é mais perigoso do que a certeza de ter razão, é preciso refletir tendo a dúvida como companheira.
Quando há um progresso do seu autoconhecimento, é sempre uma má notícia.
Uma das maiores descobertas do século XX foi a da agressiva estupidez com que se comporta um homem quando sabe muito de alguma coisa e ignora todas as demais, ou seja, a especialização é imoral.

domingo, dezembro 27, 2015

Todas as palavras esdrúxulas, como os sentimentos esdrúxulos, são naturalmente ridículas.
  Álvaro de Campos

sábado, dezembro 26, 2015

A alma humana é um manicômio de caricaturas. Se uma alma pudesse revelar-se com verdade, nem houvesse um pudor mais profundo que todas as vergonhas conhecidas e definidas, seria, como dizem da verdade, um poço, mas um poço sinistro cheio de ecos vagos, habitado por vidas ignóbeis, viscosidades sem vida, lesmas sem ser, ranho da subjetividade. Eis a alma.
Bernardo Soares

sexta-feira, dezembro 25, 2015

                                                       Povo e o Brasil
O Brasil ainda tem sorte de ser povo talvez, porque povo é uma palavra com eco. Todo mundo usa essa palavra, mas ninguém sabe direito. Mas eu posso dizer a vocês que a passageira do meu lado, viúva, 60 anos, tem dois gatos de que gosta e dois netos de que não. Os gatos ela comanda, os netos é uma batalha. Sobre este mundo e o outro sabe tudo, ela vê televisão. O país não tem remédio, ninguém tem mais trabalho, os que tem não querem trabalhar, os políticos só roubam, nem vale a pena falar. Aproveita e volta ao sério: sério para ela são as telenovelas, então ela fala sem parar. Ela fala de Big Brother, ela fala da Fazenda, ela fala do Raul Gil, ela fala do povo brasileiro. A passageira do lado é o passageiro em geral, o povo. O louvado povo por discursos e jornal. Há que começar do ovo, porque alguma coisa andou mal.
Então é Natal.

quinta-feira, dezembro 24, 2015

Para Marcel Proust, a maioria considera claras as ideias que estejam tão confusas quanto as suas.
Para Anatole France, uma besteira dita por milhões de bocas não deixa de ser uma besteira.
Para Schiller, o bom senso tem sido de poucos, seria bom pesar os votos, ao invés de contá-los.
Para  Ideilson, a vida só é valida se cada dia nascemos de novo.  

Feliz Natal

quarta-feira, dezembro 23, 2015

O que me basta?
A princípio bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos. Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida, o cinema, o teatro: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar a luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio. Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade. Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.
 Martha Medeiros

terça-feira, dezembro 22, 2015

 Viajar! Perder Países

Ser outro constantemente

Por a Alma não ter raízes

De viver de ver somente


Não pertencer nem a mim

Ir em frente, Ir a seguir

A ausência de ter um fim

E da ânsia de o conseguir


Viajar assim é viagem

Mas faço-o sem ter de meu

Mais que o sonho da passagem

O resto é só terra e céu


Fernando Pessoa

segunda-feira, dezembro 21, 2015

Se eu soubesse algo que me fosse útil, mas prejudicial à minha família, eu rejeitaria. Se eu soubesse algo que fosse útil à minha família, mas prejudicial ao meu país, eu esqueceria. Se eu soubesse algo que fosse útil ao meu país, mas prejudicial à humanidade, eu consideraria esse algo um crime.
 Charles de Montesquieu

domingo, dezembro 20, 2015

E depois de fazer tudo o que fazem, levantam-se, tomam banho, cobrem-se de talco, perfumam-se, penteiam-se, vestem-se, e assim progressivamente vão voltando a ser o que não são.
Julio Cortázar

sábado, dezembro 19, 2015

O que vocês esperavam que acontecesse quando tiraram a mordaça que tapava essas bocas negras? Esperavam que elas lhes lançassem louvores? E essas cabeças que seus avós e seus pais haviam dobrado à força até o chão?
O que esperavam? Que se reerguessem com adoração nos olhos?
Ei-los em pé. Homens que nos olham. Ei-los em pé. Faço votos para que vocês sintam como eu a comoção de ser visto.
Hoje, esses homens pretos nos miram e nosso olhar reentra em nossos olhos. Tochas negras iluminam o mundo e nossas cabeças brancas não passam de pequenas luminárias balançadas pelo vento.
 Jean-Paul Sartre

sexta-feira, dezembro 18, 2015

Já somos o esquecimento que seremos, a poeira elementar que nos ignora, não foi Adão e que é agora todos os homens. Nós somos apenas as duas datas: a do princípio e a do fim. Eu não sou o insensato que se aferra ao mágico som de seu próprio nome. Eu penso com esperança naquele homem que não saberá o que eu fui sobre a terra. Em baixo do indiferente azul do céu, esta meditação é um consolo.
Jorge Luis Borges

quinta-feira, dezembro 17, 2015

Que existe mais, senão afirmar a multiplicidade do real?
A igual probabilidade dos eventos impossíveis?
A eterna troca de tudo em tudo?
A única realidade absoluta?
Seres se traduzem.
Tudo pode ser metáfora de alguma outra coisa ou de coisa alguma.
Tudo irremediavelmente metamorfose!
Paulo Leminski

quarta-feira, dezembro 16, 2015

A criança come o barro pensando comer o ovo. Diz a gente grande: é verme. Não, é fome. A cena se repete, e ela pode comer o descampado inteiro. Uma besta rosnando quieta, babando como cão raivoso.Andemos por esse pátio ausente de morangos. Dividamos nossas fomes, bebamos nossos próprios sangues. A cidade é de Deus, aqui nunca é outono. Nem Bob Esponja faz rir o lábio do menino que descasca. Frieza no sol a pino de quarenta graus. Amamentemos de fúria a ética inventada pelo homem. Pois “cuspe” é a palavra inventada para engolir a seco a mosca que nos tornamos nós!
Araripe Coutinho

terça-feira, dezembro 15, 2015

Por quantas impossíveis geografias

Ainda permaneceremos exilados na fronteira do equívoco

Mesmo nos sabendo vizinhos de terras devolutas?

 Ézio Deda

segunda-feira, dezembro 14, 2015

Esta estrada onde eu moro, entre duas voltas do caminho,
Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem.
Todo mundo é igual. Todo mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única. Até os cães.
Estes cães da roça até parecem homens de negócios:
Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:
Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos,
Que a vida passa! Que a vida, a vida passa!
E que a mocidade vai acabar.
 Manuel Bandeira

domingo, dezembro 13, 2015

Texto de ontem 1926, mas serve muito para hoje.

Eu ouço as vozes eu vejo as cores eu sinto os passos de outro Brasil que vem aí
mais tropical mais fraternal mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças terão as cores das profissões e regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil Lenhador, lavrador, pescador, vaqueiro, marinheiro, funileiro, carpinteiro contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil, ouvidos para ouvir pelo Brasil coragem de morrer pelo Brasil ânimo de viver pelo Brasil mãos para agir pelo Brasil mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis mãos de engenheiro que lidem com tratores europeus e norte-americanos a serviço do Brasil mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).
mãos livres, mãos criadoras, mãos fraternais de todas as cores mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos, sem Irineus, sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores, pretas, brancas, pardas, roxas, morenas, de artistas, de escritores, de operários, de lavradores, de pastores de mães criando filhos, de pais ensinando meninos de padres benzendo afilhados de mestres guiando aprendizes de irmãos ajudando irmãos mais moços de lavadeiras lavando de pedreiros edificando de doutores curando de cozinheiras cozinhando de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.
Mãos brasileiras brancas, morenas, pretas, pardas, roxas tropicais sindicais fraternais.
Eu ouço as vozes eu vejo as cores eu sinto os passos desse Brasil que vem aí.


Gilberto Freyre

sábado, dezembro 12, 2015

Li num texto sobre o Enrico Fermi, o físico italiano que foi um dos pais da bomba atômica. Um dia resolveu fazer uma alteração no processo que usava para induzir a radioatividade usando neutrons (ou coisa parecida, sou meio fraco em física, na verdade sou contra).

O chumbo não estava dando certo, em vez de chumbo usaria outra coisa. Parafina, decidiu, sem pensar. Foi a decisão mais importante da sua vida, até ali. A colisão com o núcleo de hidrogênio da parafina fazia diminuir a velocidade dos neutrons, e todos sabem o que isso significa.

Espero que saibam, porque eu não sei. O importante é que os nêutrons vagarosos foram os responsáveis, pelo Prêmio Nobel que Fermi ganhou em 1938.

Ele era, segundo o texto, ‘o mais racional e o menos impulsivo dos cientistas’, mas escolhera a parafina num impulso. Tivera a intuição da parafina.

A história da ciência está cheia de sacadas do mesmo tipo, de manifestações do que outro cientista, Michael Polanyi, chama de ‘conhecimento tácito’, ou o que nós sabemos sem saber que sabemos.

Albert Einstein – outro que intuiu e ‘inventou’, muito mais do que deduziu racionalmente ele dizia que tinha um sentimento na ponta dos dedos, que substitui a percepção convencional e a racionalização.

Muitas vezes é a ponta dos dedos que sabe o que nós não sabemos que sabemos. Einstein, aparentemente, consultava a ponta dos seus dedos com frequência.

Tudo isto a respeito de que? Não sei. Eu talvez esteja querendo dizer que se deva recorrer a ponta dos dedos para entender o que se passa na política brasileira hoje, já que os órgãos com que tradicionalmente se avalia a realidade nacional não estão dando conta.

Ou está havendo uma grande mudança disfarçada de nada ou um grande nada disfarçado de mudança. Por aí. Ou não. Se eu não sei nem o que sei, vou saber o que estou dizendo?
Luiz Fernando Veríssimo

sexta-feira, dezembro 11, 2015

Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
As ferozes televisões que mostram o mal

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino que chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o que há melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, dezembro 10, 2015

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
É a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.


Murilo Mendes

quarta-feira, dezembro 09, 2015

Entretidos em discutir a morte, anoiteceu e não acendemos a luz.
Não víamos o rosto um do outro.
Com doçura e sem fervor, a voz de Macedonio Fernandez repetia que a alma é imortal.
Garantia que a morte não é nada.
Morrer tinha que ser o menos importante que pode acontecer a um homem.
Eu, Jorge Luis Borges, brincava com a navalha de Macedonio: abria e fechava.
Um acordeom, numa casa vizinha, despachava "la cumparsita", essa choradeira infinita e consternada de que muita gente gosta porque inventaram que é velha.
Então, para podermos continuar discutindo em paz a imortalidade, propus a Macedonio que nos suicidássemos.
Francamente, não lembro se nos suicidamos naquela noite.


Jorge Luis Borges



Revestindo uma couraça de raios laser à prova de bazucas, não ouve o clamor dos pais da pátria, ignora a biblioteca de Jefferson, ele próprio, arquiteto de sua mansão numa época em que se chegou a pensar em adotar o grego clássico, em vez do inglês, como idioma da nova república que antecipou a revolução francesa, que inspirou os libertadores da hispano-américa e os inconfidentes de Minas.

O megamacrosuperherói do bem não está interessado em ouvir mais nada. Nem repara quando Martin Luther King apresenta afro-condolências a uma afro-americana condoleezza verde-hira
ferrúgeo-parda como a estátua da liberdade vista de perto.

O supermacromegacowboy vestido de "mariner" chegou ao limite. Seus olhos azuis são um frio risco de aço: basta de ônus onerosas e inoperosas!
Basta de franceses amolecidos e decadentes e de alemães desleais!

Vênias dadas ao trêfego blair e aos dois porta-vozes de eurodireita: o asinino Aznar, ostentando as medalhas do generalíssimo, e o mafioso Berlusconi, com bufos esgares de Mussolini.

Os dois olhos azuis são agora um único risco de aço.

O dedo no comando está prestes a apertar o botão. O ar tem um ataque cardíaco.

A primeira bomba, como um ovo de assombro, tomba lá onde foi o Zigurat de Babel, ali onde a rainha Semíramis passava tardes amenas e odorantes em seus jardins suspensos.
 Haroldo de Campos

terça-feira, dezembro 08, 2015

Não vou deixar me embrutecer..
O general só tem oitenta homens, e o inimigo, cinco mil. Em sua tenda o general blasfema e chora. Então escreve uma ordem do dia inspirada, que pombos correios espalham sobre o acampamento inimigo. Duzentos soldados inimigos mudam de lado a favor do general. Segue-se uma escaramuça, que o general vence facilmente, e mais dois regimentos inimigos se passam para o seu lado. Agora o inimigo tem oitenta homens e o general cinco mil. Então o general escreve outra ordem do dia e setenta e nove homens passam para o seu lado. Só resta um inimigo, cercado pelo exército do general, que o aguarda em silêncio. Transcorre a noite e o inimigo não passou para o seu lado. O general blasfema e chora em sua tenda. Ao amanhecer o inimigo desembainha lentamente a espada e avança em direção a tenda do general. Entra e olha pra ele. O exército do general debanda e o sol começa a surgir.
 Júlio Cortázar

segunda-feira, dezembro 07, 2015

Morte de fumante... - 22/07/2001


Isso não foi amplamente divulgado

Vejam o que saiu no jornal há poucos dias: Morte de fumante ajuda economia, diz Philip Morris. A companhia americana de cigarros disse ao governo da República Tcheca que a morte prematura de fumantes por câncer tem um impacto positivo nas finanças do país. Segundo a Philip Morris a cada fumante morto o governo deixa de gastar dinheiro na área de saúde e livra-se de pagar aposentadoria. Além disso, o morto abre uma vaga no mercado de trabalho em favor de um desempregado. Essa talvez seja a maior e mais cínica provocação dos últimos e dos próximos anos! Ou será que eles estão certos? Será que é preciso morrer pra resolver as coisas? Bem, tem outra provocação: o espaço tão pequeno que os jornais e a TV abriram para esse assunto.

Mas o Blog do Ideilson tem memoria.

domingo, dezembro 06, 2015

A velhice

Eu cheguei ao limite de minhas capacidades intelectuais
Eu percebo que poderei perdê-las a qualquer momento
Além disso, eu perdi muita gente querida, amigos e parentes
Eu, que tive uma atividade de reflexão, estudo e ensino, rodeado de pessoas que amava, eu me vejo cada vez mais solitário
Quando vivemos uma crise assim, a sabedoria vai embora e perdemos o rumo de nossas reflexões
De que valeram os 31 livros que eu publiquei. O que  sobra de tudo que a gente aprendeu no momento limite. Eu sai a procura de um tipo de sabedoria que me ajudasse a suportar a velhice. Compreendê-la com serenidade
Eu só encontro consolo quando eu recito baixinho, para mim mesmo, os poemas que sei de cor
A repetição é uma forma arcáica de conhecimento, mas é eficaz, quando se vive num momento de domínio da tecnologia e do consumismo.
É repetindo esses poemas que eu aprendo coisas importantes sobre mim próprio


Harold Bloom

sábado, dezembro 05, 2015

O céu está nas nuvens. Altas passam as nuvens.
Ninguém as possui. Ninguém!

Podes vender-me um dólar de água da fonte?
Um nuvem grávida, crespa e suave como uma ovelha?
Ou, quem sabe, água chovida das montanhas, água dos charcos?
Água dos charcos, abandonada aos cães?
Ou uma légua de mar, talvez um lago?

A água cai e corre. A água corre. Passa.
Ninguém a possui. Ninguém.

Podes vender-me terra?
A profunda noite das raízes, dentes de dinossauros,
A cauda espessa de longínquos esqueletos?
Podes vender-me selvas já sepultadas, aves mortas,
Peixes de pedra, enxofre dos vulcões,
Milhões e milhões de anos em espiral crescendo?

Podes vender-me terra?
Podes vender-me?
Podes?

A tua terra é terra minha, todos os pés se apoiam nela.
Ninguém a possui. NINGUÉM!


Nicolás Guillén