quarta-feira, março 04, 2015

Uma linguagem que corte o fôlego. Rasante, talhante, cortante. Essa deve ser a linguagem do poeta.
Linguagem de aços exatos, de relâmpagos afiados, de agudos incansáveis, de navalhas reluzentes.
Uma dentadura que triture o eu-tu-ele-nós-vós-eles.
Um vento de punhais que desonre as famílias, os templos, as bibliotecas, os cárceres, os bordéis, os colégios, os manicômios, as fábricas, as academias, os cartórios, as delegacias, os bancos, as amizades, as tabernas, a revolução, a caridade, a justiça, as crenças, os erros, a esperança, as verdades... a verdade!
Octavio Paz

terça-feira, março 03, 2015

Não basta fugir. É preciso fugir no bom sentido. Fugir do tédio, da fome, da guerra!... Não se deve fugir excentricamente. É preciso fugir concentricamente. Fugir o mundo, para poder reinventá-lo um dia. Quem sabe, maior, mais verdadeiro, mais essencial, mais justo.
Charles Ferdinand Ramuz

segunda-feira, março 02, 2015


Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a -normalidade- é uma ilusão imbecil e estéril.

 Oscar Wilde

domingo, março 01, 2015

“O poder de moldar a República estará nas mãos dos jornalistas das futuras gerações”, escreveu o jornalista americano Joseph Pulitzer em 1904.
Ele próprio disse depois:
“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil quanto ela mesma”.

 Joseph Pulitzer

sábado, fevereiro 28, 2015

Ode aos herdeiros políticos. Ganham aos catorze anos a primeira gravata, com as cores do partido que melhor os ilude. Aos quinze, seguem a caravana. Aplaudem conforme o cenho das chefias. São os chamados anos de formação. Aí aprendem a compor o gesto, a interpretar humores, a mentir honestamente. Aprendem a leveza das palavras, a escolher o vinho, a espumar de sorriso nos dentes. Aprendem o sim e o não mais oportunos. Aos vinte anos, já conhecem pelo cheiro o carisma de uns, a menos-valia de outros, enquanto prosseguem vagos estudos de direito ou economia. Estão de olho nos primeiros cargos; é preciso minar, desminar, intrigar, reunir. Só os piores conseguem ultrapassar essa fase. Há então os que vão para os municípios, os que preferem os organismos públicos. Tudo depende de um golpe de vista ou dos patrocínios à disposição. É bem o momento de integrar as listas de elegíveis, pondo sempre a baixeza acima de tudo. A partir do parlamento, tudo pode acontecer: diretor de empresa pública, coordenador de campanha, assessor de ministro, ministro, diretor executivo, presidente da caixa, embaixador na pqp!... Mais à frente, para coroar a carreira, o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol. No final, para os mais obstinados, pode haver nome de rua (com ou sem estátuas), flores de panegírico, fanfarras e... Formol!

José Miguel Silva 

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

A vida bate como um relógio. Um arfar de vento no capim. É fome que rói as entranhas, facho que ilumina os olhos, percorre o corpo em incêndio e queima os lábios de paixão. Um cheiro de carne, de vinho, de fruta recém-tirada do pé. A vida recende violenta, por que não abocanhá-la inteira, cruel, vermelha, suculenta, escorrendo sangue pelos dentes?

Raquel Naveira

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Eu cheguei ao limite de minhas capacidades intelectuais
Eu percebo que poderei perdê-las a qualquer momento
Além disso, eu perdi muita gente querida, amigos e parentes
Eu, que tive uma atividade de reflexão, estudo e ensino, rodeado de pessoas que amava, eu me vejo cada vez mais solitário
Quando vivemos uma crise assim, a sabedoria vai embora e perdemos o rumo de nossas reflexões
De que valeram os 31 livros que eu publiquei. O que  sobra de tudo que a gente aprendeu no momento limite. Eu sai a procura de um tipo de sabedoria que me ajudasse a suportar a velhice. Compreendê-la com serenidade
Eu só encontro consolo quando eu recito baixinho, para mim mesmo, os poemas que sei de cor
A repetição é uma forma arcáica de conhecimento, mas é eficaz, quando se vive num momento de domínio da tecnologia e do consumismo
É repetindo esses poemas que eu aprendo coisas importantes sobre mim próprio

Harold Bloom

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.

Murilo Mendes

terça-feira, fevereiro 24, 2015

Estou procurando. Estou procurando. 
Estou tentando entender.
Tentando passar a alguém o que vivi até agora, e não sei a quem.
Mas não quero ficar com o que vivi.
Não sei o que fazer do que vivi. 
Confesso que tenho medo dessa desorganização profunda.

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Estou convencido de que se alguns Extraterrestres Desembarcassem amanhã no Brasil, haveria experts, Jornalistas, especialistas e Analistas de toda espécie para Explicar às pessoas que, no Fundo, não é uma coisa tão Extraordinária assim, que já Se tinha pensado nisso, que Até já existia há muito tempo Uma comissão especializada no Assunto. E, sobretudo, que Não há porque se afobar, pois Isso é problema do governo.

domingo, fevereiro 22, 2015

Um dia, pensei: por que você não pensa em uma coisa que nunca pensou? Tinha um lago perto e sempre vinha um peixe que botava a cabeça do lado de fora. Havia gaivotas que mergulhavam no lago e tornavam a sair. Comecei a olhar aquilo e pensar: se o peixe saísse d’água, morreria afogado no ar, mas se a gaivota ficasse dentro da água, morreria afogada. Comecei a olhar os dois elementos da natureza – a água e o ar - e descobri uma coisa bonita: o peixe e o pássaro passam... Sem deixar rastro!
Bartolomeu Campos de Queirós

sábado, fevereiro 21, 2015

Estou procurando. Estou procurando. Estou tentando entender.Tentando passar a alguém o que vivi até agora, e não sei a quem. Mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi. Confesso que tenho medo dessa desorganização profunda.
Clarice Lispector

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Quero
Quero lhe implorar
Para que seja paciente
Com tudo o que não está resolvido em seu coração e tente amar.
As perguntas como quartos trancados e como livros escritos em língua estrangeira.
Não procure respostas que não podem ser dadas porque não seria capaz de vivê-las. E a questão é viver tudo. Viva as perguntas agora.
Talvez assim, gradualmente, você sem perceber, viverá a resposta num dia distante
Rainer Maria Rilke

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

A Via Láctea

Legião Urbana

Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Mas não me diga isso

Hoje a tristeza
Não é passageira
Hoje fiquei com febre
A tarde inteira
E quando chegar a noite
Cada estrela
Parecerá uma lágrima

Queria ser como os outros
E rir das desgraças da vida
Ou fingir estar sempre bem
Ver a leveza
Das coisas com humor
Mas não me diga isso

É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto
Isso passa
Amanhã é um outro dia
Não é?

Eu nem sei porque
Me sinto assim
Vem de repente um anjo
Triste perto de mim

E essa febre que não passa
E meu sorriso sem graça
Não me dê atenção
Mas obrigado
Por pensar em mim

Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho

Quando tudo está perdido
Eu me sinto tão sozinho
Quando tudo está perdido
Não quero mais ser
Quem eu sou

Mas não me diga isso
Não me dê atenção
E obrigado
Por pensar em mim

Não me diga isso
Não me dê atenção
E obrigado
Por pensar em mim
Criador de todas as coisas, em um entardecer, Deus se perguntou na sua solidão celestial: - e agora?
Então um anjo feliz, com sua mão direita estendida para a Terra, falou com voz de silêncio: - descansai, Senhor! Nesse exato instante, Deus adormeceu e começou a se alegrar de tudo que tinha feito.
Adaptação livre 

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Estou lúcido.
Estou vivo como as aves em migração.
Começo por amar a realidade... nunca declinei a vida.
Mesmo que tudo esteja contaminado e sem reverso, é a vida que nos povoa; é a vida por inteiro que nos vive!
António Teixeira e Castro 

terça-feira, fevereiro 17, 2015

Sou metade Quixote, metade Pinóquio, tramando mentiras e atos heroicos entre Gepetos e moinhos de vento.
Sou de cinema, teatro, artista plástico.
Maestro, letrado, fenômeno de mídia, sucesso no show-bizz (por mais que cresça o meu nariz...).
Sou alma de madeira rasa, cavaleiro noturno andante. ah! quem me dera possuir Dulcinéia ou ter um amigo, um grilo falante!

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

Os partidos no Brasil...


As pessoas pensam que os cientistas existem para instruí-las e que os artistas - os poetas, os escritores, os músicos, os dramaturgos – existem só para lhes dar prazer.Não ocorre às pessoas que também os artistas têm muita coisa a lhes ensinar.
 Ludwig Wittgenstein

domingo, fevereiro 15, 2015

Os zeladores têm maneiras médicas e calvas comportadas como padres.
Seu reino de limpeza é de varsol, vassoura, espanador e ordens sumárias.
Vão limpos, com suas mãos odontológicas, atentos em cuidar do alheio embora alheio já sublocado a alguém que como sempre, não conhecem.

Por trás dos gestos neutros, voz sem timbre conduzem edifícios ou navios — são capitães civis de vida ordeira e todos nordestinos, comandando as naves.

Nos últimos andares, zeladores.
Escuros subsolos, zeladores.
Os edifícios têm algemas leves e de gravata, o zelador, tão calmo, não vê nem sente.


Jorge Wanderley

sábado, fevereiro 14, 2015

O carnaval me faz lembrar de uma fábula...a "alegria" com hora marcada.

Fábula dos macacos
"Uma vez, num vilarejo, apareceu um homem anunciando aos aldeões que compraria macacos por 10 moedas cada. Os aldeões foram à floresta caçar macacos.
O homem comprou centenas de macacos a 10 moedas e então os aldeões diminuíram seu esforço na caça. Aí, o homem anunciou que agora pagaria 20 moedas por cada macaco.
Os aldeões renovaram seus esforços e foram novamente à caça.

Os macacos foram escasseando cada vez mais e os aldeões foram desistindo da busca. A oferta aumentou para 25 moedas e a quantidade de macacos ficou tão pequena que já não havia mais interesse na caça. O homem então anunciou que agora compraria cada macaco por 50 moedas!

Entretanto, como iria à cidade grande, deixaria seu assistente cuidando das compras. Na ausência do homem, seu assistente disse aos aldeões: "olhem na jaula todos estes macacos que o homem comprou. Posso vender cada um a vocês por 35 moedas e, quando o homem retornar da cidade, vocês os revendam a ele por 50 moedas cada."... Os aldeões, espertos, pegaram todas as suas economias e compraram todos os macacos do assistente.

Eles nunca mais viram o homem ou seu assistente, somente macacos por todos os lados

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Mas eu não sabia, eu não sabia. Não se pode saber tudo. 
Mesmo o que creio saber, tem horas, que não creio.
Sou humano, e você mente, quer ganhar novos corações e esquece de
curar os que já tem...

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Eu nunca sei quando as histórias acabam. Por isso sempre fico preso entre uma e outra, ou entre nenhuma e nenhuma outra; entre um recomeço sem fim e um fim sem término.
Talvez por ser mais espectador ou coadjuvante, do que protagonista da minha vida, tenha essa enfermidade de não dar conta de quando baixa o pano. As luzes apagam, o público sai, os colegas limpam a maquiagem e eu continuo lá: com a fala na cabeça, o texto decorado, aguardando a deixa. A deixa que nunca vem.
Sempre tive medo das coisas e das pessoas. Um pavor e uma falta de fé.Ttalvez por isso eu tenha criado minha própria companhia teatral, onde sou diretor; contra-regra; atores e público. Enceno só para mim uma tragicomédia.
A realidade me faz tão mal e me deixa tão fraco que fico, no fundo do palco, muitas vezes, a sussurrar o texto a mim mesmo. Às vezes não ouço. Quase sempre não ouço, porque sussurro baixo e minha voz é trêmula… O público não entende a peça, logo, não aplaude.
Eu, furioso, demito a todos: ao autor; ao diretor; aos atores… expulso o público do teatro e ateio fogo a tudo. E ali dentro fico eu, junto às cortinas e aos holofotes, incandescentes; queimando, queimando, queimando…

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

É só a duvida que nos une e nos aproxima. É só disso que precisamos. Não acredito que haja nada verdadeiro. Tenho muito medo da verdade. Tive um professor de filosofia, o padre Henrique Vaz, a quem perguntei “o que é a fé?”. Ele me respondeu que a fé é a duvida, porque somente ela nos é possível. Quando uma pessoa encontra a verdade, a única coisa que ela adquire é a impossibilidade de ouvir o outro. Ela só fala, não ouve mais. Quem encontra a verdade, só fala!
 Bartolomeu Campos de Queirós

terça-feira, fevereiro 10, 2015

Como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia.
Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Respondi que, como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, podia imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.


Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia é para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Os ricos do mundo, no direito de queimar esse imenso patrimônio da humanidade.



Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país.



Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.



Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar que esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, possa ser manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.

Nesse momento, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deveria ser internacionalizada.
Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro. Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.


Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir à escola.



Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver.



Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa.

 Cristóvão Buarque

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Shakespeare não é apenas a figura central do cânone ocidental - ao lado de Cervantes e de Dante Alighieri. Ele criou a noção que temos do que é humano. Sua obra torna acessível a qualquer um a sabedoria que só um filósofo pode possuir, mas que o cidadão comum não pode alcançar por meios convencionais. É uma filosofia imediata, que se dá nos dramas, na mistura de tragédia e comédia, nas passagens em que Hamlet toca no problema da metafísica e Lear conclui que o mundo é irrecuperável. Hamlet é o personagem mais sábio de toda a literatura. Shakespeare escreve tudo da forma mais natural. E não basta uma vida para abarcar tudo o que o bardo ensina. Ele é o supremo artífice da sabedoria. Sempre descubro uma nova lição em poemas e aforismos embutidos em seu teatro. Só Shakespeare salva.
Harold Bloom

domingo, fevereiro 08, 2015

Quando estou entre pessoas e sinto que vou morrer me desculpo
dizendo “Preciso ir!”
“Ir aonde?” querem saber
Eu não respondo
apenas caio fora
para longe deles
porque de alguma maneira
sentem que há algo errado
e nunca sabem o que fazer
e lhes assusta essa coisa repentina
Como é maçante sentar
com as pessoas perguntando:
“Você está bem?”
“Precisa de algo?”
“Quer deitar?”
Vós gente! gente!
quem quer morrer no meio de gente?!
Especialmente quando não podem fazer coisa nenhuma
Para o cinema – para o cinema
é para onde corro
quando sinto que vou morrer
Até agora funcionou,
Eu não morri!

sábado, fevereiro 07, 2015

Estes senhores da cidade, senhores compenetrados que já não sabem dançar à noite sob o luar, que já não sabem andar sobre a carne de seus pés, que já não sabem contar histórias noite adentro!... ora, escuta mundo branco! escuta nos seus argumentos grandiosos o seu miserável estertor. quanto a nós, negros, só nos resta a piedade. piedade para os nossos vencedores oniscientes e ingênuos! 
Léopold Senghor

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Sucatas...
Acho que a sucata tem mais valor para os artistas de hoje do que as joias pendentes. Acho que o desejo de Clarice Lispector veio disso, quando ela gritou: “Eu quero escrever a sucata das palavras”E quando Clarice Lispector diz isso, ela quis dizer: “é preciso aprender a ler por trás do pensamento”

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

A patafísica é a ciência das soluções imaginárias. 
A patafísica está para a metafísica assim como a metafísica está para a física. 
Mais: a patafísica ultrapassa a metafísica mais do que a metafísica ultrapassa a física.

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Enquanto me davam a extrema-unção,
Eu estava distraído...
Ah, essa mania incorrigível de estar sempre
pensando noutra coisa!
Aliás, tudo é sempre outra coisa
E, enquanto a voz do padre zumbia como um besouro,
Eu pensava era nos meus primeiros sapatos
Que continuavam andando, que continuam andando,
Até hoje....Pelos caminhos deste mundo.
 Mário Quintana

terça-feira, fevereiro 03, 2015

O medo de ser...

Provisoriamente não cantaremos o amor,
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços...
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, e medo das mães, e medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nosso túmulos nascerão flores
amarelas e medrosas.
Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Não, não quero nada.
Já disse que não quero nada

Não me venha com conclusões!
A única conclusão é morrer

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu?

Se têm a verdade, guardem-na!

Fora disso sou doido, com todo direito a sê-lo
Com todo direito a sê-lo, não me amolem pelo amor de Deus!
 Fernando Pessoa

domingo, fevereiro 01, 2015

A poesia está guardada nas palavras - é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não entender quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não cultivo conexões com o real.
Para mim, poderoso não é aquele que descobre ouro,
Poderoso para mim é aquele que descobre as insignificâncias
do mundo e nossas.
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei muito emocionado e chorei, sim EU chorei, afinal....
Sou fraco para elogios.

 Manoel de Barros

sábado, janeiro 31, 2015

Vinte anos de teatro e alucinação. Até que um dia vendeu tudo e regressou a seu rio de infância e às árvores de sua aldeia natal. Foi vencido, o artista,  pelo cansaço e pelo horror de ser tantos reis assassinados e tantos amantes que agonizam. Finalmente liberto das ilusões mitológicas e vozes latinas de seus textos, era preciso agora ser alguém, antes ou depois de morrer, não se sabe. Postou-se diante de deus e disse: “eu, que tantos homens fui em vão, quero ser alguém, quero ser eu! E a voz solene de deus lhe respondeu: “nem eu mesmo sou eu. Sonhei um mundo como tu, Shakespeare, sonhaste em tua obra. E entre as formas de meu sonho estás tu, que como eu, és muitos... E ninguém! 
Jorge Luis Borges

sexta-feira, janeiro 30, 2015

Enterrem meu corpo em qualquer lugar.
Que não seja, porém, um cemitério.
De preferência, mata;
Na Gávea, na Tijuca, em Jacarepaguá.
Na tumba, em letras fundas,
Que o tempo não destrua,
Meu nome gravado claramente.
De modo que, um dia,
Um casal desgarrado
Em busca de sossego
Ou de saciedade solitária,
Me descubra entre folhas,
Detritos vegetais,
Cheiros de bichos mortos.
(Como eu).
E, como uma longa árvore desgalhada
Levantou um pouco a lage do meu túmulo
Com a raiz poderosa,
Haja a vaga impressão
De que não estou na morada.
Não sairei, prometo.
Estarei fenecendo normalmente
Em meu canteiro final.
E o casal repetirá meu nome,
Sem saber quem eu fui,
E se irá embora,
Preso à angústia infinita
Do ser e do não ser.
Ficarei entre ratos, lagartos,
Sol e chuva ocasionais,
Este sim, imortais.
Até que, um dia, de mim caia a semente
De onde há de brotar a flor
Que eu peço que se chame
Papáverum Millôr.
Millôr Fernandes

quinta-feira, janeiro 29, 2015

É sempre no passado aquele orgasmo, é sempre no presente aquele duplo, é sempre no futuro aquele pânico.
É sempre no meu peito aquela garra. 
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.
É sempre no meu trato o amplo distrato. Sempre na minha firma a antiga fúria. Sempre no meu engano outro retrato.
É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.
Sempre no meu amor a noite rompe. Sempre dentro de mim meu inimigo.E sempre no meu sempre a mesma ausência.
 Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, janeiro 28, 2015

Não entendo, não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Eu Sinto que eu sou muito mais completo quando eu não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples estado de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doido. É um desinteresse manso, uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: eu quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
 Clarice Lispector

terça-feira, janeiro 27, 2015

"Como explicar que o homem, um animal tão predominantemente construtivo, seja tão apaixonadamente propenso à destruição? Talvez porque seja uma criatura volúvel, de reputação duvidosa. Ou talvez porque seu único propósito na vida seja perseguir um objetivo, algo que, afinal, ao ser atingido, não mais é vida, mas o princípio da morte."
 Fiódor Dostoiévski

segunda-feira, janeiro 26, 2015

Imaginemos que se descobriu em Toledo, na Espanha, um texto árabe anônimo, dizendo que ao investir contra moinhos de vento, Dom Quixote matou um homem. Como Dom Quixote reagiria à descoberta?

Que eu saiba há três respostas possíveis. 

A primeira: nenhuma reação, porque no mundo alucinado de Dom Quixote a morte não é menos comum que a magia.  

A segunda hipótese é patética: Dom Quixote não conseguiu esquecer-se de que é mera projeção de seus leitores. Ao ver a morte desperta para sempre de sua loucura e sente-se criminoso como Caim, que matou Abel. 

A terceira hipótese é talvez mais verossímil: Quixote não pode admitir que o efeito à morte não corresponda a uma causa, e não mais conseguirá deixar de ser louco. Sim, sim, existe ainda uma quarta hipótese de difícil compreensão no ocidente: diante do cadáver do inimigo, Dom Quixote intui que engendrar e matar são atos que transcendem a condição  humana . Sabe que o morto é ilusório, como o são a espada sangrenta que traz na mão, ele próprio, sua vida passada, os deuses e o universo.
Cidade Em Chamas
Engenheiros do Hawaii
As chances estão contra nós, Mas nós estamos por aí, A fim de sobreviver,,,,
Como um avião sobrevoa, A cidade em chamas.....A cidade em chamas
No meio da confusão
Andando sem direção
A fim de sobreviver
Só pra ver como brilha
A cidade em chamas
A cidade em chamas
Se o que eu digo, Não faz sentido, Não faz sentido, ficar ouvindo
Mas o que eu digo, Não é mentira, Não faz sentido...Ficar mentindo
Enquanto as bombas caem do avião
Deixando de recordação....Da cidade em chamas....A cidade em chamas
Já ouvimos esta estória
Sabemos como acaba
Acontece quase tudo
Não muda quase nada
Já vimos este filme
Sabemos como acaba
Explodem quase tudo
Não sobra quase nada
Então, só resta uma solução
Sair no meio da sessão
Pra ver....A cidade em chamas....A cidade em chamas
As chances estão contra nós
Mas nós estamos por aí
A fim de sobreviver
No meio da confusão
Andando sem direção
A fim de sobreviver
Enquanto as bombas caem do avião, Deixando de recordação
A cidade em chamas....A cidade em chamas
Não basta ter coragem, É preciso estar sozinho. É preciso trair tudo
E trazer a solidão
Eu sei que eles tem razão
Mas a razão é só o que eles tem? quantas bocas se fecharão
Quando a bomba beijar o chão
Da cidade em chamas?...Da cidade em chamas...

As chances estão contra nós
Mas nós estamos por aí
A fim de sobreviver
Como um avião sobrevoa
A cidade em chamas

domingo, janeiro 25, 2015

Fecho os olhos e vejo um bando de pássaros. A visão dura um segundo ou talvez menos; não sei quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido o seu número? O problema envolve o da existência de Deus. Se Deus existe, o número é definido, porque Deus sabe quantos pássaros vi. Se Deus não existe, o número é indefinido, porque ninguém pode fazer a conta. Nesse caso, vi menos de dez pássaros (digamos) e mais de um, mas não vi nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três ou dois pássaros. Vi um número entre dez e um, que não é nove, oito, sete, seis, cinco, etc. Esse número inteiro é inconcebível; ergo, Deus existe.
Jorge Luis Borges

sábado, janeiro 24, 2015

Olho para o Brasil, vejo seu povo e lembro....

É pura inércia mental supor que, à medida que avança a história, é maior o espaço para que o homem se realize como indivíduo.
Não! A história está cheia de retrocessos e é certamente a estrutura da vida em nossa época o que mais impede o homem de viver como pessoa.

José Ortega y Gasset

sexta-feira, janeiro 23, 2015

Eu gostava de gostar
Um momento... Dá-me de ali um cigarro, Do maço em cima da mesa de cabeceira.
Continua... Dizias...
Que no desenvolvimento da metafísica De Kant a Hegel
Alguma coisa se perdeu.
Concordo em absoluto.
Estive realmente a ouvir.
Nondum amabam et amare amabam (Santo Agostinho).
Que coisa curiosa estas associações de idéias!
Estou fatigado de estar pensando em sentir outra coisa.
Obrigado. Deixa-me acender. Continua. Hegel...

Fernando Pessoa

quinta-feira, janeiro 22, 2015

O general só tem oitenta homens, e o inimigo, cinco mil. Em sua tenda o general blasfema e chora. Então escreve uma ordem do dia inspirada, que pombos correios espalham sobre o acampamento inimigo. Duzentos soldados inimigos mudam de lado a favor do general. Segue-se uma escaramuça, que o general vence facilmente, e mais dois regimentos inimigos se passam para o seu lado. Agora o inimigo tem oitenta homens e o general cinco mil. Então o general escreve outra ordem do dia e setenta e nove homens passam para o seu lado. Só resta um inimigo, cercado pelo exército do general, que o aguarda em silêncio. Transcorre a noite e o inimigo não passou para o seu lado. O general blasfema e chora em sua tenda. Ao amanhecer o inimigo desembainha lentamente a espada e avança em direção a tenda do general. Entra e olha pra ele. O exército do general debanda e o sol começa a surgir.
Júlio Cortázar

quarta-feira, janeiro 21, 2015


Seja feliz em seu casa...

Estamos aqui sendo provocados diariamente. Provocados pelos jornais, provocados pelas pessoas que vão pras ruas, provocados pela carne, pelo tomate. Provocados por tudo que acontece, e as pessoas dizem que as coisas vão bem. As coisas vão bem pra muitas pessoas. Os que se estreparam são pouquíssimos, é só uma porcentagem, noventa e seis por cento.

terça-feira, janeiro 20, 2015

Juqueri, Juqueri, Quem é louco fica aqui!
Será por isso, fiquei? . Garanto, garanto, senhor, não sei ...
Eu gostei quando vim aqui Eu gostei muito e não saí
Só senhor, o que me incomoda, Quando alta canta a roda
Juqueri, Juqueri Quem é louco fica aqui.
Cid Pimentel

segunda-feira, janeiro 19, 2015

É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.
É sempre no meu peito aquela garra..
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.
É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.
É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.
Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.
Carlos Drummond de Andrade

domingo, janeiro 18, 2015

É contra mim que luto
Não tenho outro inimigo.
O que penso
O que sinto
O que digo
E o que faço
É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço

Absurda aliança
De criança
E de adulto.
O que sou é um insulto
Ao que não sou
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou

Infeliz com loucura e sem loucura,
Peço à vida outra vida, outra aventura,
Outro incerto destino.
Não me dou por vencido
Nem convencido
E agrido em mim o homem e o menino.

Miguel Torga

sábado, janeiro 17, 2015

Os Senhores das Guerras

O megacowboy, vestindo armadura de carapaças de armadillo à prova de tiro, divide o mundo em adeptos do mal e cruzados do bem.

Revestindo uma couraça de raios laser à prova de bazucas, não ouve o clamor dos pais da pátria, ignora a biblioteca de Jefferson, ele próprio, arquiteto de sua mansão numa época em que se chegou a pensar em adotar o grego clássico, em vez do inglês, como idioma da nova república que antecipou a revolução francesa, que inspirou os libertadores da hispano-américa e os inconfidentes de Minas.

O megamacrosuperherói do bem não está interessado em ouvir mais nada. Nem repara quando Martin Luther King apresenta afro-condolências a uma afro-americana condoleezza verde-hira ferrúgeo-parda como a estátua da liberdade vista de perto.

O supermacromegacowboy vestido de "mariner" chegou ao limite. 
Seus olhos azuis são um frio risco de aço: basta de ônus onerosas e inoperosas!
Basta de franceses amolecidos e decadentes e de alemães desleais!

Vênias dadas ao trêfego blair e aos dois porta-vozes de eurodireita: o asinino Aznar, ostentando as medalhas do generalíssimo, e o mafioso Berlusconi, com bufos esgares de Mussolini.

Os dois olhos azuis são agora um único risco de aço.

O dedo no comando está prestes a apertar o botão. O ar tem um ataque cardíaco.

A primeira bomba, como um ovo de assombro, tomba lá onde foi o Zigurat de Babel, ali onde a rainha Semíramis passava tardes amenas e odorantes em seus jardins suspensos.

 Haroldo de Campos

sexta-feira, janeiro 16, 2015

Maria era a praia que eu frequentava certas manhãs. Meus gestos indispensáveis que se cumpriam a um ar tão absolutamente livre que ele mesmo determina seus limites, meus gestos simplificados diante de extensões de que uma luz geral aboliu todos os segredos.
Maria era sempre uma praia, lugar onde me sinto exato e nítido como uma pedra - meu particular, minha fuga, meu excesso imediatamente evaporados. Maria era o mar dessa praia, sem mistério e sem profundeza. Elementar, como as coisas que podem ser mudadas em vapor ou poeira.
Maria era também uma fonte. O líquido que começaria a jorrar num momento que eu previa, num ponto que eu poderia examinar, em circunstâncias que eu poderia controlar. Eu aspirava acompanhar com os olhos o crescimento de um arbusto, o surgimento de um jorro de água.
Maria não era um corpo vago, impreciso. Eu estava ciente de todos os detalhes do seu corpo, que poderia reconstituir à minha vontade. Sua boca, seu riso irregular. Todos esses detalhes não me seria dificil arrumá-los, recompondo-a, como num jogo de armar ou uma prancha anatômica.
Maria era também, em certas tardes, o campo cimentado que eu atravessava para chegar em algum lugar. Sozinho sobre a terra e sob um sol que me poderia evaporar de toda nuvem.
Maria era também uma árvore. Um desses organismos sólidos e práticos, presos à terra com raízes que a exploram e devassam seus segredos. E ao mesmo tempo lançados para o céu, com quem permutam seus gases, seus passáros, seus movimentos.
Maria era também a garrafa de aguardente. Aproximo o ouvido dessa forma correta e explorável e percebo o rumor e os movimentos de sonhos possíveis, ainda em sua matéria líquida, sonhos de que disporei, que submeterei a meu tempo e minha vontade, que alcançarei com a mão.
Maria era também o jornal. O mundo ainda quente, em sua última edição e mais recente.
Maria era também um livro susto de que estamos certos, susto que praticar, com que fazer os exercicíos que nos permitirão entender a voz de uma cadeira, de uma cômoda; susto cuidadosamente oculto, como qualquer animal venenoso entre folhas claras e organizadas dessa floresta numerada que leva dísticos explicativos: poesia, poemas, versos.
Maria era também a folha em branco, barreira oposta ao rio impreciso que corre em regiões de alguma parte de nós mesmos. Nessa folha eu construirei um objeto sólido que depois imitarei, o qual depois me definirá. Penso para escolher: um poema, um desenho, um cimento armado - presenças precisas e inalteráveis, opostas a minha fuga.
Maria era também o sistema estabelecido de antemão, o fim aonde chegar. Era a lucidez, que, ela só, nos pode dar um modo novo e completo de ver uma flor, de ler um verso.
João Cabral de Melo Neto,

quinta-feira, janeiro 15, 2015

Nunca estivemos tão próximos do fim da pobreza como agora. Eu lhes asseguro: homem pobre está desaparecendo.
Sobre o autor: Herbert Hoover - Presidente dos Estados Unidos entre 1929 e 1933, é lembrado como um dos piores presidentes da história do país.

quarta-feira, janeiro 14, 2015

Uma nuvem grávida, crespa e suave como uma ovelha?
Ou, quem sabe, água chovida das montanhas, água dos charcos?
Água dos charcos, abandonada aos cães?
Ou quem sabe, uma légua de mar, talvez um lago?
A água cai e corre. A água corre. Passa.
Ninguém a possui. Ninguém.
Podes vender-me terra?
A profunda noite das raízes, dentes de dinossauros,
A cauda espessa de um longínquo esqueleto?
Podes vender-me selvas, selvas já sepultadas, aves mortas,
Peixes de pedra, enxofre dos vulcões,
Milhões e milhões de anos em espiral crescendo?
Podes vender-me terra?
Podes vender-me?
Podes?
A tua terra é terra minha, todos os pés se apoiam nela.
Ninguém a possui. Niguém!
  Nicolás Guillén

terça-feira, janeiro 13, 2015

Separados pela língua, pela política e pela história de seus colonizadores, tem em comum uma memória coletiva. Eles aprenderam que do utensílio o branco sabe tudo. Mas o utensílio apenas arranha a superfície das coisas, desconhece a duração, ignora a vida.
Já a negritude, ao invés, é uma compreensão por simpatia.
O segredo do negro é que as fontes de sua existência e as raízes de ser são idênticas. O negro sabe que plantar é engravidar a terra. Depois cumpre ficar imóvel, espiar, por que ele, homem, cresce ao mesmo tempo que seus cereais.
Se labor em África, é a repetição de ano em ano do coito sagrado.
As técnicas contaminaram o homem branco, mas é o negro o grande macho da terra, o esperma do mundo.

Jean-Paul Sartre 

segunda-feira, janeiro 12, 2015

Isto é Brasília. Brasília, o poder. A linha do horizonte separa o palácio do Brasil. Do Brasil que tem fome; das terras sem semente; dos meninos sem mestre; dos enfermos sem remédio; dos trabalhadores sem ferramenta; dos moribundos sem esperança e das crianças que nascem para um futuro melhor.

domingo, janeiro 11, 2015

 O pensamento a vida e o tempo
O pensamento é escravo da vida e a vida o bobo do tempo, e o tempo que toma conta do mundo inteiro um dia há de parar.
 William Shakespeare

sábado, janeiro 10, 2015

Já somos o esquecimento que seremos, a poeira elementar que nos ignora, não foi Adão e que é agora todos os homens. Nós somos apenas as duas datas: a do princípio e a do fim. Eu não sou o insensato que se aferra ao mágico som de seu próprio nome. Eu penso com esperança naquele homem que não saberá o que eu fui sobre a terra. Em baixo do indiferente azul do céu, esta meditação é um consolo.
Jorge Luis Borges

sexta-feira, janeiro 09, 2015

"Ah!”, disse o rato, “o mundo fica cada dia a dia mais estreito. Primeiro, ele era tão amplo que eu tinha medo . Eu corria sempre pra frente.Eu ficava às vezes feliz por ver finalmente ao longe muros. Muros a direita, à esquerda, mas estes longos muros rumam tão depressa um em direção ao outro que já estou na última sala, e lá no canto está a ratoeira para a qual eu corro”.
“Bem, mas você só precisa mudar de direção”, disse o gato e devorou-o.

Franz Kafka

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Cada indivíduo tem um destino psicológico único e extraordinário. É sempre uma estrela inacessível que amamos. Mas como amar é ter medo de estar presente em todas as coisas, cada amor, em sua essência íntima, é sempre uma tragédia.
Lou Andréas-Salomé

quarta-feira, janeiro 07, 2015

Eu falo

Falo de anchietas e potiguares.
Falo de crianças vietnamitas e afegãs. 
Falo de africanos e de portugueses.
Falo dos cadáveres de Herculano e Pompéia. 
Falo de imperadores e de jesuítas, de bancários e lixeiros. 
Falo das meninas esfarrapadas das ruas...
Falo dos narcotizados das avenidas. 
Falo de brasileiros e de americanos, mas não falo do bem nem do mal. 
Falo de irlandeses e de indianos, dos meses e das horas... 
Falo dos homens, falo das meninas em primavera, de mamilos e de bocas intumescidas. Falo da carne tenra e cálida da infância.
Falo desse projeto de vida, minúscula e feminina, sempre à altura das pernas. 
Falo de verbos e falos retesados, que circundam os mais puros e sagrados espaços pequeninos do corpo. 
Falo de mulheres no fogo do outono.
Na mais obscura poeticidade, falo do mundo.

Jomard Muniz de Britto

terça-feira, janeiro 06, 2015

Os impactos de amor não são poesias
Que é poesia, o belo? Não é poesia,
E o que não é poesia não tem fala.
Nem mistério em si nem velhos nomes
Poesia são: coxas, fúria, cabala.

De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
Se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?
Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, janeiro 05, 2015

Final de Ano - Sensacional

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.

domingo, janeiro 04, 2015

Vivemos num tempo de chantagem universal,
Que toma duas formas complementares de escárnio:
Há a chantagem da violência e a chantagem do entretenimento.
Uma e outra servem sempre para a mesma coisa:
Manter o homem simples longe do centro dos acontecimentos.
Ortega y Gasset