sexta-feira, dezembro 04, 2015

Eu salto de telhado em telhado
E com enorme rede de borboletas
Eu caço tecnocratas, caço burocratas
Eu mostro aos alunos
Junto com dinossauros
Gigantossauros, tiranossauros
Que descem obedientes
Pelas paredes da sala de aula
Vasko Popa

quinta-feira, dezembro 03, 2015

Poesia é uma coisa muito rara.
A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem, perdão.
Não peça.

Carlos Drummond de Andrade


quarta-feira, dezembro 02, 2015

Escrever, pense....E S C R E V E R
Para que a escrita seja legível,
é preciso exercitar a mão,
e conhecer todos os caracteres.
Mas para começar a dizer
alguma coisa que valha a pena,
é preciso conhecer todos os sentidos
desses os caracteres,
e ter experimentado em si próprio
todos esses sentidos,
é ter observado no mundo
e no transmundo
todos os resultados que se experimentou.
Cecília Meireles

terça-feira, dezembro 01, 2015

É tão depressa dia e nada nos redime
Alguém não despertou ficou na noite
Vieram de manhã uns homens que varreram
a restante alegria destas ruas
A criança na roda entoará:
estão hoje fundos os pássaros
estão hoje fundos os pássaros
quem no-los tirará de lá?
Tão vasta como o mar a nossa dor
alguém nos poupará de nela naufragar?
Ruy Belo

segunda-feira, novembro 30, 2015

Parece cocaína mas é só tristeza, talvez tua cidade
Muitos temores nascem do cansaço e da solidão
E o descompasso e o desperdício herdeiros são
Agora da virtude que perdemos

Há tempos tive um sonho, não me lembro
não me lembro

Tua tristeza é tão exata
E hoje o dia é tão bonito
Já estamos acostumados
A não termos mais nem isso

Os sonhos vêm e os sonhos vão
O resto é imperfeito

Disseste que se tua voz tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira

E há tempos nem os santos têm ao certo
A medida da maldade
Há tempos são os jovens que adoecem
Há tempos o encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
E só o acaso estende os braços
A quem procura abrigo e proteção

Meu amor, disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
Lá em casa tem um poço
mas a água é muito limpa

domingo, novembro 29, 2015

Eu nunca sei quando as histórias acabam. Por isso sempre fico preso entre uma e outra, ou entre nenhuma e nenhuma outra; entre um recomeço sem fim e um fim sem término.
Talvez por ser mais espectador ou coadjuvante, do que protagonista da minha vida, tenha essa enfermidade de não dar conta de quando baixa o pano. As luzes apagam, o público sai, os colegas limpam a maquiagem e eu continuo lá: com a fala na cabeça, o texto decorado, aguardando a deixa. A deixa que nunca vem.
Sempre tive medo das coisas e das pessoas. Um pavor e uma falta de fé.Ttalvez por isso eu tenha criado minha própria companhia teatral, onde sou diretor; contra-regra; atores e público. Enceno só para mim uma tragicomédia.
A realidade me faz tão mal e me deixa tão fraco que fico, no fundo do palco, muitas vezes, a sussurrar o texto a mim mesmo. Às vezes não ouço. Quase sempre não ouço, porque sussurro baixo e minha voz é trêmula… O público não entende a peça, logo, não aplaude.
Eu, furioso, demito a todos: ao autor; ao diretor; aos atores… expulso o público do teatro e ateio fogo a tudo. E ali dentro fico eu, junto às cortinas e aos holofotes, incandescentes; queimando, queimando, queimando…

sábado, novembro 28, 2015

Fizeste bem em partir, Arthur Rimbaud! Teus dezoito anos refratários à amizade, à maledicência, à tolice dos poetas de Paris, bem fizeste em dispersá-lo pelo vento do largo, de lançá-los ao gume da sua precoce guilhotina. Tiveste razão em abandonar o boulevard dos preguiçosos, o bom dia dos simples. Este pulso absurdo do corpo e da alma, esta bala de canhao que atinge o alvo e o explode. Sim, está é a vida de um homem.
René Char

sexta-feira, novembro 27, 2015

Eu sou como um circo de lonas estragadas
Onde o palhaço já não faz mais rir
Onde o trapézio há muito está parado
porque o medo foi morar ali.
Eu sou como um circo de lonas estragadas
Em que a banda já não quer tocar
Onde as jaulas se restaram abertas
porque nem bicho se deixou ficar.
Eu sou como um circo de lonas estragadas
Sem ter mais público para aplaudir
Temendo aqueles que atiram facas
Temendo tudo que lhe quer ferir.
Eu sou como um circo de lonas estragadas
Sem alegria qualquer, sem emoção.
No entanto, existe aquela corda bamba
Onde balança o meu coração. 
Mabel Veloso

quinta-feira, novembro 26, 2015

O mundo é um pensamento encadeado. Quando algo se consolida, os pensamentos libertam-se. Quando algo se desfaz, os pensamentos encadeiam-se.

Novalis

quarta-feira, novembro 25, 2015

Vivendo a mais de16 anos na Educação estava eu vendo as noticias sobre como anda as escolas no Brasil, lembrei de Hannah Arendt 

Todo aquele que se isolar da convivência política com as pessoas – por maior que seja sua força e por mais válidas que sejam suas razões - estará renunciando ao poder. Ou seja, estará se tornando impotente. Hannah Arendt.

Pergunto sem ter medo de ouvir a resposta, Onde esta a Liberdade?

terça-feira, novembro 24, 2015

Às vezes me perguntam como eu, escritor e roteirista, reajo ao poder das novas tecnologias que transformaram o mundo da palavra escrita. Eu me divirto inventando uma história que em meados do século XIX alguém pergunta a Gustave Flaubert, grande escritor, se a substituição das canetas com pena de ganso, pelas canetas com pena de metal mudou a literatura francesa. E faço Flaubert responder: acho que não, mas mudou a vida dos gansos

Jean-Claude Carrière

segunda-feira, novembro 23, 2015

Semelhanças? Mera coincidência.
Nós estamos perdidos há muito tempo...
O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada.
Os carácteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido.
Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos, ninguém!
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Por toda parte dizem: “o país está perdido!”
Algum opositor do atual governo?... Não!
José Maria de Eça de Queirós (escrito em Portugal 1871)

domingo, novembro 22, 2015

Eu possuo mais o mundo em minha cabeça quando sou capaz de vê-lo em miniatura, pois só assim seus valores se condensam e enriquecem. Não basta uma dialética platônica do grande e do pequeno para conhecer as virtudes dinâmicas da miniatura.
É preciso ultrapassar a lógica para viver o que há de grande no pequeno.
Gaston Bachelard

sábado, novembro 21, 2015

Parem de jogar cadáveres na minha porta.
Tenho que sair– respirar.
Estou seguindo para os jardins de Allambra a ouvir o que diz a água daquelas fontes
e acompanhar o desenho imperturbável dos zeligs.
Não me venham com jornais sangrentos sob os braços.
Parem de roubar meu gado, de invadir meu teto e de semear pregos por onde passo.
Estou em Essauíra, na costa do Marrocos olhando o mar. Ou em Minas
contemplando as montanhas ao redor de Diamantina.
Não me tragam o odorento lixo da estupidez urbana.
Parem de atirar em minha sombra e abocanhar meu texto.
Estou tornando a Delfos naquela manhã de neblinas
ouvindo o que me diz o oráculo em surdina.
Ainda agora embarquei para o Palácio Topkapi frente ao Bósforo,
quando tentaram me esfaquear na esquina.
Jamais permitirei que quebrem as porcelanas e roubem a gigantesca esmeralda na real vitrina.
Não me chamem para a reunião de condomínio.
Estou nos campos da Toscana onde a gigante mão de Deus penteia os montes
e minha alma se sente pequenina.
Dei de mão comendas e insígnias não tenho mais que na praça erguer protestos
e distribuir esmolas não é mais a minha sina.
Acabo de entrar no Pavilhão da Harmonia Preservada e me liberto
– na Cidade Proibida na China.
Não adianta o clamor de burocráticos compromissos nem vossa ira. Tenho oito anos
saí para nadar naquele açude atrás dos morros e vou pescar a minha única e inesquecível traíra.
Parem de jogar cadáveres na minha porta na minha mesa na minha cama
dificultando que alcance o corpo da mulher que amo.
Afastem de mim o meu o vosso cálice.
Impossível ficar no tempo que me coube o tempo todo preciso repousar num campo de tulipas
reaprendendo a ver o que era o mundo antes de como um Sísifo moderno desesperado julgar
– que o tinha que carregar.
 Affonso Romano de Sant'Anna

sexta-feira, novembro 20, 2015

A crônica é um jeito que o brasileiro descobriu para fazer poesia à paisana, contos à paisana, romances à paisana. É um golpe civil. Crônica tem uma superficialidade enganosa: por ser curta e de temas prosaicos, parece que é inofensiva. Sua profundidade reside no tom baixo de amizade. Sua agressividade é a ternura. Escrever crônicas é fazer amizades, contar segredos e confidências, é ajudar verdadeiramente as pessoas a não se conformarem.
Fabrício Carpinejar

quinta-feira, novembro 19, 2015

Para que a escrita seja legível,
é preciso dispor os instrumentos,
exercitar a mão,
conhecer todos os caracteres.
Mas para começar a dizer
alguma coisa que valha a pena,
é preciso conhecer todos os sentidos
de todos os caracteres,
e ter experimentado em si próprio
todos esses sentidos,
e ter observado no mundo
e no transmundo
todos os resultados dessas experiências.
Cecília Meireles

quarta-feira, novembro 18, 2015

Duas Situações Interessantes: Quando o pensamento anda mais rápido que a língua, e quando a língua anda mais rápido que o pensamento! Qual é o pior? O pior é quando o pensamento e a linguagem andam na mesma marcha. Aí começa o tédio!...

Jean Baudrillard 

terça-feira, novembro 17, 2015

Também eu sou um homem mortal, igual a todos, filho do primeiro que a terra modelou, feito de carne, no seio de uma mãe, onde, por dez meses, no sangue me solidifiquei, de viril semente e do prazer, companheiro do sono.

Ao nascer, também eu respirei o ar comum.
E, ao cair na terra que a todos recebe igualmente, estreei minha voz chorando, igual a todos.

Criaram-me com mimo, entre cueiros.
Nenhum rei começou de outra maneira.
Idêntica é a entrada de todos na vida, e idêntica é a entrada de todos na saída.

segunda-feira, novembro 16, 2015

A poesia está guardada nas palavras - é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não entender quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não cultivo conexões com o real.
Para mim, poderoso não é aquele que descobre ouro,
Poderoso para mim é aquele que descobre as insignificâncias
do mundo e nossas.
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei muito emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.
 Manoel de Barros

domingo, novembro 15, 2015

Já me fizeram muitas vezes esta pergunta: "você quer destruir tudo, mas o que surgirá depois?" respondi com um trecho de um poema de Brecht:

"A parábola do Buda sobre a casa em chamas".

Buda disse: "uma casa estava pegando fogo. Havia gente lá dentro. Alguém gritou-me pela janela: como está o tempo aí fora? chovendo? ventando?

"Afastei-me sem responder"

sábado, novembro 14, 2015

Os impactos de amor não são poesia
O que é poesia, o belo? Não, o belo não é poesia,
E o que não é poesia não tem fala.
Nem o mistério em si nem velhos nomes
Poesia são: coxas, fúria, cabala.
De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
Se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?
  Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, novembro 13, 2015

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

quinta-feira, novembro 12, 2015

A adolescência é um tribunal inesperado.
O julgamento do pai pelo filho.
O julgamento do filho pelo pai. Mas em alguns casos pode  surgir de repente um psicoterapeuta para impetrar um habeas corpus.
Paulo Mendes Campos

quarta-feira, novembro 11, 2015

Deus fez tudo a partir do nada.
Às vezes, o nada ainda aparece no meio do que ele fez.
Paul Valéry é filósofo, 

terça-feira, novembro 10, 2015

Não se espantem, meus amigos: tudo já foi dito alguma vez. Tudo. Mas como ninguém escuta, é preciso dizer de novo.
 André Gide

segunda-feira, novembro 09, 2015

Um dia, pensei: por que você não pensa em uma coisa que nunca pensou? Tinha um lago perto e sempre vinha um peixe que botava a cabeça do lado de fora. Havia gaivotas que mergulhavam no lago e tornavam a sair. Comecei a olhar aquilo e pensar: se o peixe saísse d’água, morreria afogado no ar, mas se a gaivota ficasse dentro da água, morreria afogada. Comecei a olhar os dois elementos da natureza – a água e o ar - e descobri uma coisa bonita: o peixe e o pássaro passam... Sem deixar rastro!
Bartolomeu Campos de Queirós

domingo, novembro 08, 2015

Senhores, senhoras, jovens, crianças ouçam uma belíssima verdade que as pessoas dizem quando tem um grande talento

"Vivemos num tempo de chantagem universal,
Que toma duas formas complementares de escárnio:
Há a chantagem da violência e a chantagem do entretenimento.
Uma e outra servem sempre para a mesma coisa:
Manter o homem simples longe do centro dos acontecimentos."
Ortega y Gasset

sábado, novembro 07, 2015

As pessoas pensam que os cientistas existem para instruí-las e que os artistas - os poetas, os escritores, os músicos, os dramaturgos – existem só para lhes dar prazer.Não ocorre às pessoas que também os artistas têm muita coisa a lhes ensinar.

Ludwig Wittgenstein

sexta-feira, novembro 06, 2015

O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.
A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.
 Ricardo Reis

quinta-feira, novembro 05, 2015

O céu está nas nuvens. Altas passam as nuvens.
Ninguém as possui. Ninguém!
 Podes vender-me um dólar de água da fonte?
Um nuvem grávida, crespa e suave como uma ovelha?
Ou, quem sabe, água chovida das montanhas, água dos charcos?
Água dos charcos, abandonada aos cães?
Ou uma légua de mar, talvez um lago?
A água cai e corre. A água corre. Passa.
Ninguém a possui. Ninguém.
 Podes vender-me terra?
A profunda noite das raízes, dentes de dinossauros,
A cauda espessa de longínquos esqueletos?
Podes vender-me selvas já sepultadas, aves mortas,
Peixes de pedra, enxofre dos vulcões,
Milhões e milhões de anos em espiral crescendo?
Podes vender-me terra?
Podes vender-me?
Podes? 
A tua terra é terra minha, todos os pés se apoiam nela.
Ninguém a possui. NINGUÉM!
 Nicolás Guillén

quarta-feira, novembro 04, 2015

Mergulhar a palavra suja em água sanitária. Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol adquirem consistência de certeza. Por exemplo, a palavra vida.
Existem outras - e a palavra amor é uma delas - que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra, depois enxaguar em água corrente. São poucas as que resistem a esses cuidados, mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tiram sujeira difícil, mas nada. Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão. Agora nunca vi palavra tão suja como perda. Perda e morte, na medida em que são alvejadas, soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura, que é capaz de esvaziar o vigor da língua. O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho em um amaciante de boa qualidade. Agora, se o que você quer é somente aliviar as palavras do uso diário, pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar. O perigo neste caso é misturar palavras que mancham no contato umas com as outras. Culpa, por exemplo. A culpa mancha tudo que encontra e deve ser sempre alvejada sozinha.outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo, já que desejo, sendo uma palavra intensa, quase agressiva, pode, o que não é inevitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade. Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.outro cuidado importante é não lavar demais as palavras. Sob o risco de perderem o sentido. A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva, produz uma oleosidade que dá vigor aos sons. Muito importante na arte de lavar palavras é saber reconhecer uma palavra limpa. Conviva com a palavra durante alguns dias. Deixe que se misture em seus gestos, que passeie pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite, não a seu lado mas sobre seu corpo. Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne, prolifera em toda sua possibilidade. Se puder suportar essa convivência até não mais perceber a presença dela, então você tem uma palavra limpa.
Uma palavra limpa é uma palavra possível.
 Viviane Mosé

terça-feira, novembro 03, 2015

A Verdadeira Liberdade
A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos,
Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!

A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
A liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
Como o luar quando as nuvens abrem
A grande liberdade cristã da minha infância que rezava
Estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim...
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente,
A noção jurídica da alma dos outros como humana,
A alegria de ter estas coisas, e poder outra vez
Gozar os campos sem referência a coisa nenhuma
E beber água como se fosse todos os vinhos do mundo!

Passos todos passinhos de criança...
Sorriso da velha bondosa...
Apertar da mão do amigo [sério?]...
Que vida que tem sido a minha!
Quanto tempo de espera no apeadeiro!
Quanto viver pintado em impresso da vida!

Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade,
Dêem-ma no púcaro velho de ao pé do pote
Da casa do campo da minha velha infância...
Eu bebia e ele chiava,
Eu era fresco e ele era fresco,
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.
Que é do púcaro e da inocência?
Que é de quem eu deveria ter sido?
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?

Álvaro de Campos, in "Poemas (Inéditos)"
Heterónimo de Fernando Pessoa

segunda-feira, novembro 02, 2015

O Tumulto
O tumulto concentrado da minha imaginação intelectual...
Fazer filhos à razão prática, como os crentes enérgicos...
Minha juventude perpétua
De viver as coisas pelo lado das sensações e não das responsabilidades.
(Álvaro de Campos, nascido no Algarve, educado por um tio-avô, padre,
que lhe instilou um certo amor às coisas clássicas.) (Veio para Lisboa muito novo ...)
A capacidade de pensar o que sinto, que me distingue do homem vulgar
Mais do que ele se distingue do macaco.
(Sim, amanhã o homem vulgar talvez me leia e compreenda a substância do meu ser,
Sim, admito-o,
Mas o macaco já hoje sabe ler o homem vulgar e lhe compreende a substância do ser.)

Se alguma coisa foi por que é que não é
Ser não é ser?

As flores do campo da minha infância, não as terei eternamente,
Em outra maneira de ser?
Perderei para sempre os afetos que tive, e até os afetos que pensei ter?
Há algum que tenha a chave da porta do ser, que não tem porta,
E me possa abrir com razões a inteligência do mundo?

Álvaro de Campos, in "Poemas"

Heterónimo de Fernando Pessoa

domingo, novembro 01, 2015

Olha que eu achei...



Isto é um protesto


Não me venham falar de mercados, nem de cumprimento de empréstimos internacionais, não me venham falar de vidas acima das possibilidades, quando tantos vivem tão abaixo das suas necessidades!

às armas!
A revolta de novo nas ruas !

http://hojeamanhecimaiscedo.blogspot.com.br

sábado, outubro 31, 2015

É melhor atirar-se à luta em busca de dias melhores, mesmo correndo o risco de perder tudo, do que permanecer estático, como os pobres de espírito, que não lutam, mas também não vencem, que não conhecem a dor da derrota, nem a glória de ressurgir dos escombros. Esses pobres de espírito, ao final de sua jornada na Terra não agradecem a Deus por terem vivido, mas desculpam-se perante Ele, por terem apenas passado pela vida.

sexta-feira, outubro 30, 2015

Fábula dos macacos
Autor: Anônimo
"Uma vez, num vilarejo, apareceu um homem anunciando aos aldeões que compraria macacos por 10 moedas cada. Os aldeões foram à floresta caçar macacos.

O homem comprou centenas de macacos a 10 moedas e então os aldeões diminuíram seu esforço na caça. Aí, o homem anunciou que agora pagaria 20 moedas por cada macaco.
Os aldeões renovaram seus esforços e foram novamente à caça.

Os macacos foram escasseando cada vez mais e os aldeões foram desistindo da busca. A oferta aumentou para 25 moedas e a quantidade de macacos ficou tão pequena que já não havia mais interesse na caça. O homem então anunciou que agora compraria cada macaco por 50 moedas!

Entretanto, como iria à cidade grande, deixaria seu assistente cuidando das compras. Na ausência do homem, seu assistente disse aos aldeões: "olhem na jaula todos estes macacos que o homem comprou. Posso vender cada um a vocês por 35 moedas e, quando o homem retornar da cidade, vocês os revendam a ele por 50 moedas cada."... Os aldeões, espertos, pegaram todas as suas economias e compraram todos os macacos do assistente.

Eles nunca mais viram o homem ou seu assistente, somente macacos por todos os lados.

quinta-feira, outubro 29, 2015

Frio. Já é se dar o direito de ser frio. Que dia
Eu tento passar por ele incógnito. Me entra nos ossos.
É uma questão pessoal. Eu finjo que o frio não me ofende. Talvez se emende, porque o frio tem a delicadeza de um punhal

quarta-feira, outubro 28, 2015

O essencial é saber ver, mas isso, triste de nós que trazemos a alma vestida, isso exige um estudo profundo, aprendizagem de desaprender.
Eu prefiro despir-me do que aprendi, eu procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, desembrulhar-me e ser eu.
 Alberto Caeiro

terça-feira, outubro 27, 2015

Quero escrever o romance do nada. Quero mostrar a mais secreta das suspeitas humanas: a de sua própria inutilidade. Quero insinuar que a religião do trabalho, em seus valores mais altos – a arte e o poema – é também esporte. Quero esmurrar as hipocrisias.
  Júlio Cortázar

segunda-feira, outubro 26, 2015

Uma televisão que não quer o artístico só se dirige ao público existente. A televisão que quer o artístico, vai buscar esse novo público.

domingo, outubro 25, 2015

Maria não consegue dormir. Sua cabeça não para e a carne está inquieta. É noite de chuva. A televisão está ligada, mas todas as atenções estão voltadas à sucessão de ideias e imagens que passam pelo seu corpo. Pensa nos filhos que nunca existiram; no abandono que sofreu dos pais, ao ser doada para um família mais pobre que a sua quando tinha apenas onze anos; nos amores que recusou por medo; na perda, por puro preconceito, do único homem que realmente amou; nos vícios que acumulou; na repartição pública em que passa parte essencial da sua vida; no aborto da sua irmã adotiva; na morte de sua mãe biológica; na doença cardíaca do pai; na fobia constante que sente ao comer; na morte; na angústia de estar sempre só. A cabeça dispara. Parece uma metralhadora de acusações. Ela quer dormir. Não consegue calma alguma. Há alguns meses parou de tomar Rivotril porque domou a síndrome do pânico. Não tem mais nenhum comprimido nos armários. Na televisão passa uma sessão de cinema nacional. Por que sempre escolhem os piores filmes? Volta a fervilhar sua mente. Os brancos da parede ficam mais brancos nestas noites. Pensou em ligar para alguém. Sentiu que seria meio inconveniente telefonar na alta madrugada. Que droga de vida! Lamenta não ter um amigo, um único ser com que pudesse comungar alguma intimidade não fugaz. As horas avançam e Maria continua acelerada. Um infarto, um câncer, um tombo no banheiro, um atropelamento, um tijolo sobre a cabeça, uma bactéria, um assalto, uma infecção aguda e generalizada, um afogamento repentino, um tiro nas têmporas, uma dose excessiva de comprimido. Maria pensa na morte de várias maneiras, mas não tem coragem de ir adiante. Desespera a vida; desespera mais a ideia do desaparecimento. Maria nunca alcançou a doçura. Até seu sorriso é negro. O brilho dos olhos se perde nas imensas e negras olheiras. Ela admite a si mesma que assim não dá mais, que se faz necessário achar uma rota de fuga, uma alternativa para tanto desespero. Os pássaros começam a cantar no pé de limoeiro que plantou na janela de seu quarto. A claridade começa a tingir o espaço. A chuva fina escorre pela vidraça. Maria levanta com a cabeça pesada e o corpo alquebrado. Já na cozinha, começa a fazer o café da manhã. Uma imensa xícara de café preto para espantar o cansaço. No quarto, a televisão anuncia que a semana toda será de chuva, que o índice de desemprego aumentou, que uma mãe atirou seu filho, com apenas um ano e três meses, do viaduto central. Maria olha para dentro da xícara de café. Fica alguns minutos se procurando dentro da negritude matinal.

sábado, outubro 24, 2015

MUDE - Edson Marques

sexta-feira, outubro 23, 2015

Assistindo o Fantástico mundo dos horrores que a TV insiste em fazer-me acreditar lembrei de Jean Rostand
"Não se preocupem, amigos. Não acontecerá nada do que temem. Acontecerá coisa pior!"

Ri sou sensível ao humor

quinta-feira, outubro 22, 2015

A estrela que há em mim se junta com o tucano que há em você e propõe: "vamos fazer uma República Utópica?".
O princípio da realidade passa com a sirene aberta, pára e nos autua em flagrante.
Adaptação livre de  Alex Polari

quarta-feira, outubro 21, 2015

Fazer política é passar do sonho às coisas, do abstrato ao concreto.
A política é o trabalho efetivo do pensamento social.
A política é a trama da história.
A política é a vida e a vida é o presente.
Nesse quadro, o instinto de conservação, o estertor agonizante do passado, se chama reação.
Já a gestação dolorosa, o parto sangrento do presente, se chama revolução.
José Carlos Mariátegui

terça-feira, outubro 20, 2015

Todo mundo aceita que ao homem cabe pontuar a própria vida: que viva em ponto de exclamação, se tiver a alma dionisíaca. Que viva em ponto de interrogação, em caso de filosofia ou de poesia. E que viva equilibrando-se entre vírgulas e sem pontuação (na política!). O homem só não aceita do homem que use a pontuação fatal: que use, na frase em que vive, o inevitável ponto final.

segunda-feira, outubro 19, 2015

Fernando Pessoa

A morte chega cedo,  Pois breve é toda vida  O instante é o arremedo  De uma coisa perdida.  O amor foi começado,  O ideal não acabou,  E quem tenha alcançado  Não sabe o que alcançou.  E tudo isto a morte  Risca por não estar certo  No caderno da sorte  Que Deus deixou aberto.



domingo, outubro 18, 2015

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços E chama-me teu filho. Eu sou um rei que voluntariamente abandonei O meu trono de sonhos e cansaços. Minha espada, pesada a braços lassos, Em mão viris e calmas entreguei; E meu cetro e coroa — eu os deixei Na antecâmara, feitos em pedaços Minha cota de malha, tão inútil, Minhas esporas de um tinir tão fútil, Deixei-as pela fria escadaria. Despi a realeza, corpo e alma, E regressei à noite antiga e calma Como a paisagem ao morrer do dia.

Fernando Pessoa

sábado, outubro 17, 2015

Quem fez mais mal à humanidade: a ciência, a religião ou os bancos?


sexta-feira, outubro 16, 2015

Tudo é novo pra quem é novo. Não ceder ao hábito, que é usura progressiva; e tudo se torna poeirento e cinza, tudo se torna igual ao que somos, tudo se parece e se repete, porque nós nos parecemos e nos repetimos. Seria preciso o homem se acrescentasse à criança, sem ela desprender-se, que a criança subsistisse dentro do homem, que fosse uma base para a construção de acréscimos sucessivos - que não a destruíssem, como acontece. Não basta ser apenas um primitivo, mas é preciso ser também um primitivo. Permanecer "primeiro" em presença das coisas primeiras: elementar diante do elementar; ser capaz de, sempre, transformar-se e não apenas ser: não imóvel, mas em movimento, em meio ao que é móvel; em contato incessante com o que transforma, transformando-se a si próprio, como a criança, entregue totalmente ao exterior, mas com esse retorno a si mesmo, que a criança não tem, em direção a um interior onde se recolhem e se ordenam as coisas.

Charles Ferdinand Ramuz

quinta-feira, outubro 15, 2015

Nós vamos ensinar a você o fervor.
Nossos atos se prendem a nós,
como ao fósforo sua luz.
Nos consome
é verdade,
mas fazem nosso esplendor.
E se nossa alma valeu alguma coisa
é por ter ardido mais intensamente do que outras.
Vamos ensinar a você o fervor.
Uma existência patética.
Não a tranquilidade.
Ser tranquilo é ser trágico.
Eu não almejo outro repouso que o sono da morte.
Espero depois de ter exprimido nesta terra
tudo que havia em mim.
Satisfeito morreu completamente.
Desesperado por fazer ainda mais.
Nossa vida há de ser diante de nós
como um copo de água gelada.
O copo úmido nas mãos de quem
tem febre e quer beber,
e bebe tudo de uma vez.
Sabendo que devia guardar,
mas não podendo tirar dos lábios o copo delicioso.
Tão fresca é a água
e tão apaziguadora da sede.

André Gide

quarta-feira, outubro 14, 2015

É... Vou fingir que sei e acredito. E quando finjo, sou alguém. Quando não finjo, já procuro fingir.
Lucas Lucinger

terça-feira, outubro 13, 2015

Hoje terça -feira, pergunto o que é cultura.
Cultura!... Cultura é tudo aquilo que o homem criou para tornar a vida vivível e a morte defrontável.
Aimée Césaire 

segunda-feira, outubro 12, 2015

Segunda-feira..E se...
E se nada acontecer?
Se os rostos deformados e os sentidos mendigos, os olhos famintos e as mãos que interrogam, a carne que sangra e afoga os desejos;
se tudo isso se transformar em cinza e ausência e a dúvida acenar ainda?
E se o silêncio pesar sobre o grito de angústia, se a esfinge recolher seu sorriso transfigurado, se todos os sonhos forem abortados... e se nada acontecer? E se tudo isso não tiver a menor importância?


Antônio Pinto de Medeiros Filho

domingo, outubro 11, 2015

O salto mortal é meu número especial nesta tarde de domingo.
Não tentarei o trapézio, por não saber voar sobre as cabeças que torcem para a corda arrebentar.
Pensando bem, abrirei a tarde falando ao respeitável público que farei a mágica final: desaparecer sem nunca ter sido visto por ninguém.
 Álvaro Alves de Faria

sábado, outubro 10, 2015

O sexo contém tudo: corpos, almas,
sentidos, provas, purezas, delicadezas, resultados, avisos, cantos, ordens, o mistério materno, o leite seminal,
Todas as esperanças, todos os benefícios, todas as dádivas paixões, amores, encantos, gozos da terra, todos os deuses, juízes, governos, pessoas no mundo e seus seguidores.
Tudo está contido no sexo como parte dele ou como sua razão de ser.

Walt Whitman

sexta-feira, outubro 09, 2015

Não basta fugir. É preciso fugir no bom sentido. Fugir do tédio, da fome, da guerra!... Não se deve fugir excentricamente. É preciso fugir concentricamente. Fugir o mundo, para poder reinventá-lo um dia. Quem sabe, maior, mais verdadeiro, mais essencial, mais justo.
Charles Ferdinand Ramuz

quinta-feira, outubro 08, 2015


Um autor escreveu apenas uma peça de teatro, a ser encenada uma única vez, e naquele que, era em sua opinião, o melhor teatro do mundo, dirigida pelo, também em sua opinião, o melhor diretor do mundo e representada apenas pelos melhores atores do mundo. Esse autor acomodou-se, antes ainda de abertas as cortinas da noite de estreia, no local mais apropriado da galeria, invisível ao público, lá ele posicionou seu fuzil automático e, abertas as cortinas, pôs-se a disparar um tiro mortal na cabeça de todo espectador que, em sua opinião, risse no momento errado. No final da apresentação, só restavam no teatro espectares mortos. Durante toda a encenação, os atores e o administrador do teatro não se deixaram perturbar um só instante pelo autor obstinado e seus tiros.

Niclaas Thomas Bernhard

quarta-feira, outubro 07, 2015

Essas coisas, quando caem no sangue, diluem consigo mesmas todos os tremores cardíacos. Essas coisas, nem tão completamente coisas, são corações e corpos, pequenas porções de um universo onde se enterram juntos o desejo e a teatralidade, álibis humanos de uma vida vagamente míope. Essas coisas, nem tão completamente coisas, são como silêncios e palavras: um eclipsa o outro.
Maurício Monteiro

terça-feira, outubro 06, 2015

No final da tarde, o poeta
Fecha as janelas, cerra
imaginadas cortinas,
encolhe suavemente as asas
e encara o mundo nas brancas quatro paredes. O tempo passeia finas unhas no final da tarde. O poeta mastiga o dia,
gosto neutro de sua boca que escorreu lerdo, morno, entre dedos inábeis e leves pancadas de chuva. No final da tarde, uma sombra se abaixa sobre as palavras. Sob as palavras, um abismo. E há ouro no céu de crepúsculo, há um besouro que agoniza na calçada, e ventos vindos do oeste.

Eunice Arruda

segunda-feira, outubro 05, 2015

Ó infelizes mortais, ó terra deplorável
Ó ajuntamento assustador de seres humanos! Eterna diversão de inúteis dores! Filósofos alienados que proclamam:“tudo vai bem”. Venham contemplar essas ruínas horrendas
esses destroços, esses farrapos, essas cinzas malditas, essas mulheres e essas crianças amontoadas sob mármores partidos, seus membros espalhados;
Cem mil desafortunados que a terra devora, que sangrando, dilacerados, e ainda palpitando enterrados sob seus tetos, sucumbem sem socorro, no horror de tormentas findando seus dias!
Diante dos gritos de suas vozes moribundas, do horror de suas cinzas ainda crepitantes, vocês dirão ;” é a conseqüência de leis eternas que um Deus livre e bom resolveu aplicar?!”
Vocês dirão, vendo esse amontoado de vítimas: “Deus vingou-se,e a morte deles é o preço de seus crimes?!”
Que crime, que falta cometeram essas crianças esmagadas e sangrentas sobre o seio materno? Lisboa, que não mais existe, teria mais vícios que Londres, que Paris, submersas em delícias?
Lisboa está destruída e dança-se em Paris.
espectadores tranqüilos , intrépidos espíritos, contemplando a desgraça desses moribundos, vocês procuram – em paz – as causas do desastre:
mas quando sentem os golpes dos fados inimigos, tornam-se mais humanos e choram como nós. creiam-me: quando a terra abre seus abismos, meu lamento é inocência e meu grito é verdade sempre cercados pelas crueldades do acaso,
pelo furor dos malvados, pelas armadilhas da morte experimentado o abalo de todos elementos,
companheiros de nossos males, permitam lastimá-los.
É o orgulho, dizem vocês, o orgulho sedicioso, que almeja que indo mal, nós possamos ser melhores. Vão interrogar as margens do tejo;
Escavem nos destroços dessa ruína sangrenta;
Perguntem aos moribundos nesse átimo de espanto se é o orgulho que grita “ Ó céu, socorre-me! Ó céu, tenha piedade da miséria humana!”
“Tudo vai bem – dizem vocês – e tudo é necessário”
Por acaso o universo, sem esse abismo, infernal, sem submergir Lisboa, estava sendo pior?
Voltaire

domingo, outubro 04, 2015

Os que tentam corrigir os males da nossa época com ideias que estão na moda – só porque estão na moda – corrigem a aparência viciada das coisas, mas não o fundo delas, que piora sempre.
Michel Eyquem de Montaigne

sábado, outubro 03, 2015

Nada é impossível de mudar,
Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.

Bertolt Brecht

sexta-feira, outubro 02, 2015

Toda vez que um justo grita
um carrasco o vem calar
quem não presta fica vivo
quem é bom, mandam matar
quem não presta fica vivo
quem é bom, mandam matar

foi trabalhar para todos
e vede o que lhe acontece
daqueles a quem servia
já nenhum mais o conhece
quando a desgraça é profunda
que amigo se compadece?

Foi trabalhar para todos
mas, por ele, quem trabalha?
Tombado fica seu corpo
nessa esquisita batalha
suas ações e seu nome
por onde a glória os espalha?

Por aqui passava um homem
(e como o povo se ria!)
Que reformava este mundo
de cima da montaria
por aqui passava um homem
(e como o povo se ria!)
Ele na frente falava
e atrás a sorte corria

por aqui passava um homem
(e como o povo se ria!)
Liberdade ainda que tarde
nos prometia
Cecília Benevides de Carvalho Meireles

quinta-feira, outubro 01, 2015

Estou lúcido.
Estou vivo como as aves em migração.
Começo por amar a realidade... nunca declinei a vida.
Mesmo que tudo esteja contaminado e sem reverso, é a vida que nos povoa; é a vida por inteiro que nos vive!

António Teixeira e Castro

quarta-feira, setembro 30, 2015

Esquece o futuro. Ele não te pertence. O presente te basta. Mas é preciso ser rápido quando ele é mau presente, e andar devagar quando se trata de saboreá-lo. Expressões como “passar o tempo” espelham bem a maneira de viver dessa gente prudente, que imagina não haver coisa  melhor para fazer da vida. Deixam passar o presente, esquivam-se, ignoram o presente, como se estar vivo fosse coisa desprezível.
A natureza nos deu a vida em condições tão favoráveis, que só mesmo por nossa culpa ela poderá se tornar pesada e inútil.

Montaigne

terça-feira, setembro 29, 2015

Que diferença faz para os mortos, para os órfãos e para os excluídos, se a destruição se deu em nome da tirania ou em nome da liberdade?
Gandhi

segunda-feira, setembro 28, 2015

Não há sentido na nossa miséria. Fome não é prova de fortaleza, é apenas não ter comido! Esforço não é vergar as costas e arrastar, não é mérito!
A miséria não é condição das virtudes, meus amigos! E não me venham com a beleza das riquezas que fomos capazes de produzir!
Se a nossa gente fosse abastada e feliz, aprenderia as virtudes da abastança e da felicidade. Mas hoje, as virtudes dos pobres nascem... da pobreza!
Eu abomino isso! Sim, abomino! Ou vocês querem que eu minta a nossa gente?
Bertolt Brecht

domingo, setembro 27, 2015

Que idéia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre deus, a alma e a criação do mundo?
O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!... O único mistério é haver quem pense no mistério.
A luz do sol vale mais que os pensamentos de todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz e por isso não erra.

Fernando Pessoa

sábado, setembro 26, 2015

O Brasil, o Brasil...
O Brasil não é apenas um mundo próprio, mas a soma absurda de uma infinidade de mundos subjetivos e de experiências rituais, que estão muito além do que qualquer sociologia, história ou psicologia conseguiria aprender.

sexta-feira, setembro 25, 2015

Nós vamos ensinar a você o fervor.
Nossos atos se prendem a nós,
como ao fósforo sua luz.
Nos consome
é verdade,
mas fazem nosso esplendor.
E se nossa alma valeu alguma coisa
é por ter ardido mais intensamente do que outras.
Vamos ensinar a você o fervor.
Uma existência patética.
Não a tranquilidade.
Ser tranquilo é ser trágico.
Eu não almejo outro repouso que o sono da morte.
Espero depois de ter exprimido nesta terra
tudo que havia em mim.
Satisfeito morreu completamente.
Desesperado por fazer ainda mais.
Nossa vida há de ser diante de nós
como um copo de água gelada.
O copo úmido nas mãos de quem
tem febre e quer beber,
e bebe tudo de uma vez.
Sabendo que devia guardar,
mas não podendo tirar dos lábios o copo delicioso.
Tão fresca é a água
e tão apaziguadora da sede.

André Gide

quinta-feira, setembro 24, 2015

A indiferença nada mais é que a incapacidade de perceber as diferenças.
É um estado anormal, no qual perde a nitidez a fronteira entre a luz e a escuridão, a alvorada e o crepúsculo, o crime e o castigo, a crueldade e a compaixão, o talento e a mediocridade.
Assim é a indiferença!

quarta-feira, setembro 23, 2015

É PURA INÉRCIA MENTAL SUPOR QUE, À MEDIDA QUE AVANÇA A HISTÓRIA, É MAIOR O ESPAÇO PARA QUE O HOMEM SE REALIZE COMO INDIVÍDUO.
NÃO! A HISTÓRIA ESTÁ CHEIA DE RETROCESSOS E É CERTAMENTE A ESTRUTURA DA VIDA EM NOSSA ÉPOCA O QUE MAIS IMPEDE O HOMEM DE VIVER COMO PESSOA.
 

José Ortega y Gasset

terça-feira, setembro 22, 2015

É possível que, no fundo, sempre restem algumas coisas para serem ditas. É possível também que o afastamento total só aconteça quando não mais restam essas coisas e a gente continua a buscar, a investigar — e principalmente a fingir. Fingir que encontra.

segunda-feira, setembro 21, 2015

Já tinha sido. Portanto, é como se fosse. Não ser mais... Não quer dizer nada. Se é, é e pronto. se foi, já foi. A realidade está aí, à vista de todos. Não há porque desconfiar. É tudo muito simples para se tornar Complicado. Há que aceitar os fatos Como são. Se são, são. Se não são, não são!... Mas, cá entre Nós, eles podem ser como se fossem Ou como poderiam ter sido. E é esse, exatamente,o nosso caso!Já tinha sido. Portanto, é como se fosse. Não ser mais... Não quer dizer nada. Se é, é e pronto. se foi, já foi. A realidade está aí, à vista de todos. Não há porque desconfiar. É tudo muito simples para se tornar Complicado. Há que aceitar os fatos Como são. Se são, são. Se não são, não são!... MasJá tinha sido. Portanto, é como se fosse. Não ser mais... Não quer dizer nada. Se é, é e pronto. se foi, já foi. A realidade está aí, à vista de todos. Não há porque desconfiar. É tudo muito simples para se tornar Complicado. Há que aceitar os fatos Como são. Se são, são. Se não são, não são!... Mas, cá entre Nós, eles podem ser como se fossem Ou como poderiam ter sido. E é esse, exatamente,o nosso caso!, cá entre Nós, eles podem ser como se fossem Ou como poderiam ter sido. E é esse, exatamente,o nosso caso!
Fernando Aguiar

domingo, setembro 20, 2015

Estes senhores da cidade, senhores compenetrados que já não sabem dançar à noite sob o luar, que já não sabem andar sobre a carne de seus pés, que já não sabem contar histórias noite adentro!... ora, escuta mundo branco! escuta nos seus argumentos grandiosos o seu miserável estertor. quanto a nós, negros, só nos resta a piedade. piedade para os nossos vencedores oniscientes e ingênuos! 
Léopold Senghor