quarta-feira, agosto 12, 2015

Teste para ver a verdade 
As coisas raramente são o que parecem. A ignorância, que nada vê além da casca, se transforma exatamente em desilusão quando penetra no interior dos acontecimentos.

Em tudo a mentira chega primeiro, arrastando os tolos e a boa fé. Os tolos e a boa fé estão arrastados atrás de si. A verdade está sempre atrasada, é sempre a última a chegar. A verdade arrasta-se sempre atrás do tempo.

A verdade não é uma coisa engraçada, porque se fosse uma coisa engraçada todo mundo diria só a verdade.
Baltasar Gracián

terça-feira, agosto 11, 2015

Ai tempo
Nem é bom pensar nessas coisas mortas, muito mortas.
Os séculos cheiram a mofo
E a história é cheia de teias de aranha.
O presente vem de mansinho
De repente dá um salto:
É um cartaz de um filme americano
Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, agosto 10, 2015

“Ah!”, disse o rato, “o mundo fica cada dia a dia mais estreito. Primeiro, ele era tão amplo que eu tinha medo . Eu corria sempre pra frente.Eu ficava às vezes feliz por ver finalmente ao longe muros. Muros a direita, à esquerda, mas estes longos muros rumam tão depressa um em direção ao outro que já estou na última sala, e lá no canto está a ratoeira para a qual eu corro”.

“Bem, mas você só precisa mudar de direção”, disse o gato e devorou-o.
Franz Kafka

domingo, agosto 09, 2015

 Meu velho
Esses seus cabelos brancos, bonitos
Esse olhar cansado, profundo
Me dizendo coisas, um grito
Me ensinando tanto, do mundo...
E esses passos lentos, de agora
Caminhando sempre comigo
Já correram tanto na vida
Meu querido, meu velho, meu amigo

Sua vida cheia de histórias
E essas rugas marcadas pelo tempo
Lembranças de antigas vitórias 
Ou lágrimas choradas ao vento
Sua voz macia me acalma 
E me diz muito mais do que eu digo
Me calando fundo na alma
Meu querido, meu velho, meu amigo

Seu passado vive presente
Nas experiências contidas
Nesse coração consciente
Da beleza das coisas da vida
Seu sorriso franco me anima 
Seu conselho certo me ensina
Beijo suas mãos e lhe digo
Meu querido, meu velho, meu amigo

Eu já lhe falei de tudo,
Mas tudo isso é pouco
Diante do que sinto...
Olhando seus cabelos tão bonitos,
Beijo suas mãos e digo
Meu querido, meu velho, meu amigo
Quem disse que por de trás daquela barba que nos arranha o rosto não tem um coração moleque querendo brincar? 
Quem disse que por detrás daquela voz grossa não tem um menino criativo querendo falar? Quem foi que falou que aquelas mãos grandes não sabem fazer carinho se o filho chorar? Quem foi que pensou que aqueles pés enormes não deslizam suaves na calada da noite para o sono do filho velar? 
Quem é que achou que no fundo do peito largo e viril não tem um coração de pudim quando o filho amado, com um sorriso largo, se põe a chamar? 
Quem foi que determinou que aquele coroa de cabelos brancos não sabe da vida para querer me ensinar? 
Pai, você me escolheu filho, eu te fiz exemplo!

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sábado, agosto 08, 2015

Quem pensa por si mesmo é livre
E ser livre é coisa muito séria
Não se pode fechar os olhos
Não se pode olhar pra trás
Sem se aprender alguma coisa pro futuro

Corri pro esconderijo
Olhei pela janela
O sol é um só
Mas quem sabe são duas manhãs

Não precisa vir 
Se não for pra ficar
Pelo menos uma noite
E três semanas

Nada é fácil
Nada é certo
Não façamos do amor
Algo desonesto

Quero ser prudente
E sempre ser correto
Quero ser constante
E sempre tentar ser sincero

E queremos fugir
Mas ficamos sempre sem saber

Seu olhar
Não conta mais histórias
Não brota o fruto e nem a flor

E nem o céu é belo e prateado
E o que eu era eu não sou mais
E não tenho nada pra lembrar

Triste coisa é querer bem
A quem não sabe perdoar
Acho que sempre lhe amarei
Só que não lhe quero mais

sexta-feira, agosto 07, 2015

Sei o que estou fazendo aqui: estou improvisando. Mas que mal tem isso? Improviso, como no jazz improvisam música, jazz em fúria, improviso diante da plateia.
Clarice Lispector

quinta-feira, agosto 06, 2015

O Senhor Richard Löwenthal acredita que a moderna tecnologia reforça a posição dos especialistas em todos os setores da sociedade que vivemos, não só a dos especialistas da técnica, mas também a dos especialistas da organização e da tomada de decisões. De fato o senhor Löwenthaltem razão. Mas isso torna cada vez mais importante saber quem são esses especialistas. São especialistas da guerra ou especialistas da paz? São especialistas da exploração intensiva ou especialistas de uma técnica social e econômica que deseja o inverso? Eu acredito que o papel dos intelectuais é o de zelar para que se formem no futuro os especialistas da libertação. Melhor, para mim a especialização é imoral.
 Herbert Marcuse

quarta-feira, agosto 05, 2015

A vida é uma partida que precisa sempre ser perdida.
Sainte-Beuve

terça-feira, agosto 04, 2015

A vida se parece com esses militares reformados que envergam o uniforme inutilmente. De que adianta que tão cedo se levantem? De noite já estão com armas, inseguros - falando: Ah, minha vida, Ah minha vida – e contendo as lágrimas. Já é tarde de mais pra aprender a viver. Que de noite solucem juntas as nossas almas. Quanta desgraça é preciso para a menor canção? Quanta tristeza para apagar o fervor? Quantos suspiros para a mais simples música? Não existe amor feliz.

Louis Aragon

segunda-feira, agosto 03, 2015

Quanto mais bem formuladas estejam as idéias, quanto mais explícitas elas forem, menor será a sua eficácia: uma idéia clara é uma idéia sem futuro!
Emil Cioran

domingo, agosto 02, 2015

Todo mundo aceita que ao homem cabe pontuar a própria vida: que viva em ponto de exclamação, se tiver a alma dionisíaca. Que viva em ponto de interrogação, em caso de filosofia ou de poesia. E que viva equilibrando-se entre vírgulas e sem pontuação (na política!). O homem só não aceita do homem que use a pontuação fatal: que use, na frase em que vive, o inevitável ponto final.

sábado, agosto 01, 2015

sexta-feira, julho 31, 2015

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.
Oswald de Andrade

quinta-feira, julho 30, 2015

Eu escrevi um dia que a cólera dos imbecis encheria o mundo. O mundo está pela boca.
Ao prever esse dilúvio, eu errei somente em falar de imbecis como se eu fosse o que eles chamam de um homem de espírito.
Meu erro, meu erro mais grave, foi que jamais pensei em sacrificar a massa de imbecis à fúria fratricida do que sobra do último resíduo desse povo estranho, desse povo irredutível, invencível. O resíduo, ou antes, a vã espuma dos imbecis refinados, cultos, dos imbecis de luxo que são degenerados. A imbecilidade me aparecia como uma reação natural de defesa.
De geração em geração, os imbecis se acostumaram a compreender equivocadamente, ou a não compreender nada. Talvez os primeiros se contentassem em parecer imbecis.
Os primeiros imbecis talvez fizessem cara de acreditar em tudo que diziam os poderosos, os dignos, os puros. Depois os outros acreditam de verdade, cegamente como sincero, que o piedoso e o justo, quem quer que se apresentasse oficialmente como tal, de somente mudar de opinião com autorização do interessado, certificado diante de um tabelião que ele não era sincero, nem verídico, nem piedoso e nem  justo.
Abujamra

quarta-feira, julho 29, 2015

Vem, Noite antiquíssima e idêntica, 
Noite Rainha nascida destronada, 
Noite igual por dentro ao silêncio.
Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,
E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar. 
Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Das Tristezas dos Desprezados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes,
Sabor de água sobre os lábios secos e cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte vívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que seja talvez o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos,
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando em tudo... 
Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E sorriste porque tudo te é falso e inútil. 
Vem, Noite silenciosa e estática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração... 
 Álvaro de Campos

terça-feira, julho 28, 2015

A mulher de um artista deve também ser um gênio. E poder reunir nela sozinha uma dúzia de mulheres.
É preciso que ela saiba dissimular sua tristeza, quando ele coloca um muro de gelo na frente de sua ternura.
E se alguém chamá-la, claro, ela fica sem recursos, mas pouco importa. O artista só ama a sua arte, o que faz dele um egoísta. Mas um egoísta nobre. Ele esquece tudo que possa atrapalhar a sua arte, não suporta que cheguem até ele, não suporta que o acompanhem. Ele está sempre criando, e sempre sob tensão. Não quer ninguém ligado a ele, não quer absolutamente nada, mesmo que seja um momento muito terno.
É preciso deixá-lo fazer o que ele quer fazer sem jamais perguntar a razão. Não esperar nada, dar tudo, se calar quando ele estiver de mau humor e segui-lo quando ele estiver iluminado.
Última coisa: ama-lo de todo coração e não existir para si mesmo, ele não mudará nunca.

segunda-feira, julho 27, 2015

Os sábios geralmente morrem loucos.
Os tolos morrem sufocados pelos conselhos.
Morre-se de idiotice quando se raciocina demais.
Alguns morrem por sentir tudo,
Outros morrem por não sentir nada.
Alguns são tolos porque não morrem de sentimento,
E outros são tolos porque morrem de sentimento.
É bobagem sucumbir por excesso de inteligência.
Alguns morrem por entender tudo,
E outros vivem por não entender nada.
Embora muitos morram de tolice,
Poucos tolos chegam a morrer de fato,
Pois poucos começaram a viver

Baltasar Gracián

domingo, julho 26, 2015


LEVEZA

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.

E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.

E o desejo rápido
desse antigo instante,
mais leve.

E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.   

Cecilia Meireles

sábado, julho 25, 2015

Eu hoje tive um pesadelo
E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com o seu carinho
E lembrei de um tempo

Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo

Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei, nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E que não tem fim

De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás

Cazuza

sexta-feira, julho 24, 2015

quinta-feira, julho 23, 2015

A poesia está guardada nas palavras - é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não entender quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não cultivo conexões com o real.
Para mim, poderoso não é aquele que descobre ouro,
Poderoso para mim é aquele que descobre as insignificâncias
do mundo e nossas.
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei muito emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.

Manoel de Barros

quarta-feira, julho 22, 2015


Quero lhe implorar
Para que seja paciente
Com tudo o que não está resolvido em seu coração e tente amar.
As perguntas como quartos trancados e como livros escritos em língua estrangeira.
Não procure respostas que não podem ser dadas porque não seria capaz de vivê-las. E a questão é viver tudo. Viva as perguntas agora.
Talvez assim, gradualmente, você sem perceber, viverá a resposta num dia distante.
Rainer Maria Rilke

terça-feira, julho 21, 2015

Toda vez que um justo grita
um carrasco o vem calar
quem não presta fica vivo
quem é bom, mandam matar
quem não presta fica vivo
quem é bom, mandam matar

foi trabalhar para todos
e vede o que lhe acontece
daqueles a quem servia
já nenhum mais o conhece
quando a desgraça é profunda
que amigo se compadece?

Foi trabalhar para todos
mas, por ele, quem trabalha?
Tombado fica seu corpo
nessa esquisita batalha
suas ações e seu nome
por onde a glória os espalha?

Por aqui passava um homem
(e como o povo se ria!)
Que reformava este mundo
de cima da montaria
por aqui passava um homem
(e como o povo se ria!)
Ele na frente falava
e atrás a sorte corria

por aqui passava um homem
(e como o povo se ria!)
Liberdade ainda que tarde
nos prometia

Cecília Benevides de Carvalho Meireles

segunda-feira, julho 20, 2015

Timidez
Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…
e um dia me acabarei.
 Cecília Meireles

domingo, julho 19, 2015

Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
 Cecília Meireles

sábado, julho 18, 2015

Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Cecília Meireles 

sexta-feira, julho 17, 2015

Como é por dentro outra pessoa? Quem é que o saberá sonhar? A alma de outrem é outro universo, com que não há comunicação possível, nem há verdadeiro entendimento. Nada sabemos da alma, senão da nossa. As almas dos outros são olhares, são gestos, são palavras, supondo-se qualquer semelhança no fundo. Entendemo-nos porque nos ignoramos. A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver.

Fernando Pessoa

quinta-feira, julho 16, 2015

Ouse... Ouse tudo! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda... A roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!
Lou Andreas-Salomé

quarta-feira, julho 15, 2015

A verdade é tudo aquilo que o homem precisa para viver, não pode ganhar nem comprar dos outros.
Todo homem deve produzi-la sempre no seu íntimo, se não ele se arruína.
Viver sem a verdade é impossível, mas não exagere o culto da verdade.
Não há um único homem no mundo, que não tenha mentido muitas vezes e com razão.
Franz Kafka 

terça-feira, julho 14, 2015

Arte tem que ter ambição. Kynorama: kyno, cinema, rama, espaço. Cinema integral: o próprio filme é a sala de projeção. Você entra na sala, ali dentro é um filme. Tudo é o filme. Arte tem que ter ambição. A arte  invenção é oinconsciente do artista, a arte é delirante. Arte tem que ter ambição. Kynovida: ela me comeu e foi embora, pois nada mais safado que o amor. Arte tem que ter ambição. Utopia incendiária das esperanças.
Jomard Muniz de Britto

segunda-feira, julho 13, 2015

Pouco a pouco o silêncio me fez um Robinson assustadiço, sem roupa, mas sem fome, sem sede porque pelos poros a luz mineral nutria e umedecia, mas pouco a pouco o planeta se despencava de minha língua, e errei sem idioma, escuro pelas areias do silêncio. Oh, solidão espacial do silêncio! Se desfaz o ruído do coração, quando sobressaltado ouviu o silêncio debaixo de outro silêncio maior, eu fui emagrecendo até ser somente silêncio naquele bairro do céu onde eu caí e fui enterrado por um alvo silencioso, por um grande rio de esmeraldas que não sabiam cantar.
Pablo Neruda

domingo, julho 12, 2015

Esse negócio de morrer é uma grande atrapalhação. Imagine ter que interromper todos os seus projetos, tarefas, arrumações, coisas a fazer, e para sempre! Já pensou? Não como das outras vezes em que você largava tudo porque tinha ficado doente ou ia fazer uma longa viagem e depois retomava o fio de novo. Mas agora a tal viagem não tem volta. Chato, não? Agora a morte é pra já, pra qualquer minuto. Só peço mais aquele tempinho pra pôr minhas coisas em ordem e não dar muito trabalho aos que vierem depois de mim.
Lineu Moreira Dias

sábado, julho 11, 2015

Ah, não poder tirar de mim os olhos,
Os olhos da minha alma [...]
(Disso a que alma eu chamo)
Só sei de duas coisas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.
Oh vulgar, oh feliz!  Quem sonha mais,
Eu ou tu?  Tu que vives inconsciente,
Ignorando este horror que é existir,
Ser, perante o [profundo] pensamento
Que o não resolve em compreensão, tu
Ou eu, que analisando e discorrendo
E penetrando [...] nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido.
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta
Fosse apenas sonhando mais profundo

Fernando Pessoa

sexta-feira, julho 10, 2015

A poesia está guardada nas palavras - é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não entender quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não cultivo conexões com o real.
Para mim, poderoso não é aquele que descobre ouro,
Poderoso para mim é aquele que descobre as insignificâncias do mundo e as nossas.
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei muito emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.

Manoel de Barros

quinta-feira, julho 09, 2015

Quero escrever o romance do nada. Quero mostrar a mais secreta das suspeitas humanas: a de sua própria inutilidade. Quero insinuar que a religião do trabalho, em seus valores mais altos – a arte e o poema – é também esporte. Quero esmurrar as hipocrisias.
 Júlio Cortázar

quarta-feira, julho 08, 2015

A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.

 Elizabeth Bishop

terça-feira, julho 07, 2015

Uma televisão que não quer o artístico só se dirige ao público existente. 
A televisão que quer o artístico, vai buscar esse novo público.

segunda-feira, julho 06, 2015

Devagar, o tempo transforma tudo em tempo. 
O ódio transforma-se em tempo.
O amor transforma-se em tempo. 
A dor transforma-se em tempo. 
Os assuntos que julgamos mais profundos, mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis, transformam-se devagar em tempo. 
Mas, por si só, o tempo não é nada, a idade não é nada, a eternidade não existe.

José Luís Peixoto

domingo, julho 05, 2015

Alguns gostam de poesia. Alguns, ou seja, nem todos. nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria. Sem contar a escola, onde a poesia é obrigatória, e os próprios poetas, seriam talvez uns dois... em mil. Alguns gostam de poesia, mas também se gosta de canja de galinha. gosta-se de galanteios e da cor azul. gosta-se de um xale velho. gosta-se de fazer o que se tem vontade. gosta-se de afagar um cão. gosta-se até de poesia!... mas o que é isso, poesia? muita resposta vaga já foi dada a essa pergunta. pois eu não sei e não me agarro a isso como uma tábua de salvação.

Wislawa Szymborska

sábado, julho 04, 2015

Os que tentam corrigir os males da nossa época com ideias que estão na moda – só porque estão na moda – corrigem a aparência viciada das coisas, mas não o fundo delas, que piora sempre.

Michel Eyquem de Montaigne

sexta-feira, julho 03, 2015

Cego de nascença, aprendeu a ler no escuro.
Desde pequeno os livros lhe eram abertos, os toques lhe fundavam janelas, os sons lhe eram caminhos de pedras. Um dia achou um doador de córnea e pensou que os recursos adquiridos poderiam lhe render a visão total.
Não aceitou ser operado por conta do governo, nem enxergar no claro.
Ficou com medo de se olhar no espelho das pessoas e ter medo da escuridão que havia nelas.
Silas Correa Leite 

quinta-feira, julho 02, 2015

Nós, nós não temos heróis. Nem jamais os tivemos. Afinal, para que servem os heróis e suas estátuas de granito ou mármore negro, seus cavalos de bronze, suas medalhas barrocas e as espadas que não passam de metáforas?
Para que servem os heróis se o ácido da chuva desdenha da glória dos homens e nem os pássaros se importam com eles?
Para que servem os heróis se nem sabe quem somos nem jamais ouviram falar dos nossos mitos e utopias?
Infeliz do país que necessita de heróis.
Ouviu....
Francisco Carvalho

quarta-feira, julho 01, 2015

É PURA INÉRCIA MENTAL SUPOR QUE, À MEDIDA QUE AVANÇA A HISTÓRIA, É MAIOR O ESPAÇO PARA QUE O HOMEM SE REALIZE COMO INDIVÍDUO.
NÃO! A HISTÓRIA ESTÁ CHEIA DE RETROCESSOS E É CERTAMENTE A ESTRUTURA DA VIDA EM NOSSA ÉPOCA O QUE MAIS IMPEDE O HOMEM DE VIVER COMO PESSOA.
 

José Ortega y Gasset

terça-feira, junho 30, 2015

Hoje eu acorde tão leve...senti o Sol no rosto e percebi o que são as pequenas coisa que valem mais.
Pena os grandes despostas com os seus pequeno poderes, tentam estragar o que de melhor há dentro de mim. Sim estragar... e não importa onde esteja, na escola, na fila da pipoca do cinema, na loja de grife ou até mesmo na Igreja, igreja...sim onde Deus esta, e ainda hoje como na Idade Média o grande senhor na escada sentado ao lado do cipreste branco, escolhe pela roupa ou aparência quem pode sentar ao lado de Deus.

Édy Ferreira

segunda-feira, junho 29, 2015

Sobre os especialistas:
Uma das maiores descobertas do século XX, foi a da agressiva estupidez com que se comporta o homem quando sabe muito de alguma coisa. Sabe muito alguma coisa, que iguala todas as demais, ou seja: a especialização é imoral.
Ortega y Gasset

domingo, junho 28, 2015

Tornar a sociedade segura contra roubo e incêndio e infinitamente cômoda para todo comércio e a usura são alvos inferiores, não deveriam ser perseguidos com os meios como se buscam os mais altos e mais raros, como por exemplo, a preponderância do ser humano sobre o lucro.
Friedrich Nietzsche

sábado, junho 27, 2015

Há uma quase histeria de partidos e candidatos em busca dos marqueteiros. Profissionais da política, já tentados e testados em outros pleitos, donos absolutos de um eleitorado cativo, mas insuficiente, se esbofam em melhorar o que chamam de "imagem".
Para conseguir essa melhoria, escondem o que têm de mais legítimo, de mais natural, e adotam a maquiagem preparada pelo  marketing.
Deixam de ser o que são e passam a ser o que os técnicos do mercado acham que deve ser. Isso inclui desde o corte do cabelo até o corte em alguns pontos essenciais do programa de cada um. Não se fala em moratória, em FMI, em concentração de renda. O discurso tem de ser politicamente correto, "light", sem ameaças ao capital e sem ameaças a ninguém, o que significa, na realidade, uma ameaça concreta para a grande maioria dos cidadãos.
Fica assim a vida política nacional igualada às telenovelas e dos programas de auditório, quem determina o que vai para o ar é o índice de audiência. O próximo presidente da República terá de ser o produto final da expectativa de um público e não de um povo.
Já tivemos laboratórios desse novo tipo de eleição. Collor se vestia melhor. Lula tinha a barba mal cuidada. Fernando Henrique Cardoso era poliglota; Lula, monoglota. O professor contra o ex-operário.
Dentro do que os marqueteiros chamam de cenário, irá para o trono aquele que for melhor produzido, e não aquele que saiba produzir. É o nosso país, Brasil.
Carlos Heitor Cony

quinta-feira, junho 25, 2015

Diante da vida, eu jamais tenho o prazer do espetáculo.   
Eu vivo.  Isso de morrer não tem importância, o importante é viver
um pouco agitando e encantando a vida. 
Pra mim, viver é gastar a vida.

Mário de Andrade

quarta-feira, junho 24, 2015

A Educação no Brasil está guardada pelos incompetentes - é tudo que eu sei.
Meu fado é não entender quase tudo, tudo isso, pena dos meninos do Brasil.
Sobre o qual sei o nada...e apesar de tudo - eu tenho profundidade no assunto.
Não cultivo conexões com os gabinetes, os as grandes mesas de reuniões onde tudo segundo eles, tudo acontece, ou seja, o nada.
Para mim, poderoso não é aquele que descobre o que ensinar como se fosse ouro,
Poderoso para mim é aquele que descobre nas insignificâncias do mundo o que mais precioso ha nas pessoas.
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei muito emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.
Manoel de Barros

terça-feira, junho 23, 2015


Um autor escreveu apenas uma peça de teatro, a ser encenada uma única vez, e naquele que, era em sua opinião, o melhor teatro do mundo, dirigida pelo, também em sua opinião, o melhor diretor do mundo e representada apenas pelos melhores atores do mundo. Esse autor acomodou-se, antes ainda de abertas as cortinas da noite de estreia, no local mais apropriado da galeria, invisível ao público, lá ele posicionou seu fuzil automático e, abertas as cortinas, pôs-se a disparar um tiro mortal na cabeça de todo espectador que, em sua opinião, risse no momento errado. No final da apresentação, só restavam no teatro espectares mortos. Durante toda a encenação, os atores e o administrador do teatro não se deixaram perturbar um só instante pelo autor obstinado e seus tiros.

Niclaas Thomas Bernhard

segunda-feira, junho 22, 2015

Sobre as pesquisas científicas, ratos brancos murmuram nos laboratórios: "Eles não se atreveriam a fazer isso com os ursos polares".

Ramón Gómez de la Serna

domingo, junho 21, 2015

Todo o meu esforço canalizo para a vida. Não para o equilíbrio, não para as certezas. Sigo suportando nas costas todo o peso da desesperança, pois que a esperança, é ridículo, dramático, que a humanidade ainda precise dela.
Esperança em quê? Em remédios que curem?... Em poemas que se dão de mão em mão? E as cartas sem resposta? E os becos sem saída? E a nova hipocrisia?
E o deus-dinheiro que nos espreita a cada esquina?... E a áfrica? E a America Latina?...
E todas essas universidades e tantos analfabetos?...
Toda gente sabe a extensão da verdade: surpreendendo a paisagem esfomeada, o gatilho já não precisa do dedo de ninguém.

sábado, junho 20, 2015

O Orgulho de ser, mesmo sem saber.

Sou brasileiro com muito orgulho e com muito amor?
E o que é ser brasileiro com muito orgulho e muito amor?
E vestir a camisa a cada mundial ou pintar as ruas? 
Colocando bandeiras nos carros?
É aceitar a falta de remédio ou de medico?
É lutar contra moinhos de ventos?
É gritar sem ser ouvido.

Sou o que mesmo?



Foi temendo o isolamento que eu me integrei na multidão.
Isolei-me ainda mais!
Foi receando a miséria que amealhei.
Me tornei miserável!
Foi apavorado ante a morte que me defendi.
E acabei matando!
E pior: foi temendo o medo de ter medo que me tornei medroso. 


Eduardo Canabrava Barreiros

sexta-feira, junho 19, 2015

Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceite o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe.
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. 
Clarice Lispector

quinta-feira, junho 18, 2015

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco. 
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, a fome, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação. 

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, junho 17, 2015

Nada mais surpreendente do que ver com que facilidade a maioria é governada pela minoria.
É observar ao longo da história a submissão implícita com que os homens sujeitam seus sentimentos e paixões aos de seus governantes.
De que modo se realiza esse prodígio?
Como são os governados que detêm a força (apenas eles, a maioria, não sabem disso!).
Os governantes nada têm por respaldo senão a opinião pública.
É somente na opinião pública que se fundamentam os governos, desde os mais despóticos e militarizados até os mais liberais e populares.
Não é, por isso, estranho o quanto mentem os poderosos com a ajuda dos meios de comunicação.
David Hume

terça-feira, junho 16, 2015

O PAÍS DE UMA NOTA SÓ – CARLOS MARIGHELLA
O país de uma nota só

Não pretendo nada, nem flores, louvores, triunfos.
Nada de nada.
Somente um protesto, uma brecha no muro, e fazer ecoar, com voz surda que seja,
e sem outro valor, o que se esconde no peito, no fundo da alma de milhões de sufocados.
Algo por onde possa filtrar o pensamento, a idéia que puseram no cárcere.

A passagem subiu, o leite acabou, a criança morreu......
a carne sumiu,
o IPM prendeu,
o DOPS torturou,
o deputado cedeu,
a linha dura vetou,
a censura proibiu,
o governo entregou,
o desemprego cresceu,
a carestia aumentou,
o Nordeste encolheu,
o país resvalou.

Tudo dó,
tudo dó,
tudo dó…
E em todo o país
repercute o tom
de uma nota só…
de uma nota só…


Poesia de Carlos Marighella.

segunda-feira, junho 15, 2015

 O estudante, diz Kant, não deve aprender pensamentos; deve aprender a pensar; não devemos transportá-lo e, sim, guiá-lo, se quisermos que futuramente seja capaz de se conduzir por seus próprios meios.
Georges Gusdorf

domingo, junho 14, 2015

Eu vi tuas crianças
Destruídas como lagartas por
Uma centena de noviças abutres,
Seviciadas pela ausente luminosidade
Da natureza criadora.
Havia um azul imparcial
Vigiado pelas sanguessugas baratinadas
Pelo telhado roído.
Um jardim de ondazul sempre
Grande, pousava beija-flores
Nos seus olhos vazados,
É devorado com paciência
Pela paisagem de morfina.
Enquanto o mundo dos insatisfeitos
Semeava o antigo clamor
Da crucifixação encarnada.
Eu vi o horror no reino do interno,
Onde adolescentes católicos
Percorrem os corredores
Tingindo seus olhos com lágrimas
Vulneráveis negras sodomizadas
Nos banheiros.
E as pobres cabeças cartesianas
Digerem o aquário, onde os mortos
Vagam na noite normal, cumprindo percurso,
Procurando um anjo de fogo
Iluminado.
Onde a cabeça é uma batata
Submersa no vidro de picles,
Conservado por góticas beatas,
Reino-vertigem glorificado
Espectro vibrando espasmos.
Há um sino que toca,
Chamando as ovelhas desgarradas,
A catedral na desordem se decompõe
Nos pavimentos, onde o sopro de vida bate
Pelos ventiladores, os pássaros,
As nuvens costuram o espaço avermelhado
De um céu com dentes.
As crianças com a mente
Racham-se de encontro às hélices,
A plenitude da alma despedaçada
Roda rodando como teus olhos
Diminuem na paisagem,
Derramando o grito.
Horizonte branco de asas devoradas
Na bacia embebida de sangue,
Janelas trancadas do caos.
Enquanto velhas histéricas
Distribuem bombons
Aos anjos desolados.