quarta-feira, julho 08, 2015

A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.

 Elizabeth Bishop

terça-feira, julho 07, 2015

Uma televisão que não quer o artístico só se dirige ao público existente. 
A televisão que quer o artístico, vai buscar esse novo público.

segunda-feira, julho 06, 2015

Devagar, o tempo transforma tudo em tempo. 
O ódio transforma-se em tempo.
O amor transforma-se em tempo. 
A dor transforma-se em tempo. 
Os assuntos que julgamos mais profundos, mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis, transformam-se devagar em tempo. 
Mas, por si só, o tempo não é nada, a idade não é nada, a eternidade não existe.

José Luís Peixoto

domingo, julho 05, 2015

Alguns gostam de poesia. Alguns, ou seja, nem todos. nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria. Sem contar a escola, onde a poesia é obrigatória, e os próprios poetas, seriam talvez uns dois... em mil. Alguns gostam de poesia, mas também se gosta de canja de galinha. gosta-se de galanteios e da cor azul. gosta-se de um xale velho. gosta-se de fazer o que se tem vontade. gosta-se de afagar um cão. gosta-se até de poesia!... mas o que é isso, poesia? muita resposta vaga já foi dada a essa pergunta. pois eu não sei e não me agarro a isso como uma tábua de salvação.

Wislawa Szymborska

sábado, julho 04, 2015

Os que tentam corrigir os males da nossa época com ideias que estão na moda – só porque estão na moda – corrigem a aparência viciada das coisas, mas não o fundo delas, que piora sempre.

Michel Eyquem de Montaigne

sexta-feira, julho 03, 2015

Cego de nascença, aprendeu a ler no escuro.
Desde pequeno os livros lhe eram abertos, os toques lhe fundavam janelas, os sons lhe eram caminhos de pedras. Um dia achou um doador de córnea e pensou que os recursos adquiridos poderiam lhe render a visão total.
Não aceitou ser operado por conta do governo, nem enxergar no claro.
Ficou com medo de se olhar no espelho das pessoas e ter medo da escuridão que havia nelas.
Silas Correa Leite 

quinta-feira, julho 02, 2015

Nós, nós não temos heróis. Nem jamais os tivemos. Afinal, para que servem os heróis e suas estátuas de granito ou mármore negro, seus cavalos de bronze, suas medalhas barrocas e as espadas que não passam de metáforas?
Para que servem os heróis se o ácido da chuva desdenha da glória dos homens e nem os pássaros se importam com eles?
Para que servem os heróis se nem sabe quem somos nem jamais ouviram falar dos nossos mitos e utopias?
Infeliz do país que necessita de heróis.
Ouviu....
Francisco Carvalho

quarta-feira, julho 01, 2015

É PURA INÉRCIA MENTAL SUPOR QUE, À MEDIDA QUE AVANÇA A HISTÓRIA, É MAIOR O ESPAÇO PARA QUE O HOMEM SE REALIZE COMO INDIVÍDUO.
NÃO! A HISTÓRIA ESTÁ CHEIA DE RETROCESSOS E É CERTAMENTE A ESTRUTURA DA VIDA EM NOSSA ÉPOCA O QUE MAIS IMPEDE O HOMEM DE VIVER COMO PESSOA.
 

José Ortega y Gasset

terça-feira, junho 30, 2015

Hoje eu acorde tão leve...senti o Sol no rosto e percebi o que são as pequenas coisa que valem mais.
Pena os grandes despostas com os seus pequeno poderes, tentam estragar o que de melhor há dentro de mim. Sim estragar... e não importa onde esteja, na escola, na fila da pipoca do cinema, na loja de grife ou até mesmo na Igreja, igreja...sim onde Deus esta, e ainda hoje como na Idade Média o grande senhor na escada sentado ao lado do cipreste branco, escolhe pela roupa ou aparência quem pode sentar ao lado de Deus.

Édy Ferreira

segunda-feira, junho 29, 2015

Sobre os especialistas:
Uma das maiores descobertas do século XX, foi a da agressiva estupidez com que se comporta o homem quando sabe muito de alguma coisa. Sabe muito alguma coisa, que iguala todas as demais, ou seja: a especialização é imoral.
Ortega y Gasset

domingo, junho 28, 2015

Tornar a sociedade segura contra roubo e incêndio e infinitamente cômoda para todo comércio e a usura são alvos inferiores, não deveriam ser perseguidos com os meios como se buscam os mais altos e mais raros, como por exemplo, a preponderância do ser humano sobre o lucro.
Friedrich Nietzsche

sábado, junho 27, 2015

Há uma quase histeria de partidos e candidatos em busca dos marqueteiros. Profissionais da política, já tentados e testados em outros pleitos, donos absolutos de um eleitorado cativo, mas insuficiente, se esbofam em melhorar o que chamam de "imagem".
Para conseguir essa melhoria, escondem o que têm de mais legítimo, de mais natural, e adotam a maquiagem preparada pelo  marketing.
Deixam de ser o que são e passam a ser o que os técnicos do mercado acham que deve ser. Isso inclui desde o corte do cabelo até o corte em alguns pontos essenciais do programa de cada um. Não se fala em moratória, em FMI, em concentração de renda. O discurso tem de ser politicamente correto, "light", sem ameaças ao capital e sem ameaças a ninguém, o que significa, na realidade, uma ameaça concreta para a grande maioria dos cidadãos.
Fica assim a vida política nacional igualada às telenovelas e dos programas de auditório, quem determina o que vai para o ar é o índice de audiência. O próximo presidente da República terá de ser o produto final da expectativa de um público e não de um povo.
Já tivemos laboratórios desse novo tipo de eleição. Collor se vestia melhor. Lula tinha a barba mal cuidada. Fernando Henrique Cardoso era poliglota; Lula, monoglota. O professor contra o ex-operário.
Dentro do que os marqueteiros chamam de cenário, irá para o trono aquele que for melhor produzido, e não aquele que saiba produzir. É o nosso país, Brasil.
Carlos Heitor Cony

quinta-feira, junho 25, 2015

Diante da vida, eu jamais tenho o prazer do espetáculo.   
Eu vivo.  Isso de morrer não tem importância, o importante é viver
um pouco agitando e encantando a vida. 
Pra mim, viver é gastar a vida.

Mário de Andrade

quarta-feira, junho 24, 2015

A Educação no Brasil está guardada pelos incompetentes - é tudo que eu sei.
Meu fado é não entender quase tudo, tudo isso, pena dos meninos do Brasil.
Sobre o qual sei o nada...e apesar de tudo - eu tenho profundidade no assunto.
Não cultivo conexões com os gabinetes, os as grandes mesas de reuniões onde tudo segundo eles, tudo acontece, ou seja, o nada.
Para mim, poderoso não é aquele que descobre o que ensinar como se fosse ouro,
Poderoso para mim é aquele que descobre nas insignificâncias do mundo o que mais precioso ha nas pessoas.
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei muito emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.
Manoel de Barros

terça-feira, junho 23, 2015


Um autor escreveu apenas uma peça de teatro, a ser encenada uma única vez, e naquele que, era em sua opinião, o melhor teatro do mundo, dirigida pelo, também em sua opinião, o melhor diretor do mundo e representada apenas pelos melhores atores do mundo. Esse autor acomodou-se, antes ainda de abertas as cortinas da noite de estreia, no local mais apropriado da galeria, invisível ao público, lá ele posicionou seu fuzil automático e, abertas as cortinas, pôs-se a disparar um tiro mortal na cabeça de todo espectador que, em sua opinião, risse no momento errado. No final da apresentação, só restavam no teatro espectares mortos. Durante toda a encenação, os atores e o administrador do teatro não se deixaram perturbar um só instante pelo autor obstinado e seus tiros.

Niclaas Thomas Bernhard

segunda-feira, junho 22, 2015

Sobre as pesquisas científicas, ratos brancos murmuram nos laboratórios: "Eles não se atreveriam a fazer isso com os ursos polares".

Ramón Gómez de la Serna

domingo, junho 21, 2015

Todo o meu esforço canalizo para a vida. Não para o equilíbrio, não para as certezas. Sigo suportando nas costas todo o peso da desesperança, pois que a esperança, é ridículo, dramático, que a humanidade ainda precise dela.
Esperança em quê? Em remédios que curem?... Em poemas que se dão de mão em mão? E as cartas sem resposta? E os becos sem saída? E a nova hipocrisia?
E o deus-dinheiro que nos espreita a cada esquina?... E a áfrica? E a America Latina?...
E todas essas universidades e tantos analfabetos?...
Toda gente sabe a extensão da verdade: surpreendendo a paisagem esfomeada, o gatilho já não precisa do dedo de ninguém.

sábado, junho 20, 2015

O Orgulho de ser, mesmo sem saber.

Sou brasileiro com muito orgulho e com muito amor?
E o que é ser brasileiro com muito orgulho e muito amor?
E vestir a camisa a cada mundial ou pintar as ruas? 
Colocando bandeiras nos carros?
É aceitar a falta de remédio ou de medico?
É lutar contra moinhos de ventos?
É gritar sem ser ouvido.

Sou o que mesmo?



Foi temendo o isolamento que eu me integrei na multidão.
Isolei-me ainda mais!
Foi receando a miséria que amealhei.
Me tornei miserável!
Foi apavorado ante a morte que me defendi.
E acabei matando!
E pior: foi temendo o medo de ter medo que me tornei medroso. 


Eduardo Canabrava Barreiros

sexta-feira, junho 19, 2015

Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceite o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe.
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. 
Clarice Lispector

quinta-feira, junho 18, 2015

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco. 
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, a fome, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação. 

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, junho 17, 2015

Nada mais surpreendente do que ver com que facilidade a maioria é governada pela minoria.
É observar ao longo da história a submissão implícita com que os homens sujeitam seus sentimentos e paixões aos de seus governantes.
De que modo se realiza esse prodígio?
Como são os governados que detêm a força (apenas eles, a maioria, não sabem disso!).
Os governantes nada têm por respaldo senão a opinião pública.
É somente na opinião pública que se fundamentam os governos, desde os mais despóticos e militarizados até os mais liberais e populares.
Não é, por isso, estranho o quanto mentem os poderosos com a ajuda dos meios de comunicação.
David Hume

terça-feira, junho 16, 2015

O PAÍS DE UMA NOTA SÓ – CARLOS MARIGHELLA
O país de uma nota só

Não pretendo nada, nem flores, louvores, triunfos.
Nada de nada.
Somente um protesto, uma brecha no muro, e fazer ecoar, com voz surda que seja,
e sem outro valor, o que se esconde no peito, no fundo da alma de milhões de sufocados.
Algo por onde possa filtrar o pensamento, a idéia que puseram no cárcere.

A passagem subiu, o leite acabou, a criança morreu......
a carne sumiu,
o IPM prendeu,
o DOPS torturou,
o deputado cedeu,
a linha dura vetou,
a censura proibiu,
o governo entregou,
o desemprego cresceu,
a carestia aumentou,
o Nordeste encolheu,
o país resvalou.

Tudo dó,
tudo dó,
tudo dó…
E em todo o país
repercute o tom
de uma nota só…
de uma nota só…


Poesia de Carlos Marighella.

segunda-feira, junho 15, 2015

 O estudante, diz Kant, não deve aprender pensamentos; deve aprender a pensar; não devemos transportá-lo e, sim, guiá-lo, se quisermos que futuramente seja capaz de se conduzir por seus próprios meios.
Georges Gusdorf

domingo, junho 14, 2015

Eu vi tuas crianças
Destruídas como lagartas por
Uma centena de noviças abutres,
Seviciadas pela ausente luminosidade
Da natureza criadora.
Havia um azul imparcial
Vigiado pelas sanguessugas baratinadas
Pelo telhado roído.
Um jardim de ondazul sempre
Grande, pousava beija-flores
Nos seus olhos vazados,
É devorado com paciência
Pela paisagem de morfina.
Enquanto o mundo dos insatisfeitos
Semeava o antigo clamor
Da crucifixação encarnada.
Eu vi o horror no reino do interno,
Onde adolescentes católicos
Percorrem os corredores
Tingindo seus olhos com lágrimas
Vulneráveis negras sodomizadas
Nos banheiros.
E as pobres cabeças cartesianas
Digerem o aquário, onde os mortos
Vagam na noite normal, cumprindo percurso,
Procurando um anjo de fogo
Iluminado.
Onde a cabeça é uma batata
Submersa no vidro de picles,
Conservado por góticas beatas,
Reino-vertigem glorificado
Espectro vibrando espasmos.
Há um sino que toca,
Chamando as ovelhas desgarradas,
A catedral na desordem se decompõe
Nos pavimentos, onde o sopro de vida bate
Pelos ventiladores, os pássaros,
As nuvens costuram o espaço avermelhado
De um céu com dentes.
As crianças com a mente
Racham-se de encontro às hélices,
A plenitude da alma despedaçada
Roda rodando como teus olhos
Diminuem na paisagem,
Derramando o grito.
Horizonte branco de asas devoradas
Na bacia embebida de sangue,
Janelas trancadas do caos.
Enquanto velhas histéricas
Distribuem bombons
Aos anjos desolados.

sábado, junho 13, 2015

Vendo e vivendo o momento politico e social no Brasil lembrei de Joaquim Nabuco

"O pensamento, meus senhores e minha senhoras, o pensamento apesar de tudo o que se possa dizer dele, é, hoje, estéril. Por que algum dia ele venha a triunfar."

sexta-feira, junho 12, 2015

|A última sessão do parlamento a ordem do dia era aprovar os agradecimentos a apresentar aos juízes que decidiram proibir a publicação de relatórios policiais pela imprensa.
O presidente da casa levantou um brinde ao rei.
Um ladrão propôs um brinde à prosperidade do comércio; outro brindou os juízes.
Em seguida, o orador fez uma análise dos progressos na arte de roubar, desde a origem até nossos dias. Esse hábito, disse ele, data da antiguidade. Os honestos, bem como os ladrões,  mas sobretudo os ladrões, não devem criticar as leis que protegem a propriedade. Elas são o nosso maior apoio. Dão ao público uma falsa sensação de segurança e nos proporcionam os meios de atuar em nossa profissão: o roubo.
Nosso único capital é a astúcia, e quem não a tiver deverá ser punido. Hoje, segundo os textos das leis, dispomos de mil maneiras de escapar. Bendito seja o legislador que declarou que antes de nos castigar, era necessário que se provasse o delito. Presenteou-nos com uma verdadeira guarda de honra!
Honoré de Balzac 

quinta-feira, junho 11, 2015

Fiz ranger as folhas de jornal abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo de cada fronteira distante subiu um cheiro de pólvora perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos nada de novo há no rugir das tempestades.
Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?
O mar da história é agitado.
As ameaças e as guerras havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas.
 Maiakoviski

quarta-feira, junho 10, 2015

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
 Mário Quintana

terça-feira, junho 09, 2015

O surgimento da vida na terra, conforme a civilização maia, exterminada pelo ocidente: “e os dias se puseram a andar e eles – os dias- nos fizeram. E assim fomos nascidos nós, os filhos dos dias, os indagadores, os buscadores da vida”.
Não sei o quanto fiz
talvez fizesse hoje d'outra arte
caminho que andei
não andei, me levaram;
era verde e aceitava.
Foi o bom, foi o mau.
Quando doeu, doeu.
Miau.
Hoje se limpa o estrume
se contempla o velame
se reaviva o lume
lembra-se o que se amou
e que talvez ainda se ame
e se espera o restante.
Mais falta que sobeja.
Assim seja.
Renata Pallottini

segunda-feira, junho 08, 2015

Não basta fugir. É preciso fugir no bom sentido: fugir do tédio, da fome, da guerra.
Não se deve fugir excentricamente, é preciso fugir concentricamente. Fugir o mundo para poder reinventá-lo um dia quem sabe maior, mais verdadeiro, mais justo, mais essencial

Charles Ferdinand Ramuz

domingo, junho 07, 2015

Delicado é aquele para quem a pátria é doce.
Bravo, aquele para quem a pátria é tudo.
Mas perfeito é somente aquele para quem o mundo inteiro é exílio.

 Hugo de São Vitor

sábado, junho 06, 2015


Quando a tecnologia e o dinheiro tiverem conquistado o mundo; quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com rapidez; quando se puder assistir em tempo real a um atentado no ocidente e a um concerto sinfônico no oriente; quando tempo significar apenas rapidez online; quando o tempo, como história, houver desaparecido da existência de todos os povos, quando um esportista ou artista de mercado valer como grande homem de um povo; quando as cifras em milhões significarem triunfo, - então, justamente então – reviverão como fantasma as perguntas: para quê? Para onde? E agora? A decadência dos povos já terá ido tão longe, que quase não terão mais força de espírito para ver e avaliar a decadência simplesmente como... Decadência. Essa constatação nada tem a ver com pessimismo cultural, nem tampouco, com otimismo... O obscurecimento do mundo, a destruição da terra, a massificação do homem, a suspeita odiosa contra tudo que é criador e livre, já atingiu tais dimensões, que categorias tão pueris, como pessimismo e otimismo, já haverão de ter se tornado ridículas.

Martin Heidegger

sexta-feira, junho 05, 2015

Quero escrever o romance do nada. Quero mostrar a mais secreta das suspeitas humanas: a de sua própria inutilidade. Quero insinuar que a religião do trabalho, em seus valores mais altos – a arte e o poema – é também esporte. Quero esmurrar as hipocrisias.
Júlio Cortázar

quinta-feira, junho 04, 2015

Os anos de 1980 foi a ultima pagina do seculo XX, e tudo era efervescente e cheios de surpresas.


Michael Jackson era negro e queria ser branco (com sua cota ancestral de dor negra)
O que o vitimizou – como um estigma
Michael Jackson era pobre e queria ser rico (de posses infantis e desejos transversais)
O que o desconfigurou como um estorvo
Michael Jackson era homem e queria ser mulher (de alguma maneira que pudesse)
O que o adulterou - Narciso cego, Édipo manco
Michael Jackson queria ser judeu (mas era um Peter-Pan enjaulado em cantagonias)
O que o marcou como ser na identificação de.
Michael Jackson como um não-Ser num não-lugar
Cantava dançava compunha dirigia criava voava
Um quase preto homem-menina com desvios íntimos
Com fox-trot nos pés e nos quadris portentosos
E uma alma sempre criança mal-amadurecida
Na ultrajada inocência para fins midiáticos e lucrativos
Fugiu-se na música – as ousadas canções
Tinha ritmo frenético – em viagens sonoras
Sobreviveu feito ermitão – urbano entre brinquedos
O pop do alto ao chão – paranóia na vida-livro
Muito além dos píncaros da glória efêmera...
Agora não tem cor – Não há cor na morte
Agora não tem posses – Nada levamos daqui
Agora não tem sexo – A terra há de comer
Agora não tem vitiligo: pergunte ao pó
Para ter sua tão sonhada Neverland
Assim na terra como no céu em purgações
Cortaria os próprios pulsos com música
Melodia, harmonia, ritmo em vício-clip
Sem saber que do outro lado da vida-hollywood-presley
Não há hormônios - nem cirurgias
Não há espelhos – nem camarins
Talvez nalgum lugar entre o céu e o inferno da terra-mãe
Ele encontre finalmente paz – mas uma paz não humana
E então não tenha mais vergonha da cor
Não tenha nunca mais vergonha do rosto
Não tenha vergonha da origem ou do sexo
Porque seu espírito atribulado finalmente se refrigerará
Em estúdios muito além de suas tantas realidades paralelas
E dentro da morte – muito além do som do silêncio –
Ele novamente ensaiará os primeiros passos de si mesmo
Como num “Thriller”.

Silas Correa Leite

quarta-feira, junho 03, 2015

Descanso do blogueiro

Depois de uma jornada pelo mundo do trabalho e desencontros lembrei 
de Friedrich Dürrenmatt

“Não sonhem com governos, sociedades e civilizações em que o planejamento esteja acima de tudo. Quanto mais o homem planificar a sua atuação, mais facilmente será atropelado pela casualidade”
 Ri sou sensível ao Caos.

 Montaigne
Desfrutando de boa situação financeira, retirou-se para a sua propriedade em 1571, em Dordogne – França, aos 35 anos, quando começou a escrever a obra que se tornou clássica, intitulada Ensaios, fruto de meditação, reflexão e observações pessoais. Montaigne foi o criador desse gênero literário. Os temas que aborda não têm um encadeamento lógico nem um plano preestabelecido e podem ser lidos separadamente. Em todos eles encontramos reflexões e pensamentos filosóficos.

terça-feira, junho 02, 2015

Fazer política é passar do sonho às coisas, do abstrato ao concreto.
A política é o trabalho efetivo do pensamento social.
A política é a trama da história.
A política é a vida e a vida é o presente.
Nesse quadro, o instinto de conservação, o estertor agonizante do passado, se chama reação.
Já a gestação dolorosa, o parto sangrento do presente, se chama revolução.
José Carlos Mariátegui

segunda-feira, junho 01, 2015

Desejo um mundo de homens e mulheres, de árvores que não falem (porque já existe conversa demais no mundo!), de rios que levem a gente a lugares, não rios que sejam lendas, mas rios que ponham a gente em contato com outros homens e mulheres, com arquitetura, plantas, animais desejo rios que façam oceanos como Shakespeare e Dante, rios que não sequem no vazio do passado. Oceanos sim! Tenhamos novos oceanos que apaguem o passado, tenhamos um mundo de homens e mulheres com dínamos entre as pernas, um mundo de fúria natural, de paixão, ação, drama, sonhos, loucura, um mundo que produza êxtase e não peidos secos. Creio hoje mais do que nunca que é preciso procurar fragmentos, lascas, unhas dos dedos dos pés, tudo quanto seja capaz de ressuscitar o corpo e a alma.
 Henry Miller

domingo, maio 31, 2015

O Brasil não é apenas um mundo próprio, mas a soma absurda de uma infinidade de mundos subjetivos e de experiências rituais, que estão muito além do que qualquer sociologia, história ou psicologia conseguiria aprender

Arthur Omar 

sábado, maio 30, 2015

No Brasil somos assim

sexta-feira, maio 29, 2015

O salto mortal é meu número especial nesta tarde de domingo.
Não tentarei o trapézio, por não saber voar sobre as cabeças que torcem para a corda arrebentar.
Pensando bem, abrirei a tarde falando ao respeitável público que farei a mágica final: desaparecer sem nunca ter sido visto por ninguém.
Álvaro Alves de Faria

quinta-feira, maio 28, 2015

Vivemos num tempo de chantagem universal, que toma duas formas complementares de escárnio: há a chantagem da violência e a chantagem do entretenimento. Uma e outra servem sempre para a mesma coisa: manter o homem simples longe do centro dos acontecimentos. 
Ensinar

Nós vamos ensinar a você o fervor.
Nossos atos se prendem a nós,
como ao fósforo sua luz.
Nos consome
é verdade,
mas fazem nosso esplendor.
E se nossa alma valeu alguma coisa
é por ter ardido mais intensamente do que outras.
Vamos ensinar a você o fervor.
Uma existência patética.
Não a tranquilidade.
Ser tranquilo é ser trágico.
Eu não almejo outro repouso que o sono da morte.
Espero depois de ter exprimido nesta terra
tudo que havia em mim.
Satisfeito morreu completamente.
Desesperado por fazer ainda mais.
Nossa vida há de ser diante de nós
como um copo de água gelada.
O copo úmido nas mãos de quem
tem febre e quer beber,
e bebe tudo de uma vez.
Sabendo que devia guardar,
mas não podendo tirar dos lábios o copo delicioso.
Tão fresca é a água
e tão apaziguadora da sede.

André Gide

quarta-feira, maio 27, 2015

Tudo é novo pra quem é novo. Não ceder ao hábito, que é usura progressiva; e tudo se torna poeirento e cinza, tudo se torna igual ao que somos, tudo se parece e se repete, porque nós nos parecemos e nos repetimos. Seria preciso o homem se acrescentasse à criança, sem ela desprender-se, que a criança subsistisse dentro do homem, que fosse uma base para a construção de acréscimos sucessivos - que não a destruíssem, como acontece. Não basta ser apenas um primitivo, mas é preciso ser também um primitivo. Permanecer "primeiro" em presença das coisas primeiras: elementar diante do elementar; ser capaz de, sempre, transformar-se e não apenas ser: não imóvel, mas em movimento, em meio ao que é móvel; em contato incessante com o que transforma, transformando-se a si próprio, como a criança, entregue totalmente ao exterior, mas com esse retorno a si mesmo, que a criança não tem, em direção a um interior onde se recolhem e se ordenam as coisas.

Charles Ferdinand Ramuz

terça-feira, maio 26, 2015

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

segunda-feira, maio 25, 2015

Meu ofício, minha arte, é viver; quem me censura por falar de mim, da minha vida, dos meus próprios sentimentos, que vá proibir um arquiteto referir-se às suas próprias construções. Eu me mostro por inteiro, como uma peça anatômica, cujas veias, músculos, tendões, são visíveis em seus lugares, mas as pulsações e o que se passa dentro de mim, esses são eu mesmo. É sobre eles que falo, sobre a minha essência.

domingo, maio 24, 2015

A primeira provocação

A primeira provocação ele aguentou calado.
Na verdade, gritou e esperneou.
Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. 
E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.

A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. 
Uma porcaria. 
Não reclamou porque não era disso.

Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz.

Foram lhe provocando por toda a vida.

Não pode ir a escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça.

Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme.

Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher.Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava.

Estavam lhe provocando.

Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça.

Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a idéia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa.

Terra era o que não faltava.

Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.

Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.

Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano... Então protestou.

Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:


- Violência, não!

sábado, maio 23, 2015

Aquilo que foi não pode mais deixar de ter sido. Passou a existir. Tornou-se, então, mais um fato para a eternidade, profundamente obscuro e misterioso. Indefinível como a vida.
 Vladimir Jankélévitch

sexta-feira, maio 22, 2015

Não quero alguém que morra de amor por mim... Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando. Não exijo que esse alguém me ame como eu a amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade. Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim... Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível... E que esse momento será inesquecível...Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre... E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém... E poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...
Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento... E não brinque com ele. E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo
Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe... Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas... Que a esperança nunca me pareça um 'não' que a gente teima em matá-lo de verde e entendê-lo como 'sim'.
Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros... Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão... Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a as pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim!

quinta-feira, maio 21, 2015

Mergulhar a palavra suja em água sanitária. Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol adquirem consistência de certeza. Por exemplo, a palavra vida.
Existem outras - e a palavra amor é uma delas - que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra, depois enxaguar em água corrente. São poucas as que resistem a esses cuidados, mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tiram sujeira difícil, mas nada. Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão. Agora nunca vi palavra tão suja como perda. Perda e morte, na medida em que são alvejadas, soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura, que é capaz de esvaziar o vigor da língua. O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho em um amaciante de boa qualidade. Agora, se o que você quer é somente aliviar as palavras do uso diário, pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar. O perigo neste caso é misturar palavras que mancham no contato umas com as outras. Culpa, por exemplo. A culpa mancha tudo que encontra e deve ser sempre alvejada sozinha.outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo, já que desejo, sendo uma palavra intensa, quase agressiva, pode, o que não é inevitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade. Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.outro cuidado importante é não lavar demais as palavras. Sob o risco de perderem o sentido. A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva, produz uma oleosidade que dá vigor aos sons. Muito importante na arte de lavar palavras é saber reconhecer uma palavra limpa. Conviva com a palavra durante alguns dias. Deixe que se misture em seus gestos, que passeie pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite, não a seu lado mas sobre seu corpo. Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne, prolifera em toda sua possibilidade. Se puder suportar essa convivência até não mais perceber a presença dela, então você tem uma palavra limpa.
Uma palavra limpa é uma palavra possível.

quarta-feira, maio 20, 2015

O Livre Arbítrio

Um homem é dotado de livre arbítrio e de três maneiras: em primeiro lugar, era livre quando quis esta vida; agora não pode evidentemente rescindi-la, pois ele não é o que a queria outrora, exceto na medida em que completa a sua vontade de outrora, vivendo.
Em segundo lugar, é livre pelo facto de poder escolher o caminho desta vida e a maneira de o percorrer.
Em terceiro lugar, é livre pelo facto de na qualidade daquele que vier a ser de novo um dia, ter a vontade de se deixar ir custe o que custar através da vida e de chegar assim a ele próprio e isso por um caminho que pode sem dúvida escolher, mas que, em todo o caso, forma um labirinto tão complicado que toca nos menores recantos desta vida.
São esses os tês aspectos do livre arbítrio que, por se oferecerem todos ao mesmo tempo formam apenas um e de tal modo que não há lugar para um arbítrio, quer seja livre ou servo.

Franz Kafka

terça-feira, maio 19, 2015

O que é a riqueza? Para um, uma velha camisa já é riqueza. 
Outro é pobre com dez milhões. 
A riqueza é algo completamente relativo e insatisfatório. 
No fundo, não passa de uma situação peculiar.

 Kafka

segunda-feira, maio 18, 2015

Devagar, o tempo transforma tudo em tempo
O ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo
Os assuntos que julgamos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo
Mas por si só, o tempo não é nada
A idade de nada é nada
A eternidade não existe

José Luís Peixoto

domingo, maio 17, 2015

Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!