Não basta fugir. É preciso fugir no bom sentido: fugir do tédio, da fome, da guerra.
Não se deve fugir excentricamente, é preciso fugir concentricamente. Fugir o mundo para poder reinventá-lo um dia quem sabe maior, mais verdadeiro, mais justo, mais essencial
Charles Ferdinand Ramuz
segunda-feira, junho 08, 2015
domingo, junho 07, 2015
sábado, junho 06, 2015
Quando a tecnologia e o dinheiro tiverem conquistado o mundo; quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com rapidez; quando se puder assistir em tempo real a um atentado no ocidente e a um concerto sinfônico no oriente; quando tempo significar apenas rapidez online; quando o tempo, como história, houver desaparecido da existência de todos os povos, quando um esportista ou artista de mercado valer como grande homem de um povo; quando as cifras em milhões significarem triunfo, - então, justamente então – reviverão como fantasma as perguntas: para quê? Para onde? E agora? A decadência dos povos já terá ido tão longe, que quase não terão mais força de espírito para ver e avaliar a decadência simplesmente como... Decadência. Essa constatação nada tem a ver com pessimismo cultural, nem tampouco, com otimismo... O obscurecimento do mundo, a destruição da terra, a massificação do homem, a suspeita odiosa contra tudo que é criador e livre, já atingiu tais dimensões, que categorias tão pueris, como pessimismo e otimismo, já haverão de ter se tornado ridículas.
Martin Heidegger
sexta-feira, junho 05, 2015
quinta-feira, junho 04, 2015
Michael Jackson era negro e queria ser branco (com sua cota ancestral de dor negra)
O que o vitimizou – como um estigma
Michael Jackson era pobre e queria ser rico (de posses infantis e desejos transversais)
O que o desconfigurou como um estorvo
Michael Jackson era homem e queria ser mulher (de alguma maneira que pudesse)
O que o adulterou - Narciso cego, Édipo manco
Michael Jackson queria ser judeu (mas era um Peter-Pan enjaulado em cantagonias)
O que o marcou como ser na identificação de.
Michael Jackson como um não-Ser num não-lugar
Cantava dançava compunha dirigia criava voava
Um quase preto homem-menina com desvios íntimos
Com fox-trot nos pés e nos quadris portentosos
E uma alma sempre criança mal-amadurecida
Na ultrajada inocência para fins midiáticos e lucrativos
Fugiu-se na música – as ousadas canções
Tinha ritmo frenético – em viagens sonoras
Sobreviveu feito ermitão – urbano entre brinquedos
O pop do alto ao chão – paranóia na vida-livro
Muito além dos píncaros da glória efêmera...
Agora não tem cor – Não há cor na morte
Agora não tem posses – Nada levamos daqui
Agora não tem sexo – A terra há de comer
Agora não tem vitiligo: pergunte ao pó
Para ter sua tão sonhada Neverland
Assim na terra como no céu em purgações
Cortaria os próprios pulsos com música
Melodia, harmonia, ritmo em vício-clip
Sem saber que do outro lado da vida-hollywood-presley
Não há hormônios - nem cirurgias
Não há espelhos – nem camarins
Talvez nalgum lugar entre o céu e o inferno da terra-mãe
Ele encontre finalmente paz – mas uma paz não humana
E então não tenha mais vergonha da cor
Não tenha nunca mais vergonha do rosto
Não tenha vergonha da origem ou do sexo
Porque seu espírito atribulado finalmente se refrigerará
Em estúdios muito além de suas tantas realidades paralelas
E dentro da morte – muito além do som do silêncio –
Ele novamente ensaiará os primeiros passos de si mesmo
Como num “Thriller”.
Silas Correa Leite
O que o vitimizou – como um estigma
Michael Jackson era pobre e queria ser rico (de posses infantis e desejos transversais)
O que o desconfigurou como um estorvo
Michael Jackson era homem e queria ser mulher (de alguma maneira que pudesse)
O que o adulterou - Narciso cego, Édipo manco
Michael Jackson queria ser judeu (mas era um Peter-Pan enjaulado em cantagonias)
O que o marcou como ser na identificação de.
Michael Jackson como um não-Ser num não-lugar
Cantava dançava compunha dirigia criava voava
Um quase preto homem-menina com desvios íntimos
Com fox-trot nos pés e nos quadris portentosos
E uma alma sempre criança mal-amadurecida
Na ultrajada inocência para fins midiáticos e lucrativos
Fugiu-se na música – as ousadas canções
Tinha ritmo frenético – em viagens sonoras
Sobreviveu feito ermitão – urbano entre brinquedos
O pop do alto ao chão – paranóia na vida-livro
Muito além dos píncaros da glória efêmera...
Agora não tem cor – Não há cor na morte
Agora não tem posses – Nada levamos daqui
Agora não tem sexo – A terra há de comer
Agora não tem vitiligo: pergunte ao pó
Para ter sua tão sonhada Neverland
Assim na terra como no céu em purgações
Cortaria os próprios pulsos com música
Melodia, harmonia, ritmo em vício-clip
Sem saber que do outro lado da vida-hollywood-presley
Não há hormônios - nem cirurgias
Não há espelhos – nem camarins
Talvez nalgum lugar entre o céu e o inferno da terra-mãe
Ele encontre finalmente paz – mas uma paz não humana
E então não tenha mais vergonha da cor
Não tenha nunca mais vergonha do rosto
Não tenha vergonha da origem ou do sexo
Porque seu espírito atribulado finalmente se refrigerará
Em estúdios muito além de suas tantas realidades paralelas
E dentro da morte – muito além do som do silêncio –
Ele novamente ensaiará os primeiros passos de si mesmo
Como num “Thriller”.
Silas Correa Leite
quarta-feira, junho 03, 2015
Descanso do blogueiro
Depois de uma jornada pelo mundo do trabalho e desencontros lembrei
de Friedrich Dürrenmatt
“Não sonhem com governos,
sociedades e civilizações em que o planejamento esteja acima de tudo. Quanto
mais o homem planificar a sua atuação, mais facilmente será atropelado pela
casualidade”
Ri sou sensível ao Caos.
Montaigne
Desfrutando de boa situação financeira, retirou-se para a sua propriedade em 1571, em Dordogne – França, aos 35 anos, quando começou a escrever a obra que se tornou clássica, intitulada Ensaios, fruto de meditação, reflexão e observações pessoais. Montaigne foi o criador desse gênero literário. Os temas que aborda não têm um encadeamento lógico nem um plano preestabelecido e podem ser lidos separadamente. Em todos eles encontramos reflexões e pensamentos filosóficos.
terça-feira, junho 02, 2015
Fazer política é passar do sonho às coisas, do abstrato ao concreto.
A política é o trabalho efetivo do pensamento social.
A política é a trama da história.
A política é a vida e a vida é o presente.
Nesse quadro, o instinto de conservação, o estertor agonizante do passado, se chama reação.
Já a gestação dolorosa, o parto sangrento do presente, se chama revolução.
A política é o trabalho efetivo do pensamento social.
A política é a trama da história.
A política é a vida e a vida é o presente.
Nesse quadro, o instinto de conservação, o estertor agonizante do passado, se chama reação.
Já a gestação dolorosa, o parto sangrento do presente, se chama revolução.
José Carlos Mariátegui
segunda-feira, junho 01, 2015
Desejo um mundo de homens e mulheres, de árvores que não falem (porque já existe conversa demais no mundo!), de rios que levem a gente a lugares, não rios que sejam lendas, mas rios que ponham a gente em contato com outros homens e mulheres, com arquitetura, plantas, animais desejo rios que façam oceanos como Shakespeare e Dante, rios que não sequem no vazio do passado. Oceanos sim! Tenhamos novos oceanos que apaguem o passado, tenhamos um mundo de homens e mulheres com dínamos entre as pernas, um mundo de fúria natural, de paixão, ação, drama, sonhos, loucura, um mundo que produza êxtase e não peidos secos. Creio hoje mais do que nunca que é preciso procurar fragmentos, lascas, unhas dos dedos dos pés, tudo quanto seja capaz de ressuscitar o corpo e a alma.
Henry Miller
domingo, maio 31, 2015
sábado, maio 30, 2015
sexta-feira, maio 29, 2015
O salto mortal é meu número especial nesta tarde de domingo.
Não tentarei o trapézio, por não saber voar sobre as cabeças que torcem para a corda arrebentar.
Pensando bem, abrirei a tarde falando ao respeitável público que farei a mágica final: desaparecer sem nunca ter sido visto por ninguém.
Não tentarei o trapézio, por não saber voar sobre as cabeças que torcem para a corda arrebentar.
Pensando bem, abrirei a tarde falando ao respeitável público que farei a mágica final: desaparecer sem nunca ter sido visto por ninguém.
Álvaro Alves de Faria
quinta-feira, maio 28, 2015
Ensinar
Nós vamos ensinar a você o fervor.
Nossos atos se prendem a nós,
como ao fósforo sua luz.
Nos consome
é verdade,
mas fazem nosso esplendor.
E se nossa alma valeu alguma coisa
é por ter ardido mais intensamente do que outras.
Vamos ensinar a você o fervor.
Uma existência patética.
Não a tranquilidade.
Ser tranquilo é ser trágico.
Eu não almejo outro repouso que o sono da morte.
Espero depois de ter exprimido nesta terra
tudo que havia em mim.
Satisfeito morreu completamente.
Desesperado por fazer ainda mais.
Nossa vida há de ser diante de nós
como um copo de água gelada.
O copo úmido nas mãos de quem
tem febre e quer beber,
e bebe tudo de uma vez.
Sabendo que devia guardar,
mas não podendo tirar dos lábios o copo delicioso.
Tão fresca é a água
e tão apaziguadora da sede.
André Gide
Nós vamos ensinar a você o fervor.
Nossos atos se prendem a nós,
como ao fósforo sua luz.
Nos consome
é verdade,
mas fazem nosso esplendor.
E se nossa alma valeu alguma coisa
é por ter ardido mais intensamente do que outras.
Vamos ensinar a você o fervor.
Uma existência patética.
Não a tranquilidade.
Ser tranquilo é ser trágico.
Eu não almejo outro repouso que o sono da morte.
Espero depois de ter exprimido nesta terra
tudo que havia em mim.
Satisfeito morreu completamente.
Desesperado por fazer ainda mais.
Nossa vida há de ser diante de nós
como um copo de água gelada.
O copo úmido nas mãos de quem
tem febre e quer beber,
e bebe tudo de uma vez.
Sabendo que devia guardar,
mas não podendo tirar dos lábios o copo delicioso.
Tão fresca é a água
e tão apaziguadora da sede.
André Gide
quarta-feira, maio 27, 2015
Tudo é novo pra quem é novo. Não ceder ao hábito, que é usura progressiva; e tudo se torna poeirento e cinza, tudo se torna igual ao que somos, tudo se parece e se repete, porque nós nos parecemos e nos repetimos. Seria preciso o homem se acrescentasse à criança, sem ela desprender-se, que a criança subsistisse dentro do homem, que fosse uma base para a construção de acréscimos sucessivos - que não a destruíssem, como acontece. Não basta ser apenas um primitivo, mas é preciso ser também um primitivo. Permanecer "primeiro" em presença das coisas primeiras: elementar diante do elementar; ser capaz de, sempre, transformar-se e não apenas ser: não imóvel, mas em movimento, em meio ao que é móvel; em contato incessante com o que transforma, transformando-se a si próprio, como a criança, entregue totalmente ao exterior, mas com esse retorno a si mesmo, que a criança não tem, em direção a um interior onde se recolhem e se ordenam as coisas.
Charles Ferdinand Ramuz
terça-feira, maio 26, 2015
Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.
segunda-feira, maio 25, 2015
Meu ofício, minha arte, é viver; quem me censura por falar de mim, da minha vida, dos meus próprios sentimentos, que vá proibir um arquiteto referir-se às suas próprias construções. Eu me mostro por inteiro, como uma peça anatômica, cujas veias, músculos, tendões, são visíveis em seus lugares, mas as pulsações e o que se passa dentro de mim, esses são eu mesmo. É sobre eles que falo, sobre a minha essência.
domingo, maio 24, 2015
A primeira provocação
A primeira provocação ele aguentou calado.
Na verdade, gritou e esperneou.
Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas.
Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas.
E não como ele, numa
toca, aparado só pelo chão.
A segunda provocação foi a alimentação
que lhe deram, depois do leite da mãe.
Uma porcaria.
Não reclamou porque não
era disso.
Outra provocação foi perder a metade dos
seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo.
Mas ficou firme. Era de boa paz.
Foram lhe provocando por toda a vida.
Não pode ir a escola porque tinha que
ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça.
Na cidade, para aonde teve que ir com a
família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em
barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um
barraco pior. Ficou firme.
Queria um emprego, só conseguiu um
subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher.Tiveram subfilhos.
Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava.
Estavam lhe provocando.
Gostava da roça. O negócio dele era a
roça. Queria voltar pra roça.
Ouvira falar de uma tal reforma agrária.
Não sabia bem o que era. Parece que a idéia era lhe dar uma terrinha. Se não
era outra provocação, era uma boa.
Terra era o que não faltava.
Passou anos ouvindo falar em reforma
agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo
ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.
Finalmente ouviu dizer que desta vez a
reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou.
Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a
aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.
Aí ouviu que a reforma agrária não era
bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano... Então protestou.
Na décima milésima provocação, reagiu. E
ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:
- Violência, não!
sábado, maio 23, 2015
sexta-feira, maio 22, 2015
Não quero alguém que morra de amor por mim... Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando. Não exijo que esse alguém me ame como eu a amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade. Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim... Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível... E que esse momento será inesquecível...Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre... E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém... E poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...
Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento... E não brinque com ele. E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo
Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe... Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas... Que a esperança nunca me pareça um 'não' que a gente teima em matá-lo de verde e entendê-lo como 'sim'.
Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros... Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão... Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a as pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim!
Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre... E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém... E poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...
Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento... E não brinque com ele. E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo
Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe... Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas... Que a esperança nunca me pareça um 'não' que a gente teima em matá-lo de verde e entendê-lo como 'sim'.
Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros... Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão... Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a as pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim!
quinta-feira, maio 21, 2015
Mergulhar a palavra suja em água sanitária. Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol adquirem consistência de certeza. Por exemplo, a palavra vida.
Existem outras - e a palavra amor é uma delas - que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra, depois enxaguar em água corrente. São poucas as que resistem a esses cuidados, mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tiram sujeira difícil, mas nada. Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão. Agora nunca vi palavra tão suja como perda. Perda e morte, na medida em que são alvejadas, soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura, que é capaz de esvaziar o vigor da língua. O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho em um amaciante de boa qualidade. Agora, se o que você quer é somente aliviar as palavras do uso diário, pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar. O perigo neste caso é misturar palavras que mancham no contato umas com as outras. Culpa, por exemplo. A culpa mancha tudo que encontra e deve ser sempre alvejada sozinha.outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo, já que desejo, sendo uma palavra intensa, quase agressiva, pode, o que não é inevitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade. Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.outro cuidado importante é não lavar demais as palavras. Sob o risco de perderem o sentido. A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva, produz uma oleosidade que dá vigor aos sons. Muito importante na arte de lavar palavras é saber reconhecer uma palavra limpa. Conviva com a palavra durante alguns dias. Deixe que se misture em seus gestos, que passeie pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite, não a seu lado mas sobre seu corpo. Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne, prolifera em toda sua possibilidade. Se puder suportar essa convivência até não mais perceber a presença dela, então você tem uma palavra limpa.
Uma palavra limpa é uma palavra possível.
quarta-feira, maio 20, 2015
O Livre Arbítrio
Um homem é dotado
de livre arbítrio e de três maneiras: em primeiro lugar, era livre quando quis
esta vida; agora não pode evidentemente rescindi-la, pois ele não é o que a
queria outrora, exceto na medida em que completa a sua vontade de outrora,
vivendo.
Em segundo lugar, é livre pelo facto de poder escolher o caminho desta vida e a maneira de o percorrer.
Em terceiro lugar, é livre pelo facto de na qualidade daquele que vier a ser de novo um dia, ter a vontade de se deixar ir custe o que custar através da vida e de chegar assim a ele próprio e isso por um caminho que pode sem dúvida escolher, mas que, em todo o caso, forma um labirinto tão complicado que toca nos menores recantos desta vida.
São esses os tês aspectos do livre arbítrio que, por se oferecerem todos ao mesmo tempo formam apenas um e de tal modo que não há lugar para um arbítrio, quer seja livre ou servo.
Franz Kafka
Em segundo lugar, é livre pelo facto de poder escolher o caminho desta vida e a maneira de o percorrer.
Em terceiro lugar, é livre pelo facto de na qualidade daquele que vier a ser de novo um dia, ter a vontade de se deixar ir custe o que custar através da vida e de chegar assim a ele próprio e isso por um caminho que pode sem dúvida escolher, mas que, em todo o caso, forma um labirinto tão complicado que toca nos menores recantos desta vida.
São esses os tês aspectos do livre arbítrio que, por se oferecerem todos ao mesmo tempo formam apenas um e de tal modo que não há lugar para um arbítrio, quer seja livre ou servo.
Franz Kafka
terça-feira, maio 19, 2015
segunda-feira, maio 18, 2015
Devagar, o tempo transforma tudo em tempo
O ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo
Os assuntos que julgamos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo
Mas por si só, o tempo não é nada
A idade de nada é nada
A eternidade não existe
José Luís Peixoto
O ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo
Os assuntos que julgamos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo
Mas por si só, o tempo não é nada
A idade de nada é nada
A eternidade não existe
José Luís Peixoto
domingo, maio 17, 2015
Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
sábado, maio 16, 2015
sexta-feira, maio 15, 2015
quinta-feira, maio 14, 2015
Somos Pretos, sim Pretos...PRETOS
Somos os que não inventaram nem pólvora nem a bússola.
Aqueles que jamais souberam dominar nem o vapor nem a eletricidade.
Aqueles que não exploraram nem o mar nem o céu.
Mas não existe terra em que não tenha corrido nosso sangue e nem língua em que nossa cor não tenha sido insultada.
Adaptação
quarta-feira, maio 13, 2015
Tecendo a Manhã
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
João Cabral de Mello Neto
terça-feira, maio 12, 2015
Às vezes me perguntam como eu, escritor e roteirista, reajo ao poder das novas tecnologias que transformaram o mundo da palavra escrita. Eu me divirto inventando uma história que em meados do século xix alguém pergunta a Gustave Flaubert, grande escritor, se a substituição das canetas com pena de ganso, pelas canetas com pena de metal mudou a literatura francesa. E faço Flaubert responder: acho que não, mas mudou a vida dos gansos.
segunda-feira, maio 11, 2015
Vamos decidir nos pênaltis
O analfabetismo
A falta de energia
A votação do senado
Os rumos da nação
E tudo que empata
O analfabetismo
A falta de energia
A votação do senado
Os rumos da nação
E tudo que empata
Vamos decidir nos pênaltis
As armas do embate
O pleito eleitoral
As jogadas do futebol.
As armas do embate
O pleito eleitoral
As jogadas do futebol.
Vamos privatizar os sonhos
Banir de vez nossas paixões
Exorcizar os demônios
Num grito de liberdade
E não de gol.
Banir de vez nossas paixões
Exorcizar os demônios
Num grito de liberdade
E não de gol.
Anton Pavlovitch Tchecov
domingo, maio 10, 2015
sábado, maio 09, 2015
O sexo contém tudo: corpos, almas,
sentidos, provas, purezas, delicadezas, resultados, avisos, cantos, ordens, o mistério materno, o leite seminal,
Todas as esperanças, todos os benefícios, todas as dádivas paixões, amores, encantos, gozos da terra, todos os pecados, juízes, governos, pessoas no mundo e seus seguidores.
Tudo está contido no sexo como parte dele ou como sua razão de ser.
Walt Whitman
sentidos, provas, purezas, delicadezas, resultados, avisos, cantos, ordens, o mistério materno, o leite seminal,
Todas as esperanças, todos os benefícios, todas as dádivas paixões, amores, encantos, gozos da terra, todos os pecados, juízes, governos, pessoas no mundo e seus seguidores.
Tudo está contido no sexo como parte dele ou como sua razão de ser.
Walt Whitman
sexta-feira, maio 08, 2015
O Amor
O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
Fernando Pessoa
O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
quinta-feira, maio 07, 2015
Um fato marcou a minha vida para sempre: eu nasci!...
O resto foi uma mera sequência de acontecimentos, que já é passado.
Neste instante, vivo o presente (que ainda não é fato), que está sendo feito, que pulsa no ritmo do meu coração, que passa na velocidade do meu pensamento, cheio de lembranças, sonhos e, desejos... Tudo tão efêmero quanto a própria existência. Outro fato irá selar a minha vida...
Então, o mundo já não existirá para mim.
Luiz Colares
O resto foi uma mera sequência de acontecimentos, que já é passado.
Neste instante, vivo o presente (que ainda não é fato), que está sendo feito, que pulsa no ritmo do meu coração, que passa na velocidade do meu pensamento, cheio de lembranças, sonhos e, desejos... Tudo tão efêmero quanto a própria existência. Outro fato irá selar a minha vida...
Então, o mundo já não existirá para mim.
Luiz Colares
quarta-feira, maio 06, 2015
terça-feira, maio 05, 2015
segunda-feira, maio 04, 2015
Agora que a mansão está concluída,
os trabalhadores começam a grade.
São barras de ferro com pontas de aço
capazes de tirar a vida a quem se arrisque sobre elas.
Uma obra prima que impedirá a entrada de famintos, crianças de rua e vagabundos.
Vagabundos de toda espécie.
Entre as barras e sobre as pontas de aço
nada passará exceto
a chuva, a morte e o dia de amanhã.
Carl August Sandburg
os trabalhadores começam a grade.
São barras de ferro com pontas de aço
capazes de tirar a vida a quem se arrisque sobre elas.
Uma obra prima que impedirá a entrada de famintos, crianças de rua e vagabundos.
Vagabundos de toda espécie.
Entre as barras e sobre as pontas de aço
nada passará exceto
a chuva, a morte e o dia de amanhã.
Carl August Sandburg
domingo, maio 03, 2015
sábado, maio 02, 2015
sexta-feira, maio 01, 2015
Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade
Mas o que eu tenho
É só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade
Tem gente que não tem nada
E outros que tem mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar
Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar p'rá casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
De todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade
Mas o que eu tenho
É só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade
Tem gente que não tem nada
E outros que tem mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar
Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar p'rá casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
De todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar
Sei que existe injustiça
Eu sei o que acontece
Tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado a miséria
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
Quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar p'rá casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos
Eu sei o que acontece
Tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado a miséria
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
Quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar p'rá casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos
quinta-feira, abril 30, 2015
quarta-feira, abril 29, 2015
terça-feira, abril 28, 2015
Quando servi o exército eu me tornei especialista em bombas. Sei fabricar qualquer tipo de bomba portátil, muito usada por terroristas. A bomba que eu estava fazendo tinha que ter efeito fulminante, para que a vítima nada sofresse. E antes da explosão, era necessário que fosse emitido um feixe de luz radiante que fizesse a vítima perceber a iminência da explosão. A pessoa que eu queria matar era o meu filho João. Minha mulher Jane estava grávida quando fui enviado ao exterior com um contingente do exército a serviço das nações unidas. Fiquei ausente cerca de dois anos. Escrevia constantemente para Jane e ela respondia. Quando o meu filho nasceu e recebeu o nome de João, as cartas de Jane ficaram bem estranhas. Ela dizia que precisava falar comigo uma coisa muito séria, mas não sabia como. Eu respondia impaciente para ela dizer de qualquer maneira, mas ela persistia na falta de clareza, que cada vez piorava mais. Afinal, Jane deixou de responder minhas cartas. Quando voltei da missão da ONU, corri para casa assim que desembarquei no aeroporto. Jane abriu a porta para mim. Seu aspecto me surpreendeu. Estava envelhecida, pálida, parecia doente. “Onde está o João?”, perguntei. Jane começou a chorar convulsivamente, apontando a porta do quarto onde ele estava. Entrei no quarto, seguido de Jane. João estava deitado no berço, um menino lindo, que a meu ver deu um sorriso. Peguei-o no colo. Então, tive uma surpresa que me deixou atônito. João só tinha uma perna e um braço, eram os únicos membros que possuía. Jane estendeu-me um papel, todo amassado, uma receita médica onde estava escrito: esta criança sofre de focomelia, uma anomalia congênita que impede a formação de braços e pernas. Jane cuidava do João com o maior cuidado e com grande carinho. Mas ela definhava cada vez mais e morreu quando João tinha seis anos. Eu dei baixa no exército para poder cuidar do meu filho. Quando eu perguntava se ele queria alguma coisa, ele dizia “eu quero ir para a guerra”. Sua deficiência física se agravava com a idade. Ele tinha 15 anos, mas não podia andar, estava impossibilitado de exercer as mínimas atividades físicas. “eu quero ir para a guerra, papai”, ele pediu mais uma vez. Então decidi que ele iria à guerra. Foi quando preparei a bomba. Com a bomba na mão eu disse: “meu filho, você foi convocado para ir à guerra”. “Obrigado, meu pai querido, eu te amo muito”. Eu o amava mais ainda. Coloquei a bomba na sua mão. “Essa bomba vai explodir. É a guerra”, eu disse. “É a guerra”, ele repetiu feliz. Saí do quarto onde estava. Pouco depois vi o clarão. João também viu esse clarão, feliz, antes da bomba explodir, matando-o. Eu amava o meu filho.
Rubem Fonseca
segunda-feira, abril 27, 2015
Eu cheguei ao limite de minhas capacidades intelectuais
Eu percebo que poderei perdê-las a qualquer momento
Além disso, eu perdi muita gente querida, amigos e parentes
Eu, que tive uma atividade de reflexão, estudo e ensino, rodeado de pessoas que amava, eu me vejo cada vez mais solitário
Quando vivemos uma crise assim, a sabedoria vai embora e perdemos o rumo de nossas reflexões
De que valeram os 31 livros que eu publiquei. O que sobra de tudo que a gente aprendeu no momento limite. Eu sai a procura de um tipo de sabedoria que me ajudasse a suportar a velhice. Compreendê-la com serenidade
Eu só encontro consolo quando eu recito baixinho, para mim mesmo, os poemas que sei de cor
A repetição é uma forma arcáica de conhecimento, mas é eficaz, quando se vive num momento de domínio da tecnologia e do consumismo
É repetindo esses poemas que eu aprendo coisas importantes sobre mim próprio
Harold Bloom
Eu percebo que poderei perdê-las a qualquer momento
Além disso, eu perdi muita gente querida, amigos e parentes
Eu, que tive uma atividade de reflexão, estudo e ensino, rodeado de pessoas que amava, eu me vejo cada vez mais solitário
Quando vivemos uma crise assim, a sabedoria vai embora e perdemos o rumo de nossas reflexões
De que valeram os 31 livros que eu publiquei. O que sobra de tudo que a gente aprendeu no momento limite. Eu sai a procura de um tipo de sabedoria que me ajudasse a suportar a velhice. Compreendê-la com serenidade
Eu só encontro consolo quando eu recito baixinho, para mim mesmo, os poemas que sei de cor
A repetição é uma forma arcáica de conhecimento, mas é eficaz, quando se vive num momento de domínio da tecnologia e do consumismo
É repetindo esses poemas que eu aprendo coisas importantes sobre mim próprio
Harold Bloom
domingo, abril 26, 2015
E se nada acontecer?
Se os rostos deformados e os sentidos mendigos, os olhos famintos e as mãos que interrogam, a carne que sangra e afoga os desejos;
se tudo isso se transformar em cinza e ausência e a dúvida acenar ainda?
E se o silêncio pesar sobre o grito de angústia, se a esfinge recolher seu sorriso transfigurado, se todos os sonhos forem abortados... e se nada acontecer? E se tudo isso não tiver a menor importância?
Antônio Pinto de Medeiros Filho
Se os rostos deformados e os sentidos mendigos, os olhos famintos e as mãos que interrogam, a carne que sangra e afoga os desejos;
se tudo isso se transformar em cinza e ausência e a dúvida acenar ainda?
E se o silêncio pesar sobre o grito de angústia, se a esfinge recolher seu sorriso transfigurado, se todos os sonhos forem abortados... e se nada acontecer? E se tudo isso não tiver a menor importância?
Antônio Pinto de Medeiros Filho
sábado, abril 25, 2015
sexta-feira, abril 24, 2015
Tabacaria
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
quinta-feira, abril 23, 2015
Desigualdade Social
“Hei moço, me dá um trocado? Eu tenho fome.”
Essa é a abordagem do menino no sinal fechado,
Pra enganar o estômago e o destino, é a aparente solução.
E todos os dias, a mesma figura sem sombra, sem nome,
Um corpo franzino, trajando farrapos e de pés no chão.
Visão do descaso, sensação de embaraço, é de apertar o coração,
Não sei o que mais me dói, se a triste visão do menino no sinal
fechado,
Ou o que vejo no olhar de quem por ali passa, parecem olhar um animal.
Nenhuma demonstração de sentimento. (quando muito, o trocado).
Nenhuma compaixão à dor alheia, nem é notada, é algo normal.
Todos os dias essa cena se repete, tantos meninos em tantos sinais.
Histórias parecidas, pelos mesmos motivos e de causas iguais.
Quem me dera poder reescrever essa história em forma de verso e prosa,
Transformá-la em soneto e cancioneiro, em uma vida gentil e graciosa.
Gostaria que minhas palavras tivessem poder em sua forma e intensidade,
Poder este, de reescrever as linhas de algumas páginas da história
E moldá-las com as palavras certas, criando algo
novo e sem igual,
De modo a suprimir a existência de muitos males, apagá-los
da nossa memória,
Começaria impedindo até mesmo a existência do termo:
“desigualdade social”.
Wesley Henrique
Wesley Henrique
quarta-feira, abril 22, 2015
Jamais experimente a Liberdade se você não for
capaz de suportar a Solidão.
Eu
diferencio claramente solidão de solitude: esta é voluntária e corajosa; aquela
nos é imposta pelo Medo. Solidão é carência. Solitude é suficiência. A solitude
tem beleza e esplendor: por isso, positiva. A solidão é humilhante, escura e
melancólica: portanto, negativa. A primeira é saudável; a outra, uma doença.
Solitude é coisa do indivíduo. In-divíduo. Inteiro. Único. Indivisível. Porém,
a solidão vive sempre em busca de caras metades. Sempre pede companhia, implora
companhia. Mas só companhia certamente não resolve. Tanto, que existe solidão a
dois e solidão a mais. Escrevi até um livro, cujo título é Solidão a mil — com
o duplo louco sentido que o termo sugere.
Mas o
tema é complexo, e eu fico pensando. Será que você, você que não entende como
posso ter feito ontem um jantar só pra mim — com luz de vela e tudo — será que
você nunca passou uma noite inteira lendo um livro, sublinhando palavras ao
acaso, cotovelos apoiados na mesa, as mãos e um belo copo de vinho suportando a
cabeça dançante? Será que você nunca passou uma noite inteira sozinho,
deliciando-se com você mesmo, solto e alegre — sem saber nem como amanhecer?
Pois
então é preciso que eu te pergunte: Você é livre para vivenciar gostosamente a
própria Solidão — se quiser — ou tem sempre que reparti-la com alguém?
O
direito à solidão e a capacidade de exercê-lo plenamente são, para mim, mais
importantes do que a solidão em si. Entretanto, como já disse, quando falo em
solidão eu me refiro, mais apropriadamente, à solitude — que é algo muito além
do que apenas estar sozinho. Aliás, eu adoro companhia! Mas tem que ser
companhia inteligente, libertária, excitante, criativa e, preferencialmente,
sensual. Quem não tem sensualidade transbordante não inspira um segundo sequer
do meu tempo.
Edson Marques
terça-feira, abril 21, 2015
segunda-feira, abril 20, 2015
domingo, abril 19, 2015
O guardador de rebanhos
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo)
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Assinar:
Postagens (Atom)