Blog do Ideilson - Édy - Posso não concordar com nenhuma palavra do que dizeis, mas eu defenderei até a morte o seu direito de dizê-la.
segunda-feira, dezembro 15, 2014
Há algo de suicida na maneira em que nós, humanos, tratamos as crianças. Nós a deixamos estacionadas na frente do televisor para que engulam horas e horas de programas estúpidos e de violência gratuitas.
elas saem imaturas e inadaptáveis para a nossa sociedade.
As crianças são o pedaço mais frágil desta sociedade que temos. São as primeiras a morrer de fome. As mais maltratadas pelas guerras. Nós as escravizamos, a torturamos, a prostituímos.
Independente do horror e da indecência que isto pressupõe, nós estamos construindo um futuro de monstros. Este inferno deixa pegadas que não desaparecem.
domingo, dezembro 14, 2014
Esbarram em mim, nem noto.
Eu vejo pelas costas: mulato alto, roupas gastas, mas moda jovem. Cabelo rente, boné. Ele correu ao perceber alguém do outro lado da rua. Um branco, classe média, os dois com 17 anos. Talvez colegas no curso pré-vestibular ali perto. Sem dúvida, amigos. Mulato e branco, o Brasil. E ali, mais que o Brasil, o homem. Falam-se com uma felicidade que acende um ao outro. E essa felicidade acende até a mim. Tem tudo para se dizer e não podem parar de sorrir, desde que se viram. Eu também sorrio, sem intenção, pelo que sentem sem precisar saber que na amizade está a vida.
sábado, dezembro 13, 2014
O que sei
Se eu soubesse algo que me fosse útil, mas prejudicial à minha família, eu rejeitaria. Se eu soubesse algo que fosse útil à minha família, mas prejudicial ao meu país, eu esqueceria. Se eu soubesse algo que fosse útil ao meu país, mas prejudicial à humanidade, eu consideraria esse algo um crime.
Charles de Montesquieu
sexta-feira, dezembro 12, 2014
José
E agora, José?
A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você?
Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama protesta, e agora, José?Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José?
E agora, José? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio - e agora?
Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais. José, e agora?
Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse, a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse…
Mas você não morre, você é duro, José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José!José!José!
José, pra onde?
quinta-feira, dezembro 11, 2014
Mas eu não sabia, eu não sabia. Não se pode saber tudo. Mesmo o que creio saber, tem horas, que não creio.
quarta-feira, dezembro 10, 2014
Li num texto sobre o Enrico Fermi, o físico italiano que foi um dos pais da bomba atômica. Um dia resolveu fazer uma alteração no processo que usava para induzir a radioatividade usando neutrons (ou coisa parecida, sou meio fraco em física, na verdade sou contra).
O chumbo não estava dando certo, em vez de chumbo usaria outra coisa. Parafina, decidiu, sem pensar. Foi a decisão mais importante da sua vida, até ali. A colisão com o núcleo de hidrogênio da parafina fazia diminuir a velocidade dos neutrons, e todos sabem o que isso significa.
Espero que saibam, porque eu não sei. O importante é que os nêutrons vagarosos foram os responsáveis, pelo Prêmio Nobel que Fermi ganhou em 1938.
Ele era, segundo o texto, ‘o mais racional e o menos impulsivo dos cientistas’, mas escolhera a parafina num impulso. Tivera a intuição da parafina.
A história da ciência está cheia de sacadas do mesmo tipo, de manifestações do que outro cientista, Michael Polanyi, chama de ‘conhecimento tácito’, ou o que nós sabemos sem saber que sabemos.
Albert Einstein – outro que intuiu e ‘inventou’, muito mais do que deduziu racionalmente ele dizia que tinha um sentimento na ponta dos dedos, que substitui a percepção convencional e a racionalização.
Muitas vezes é a ponta dos dedos que sabe o que nós não sabemos que sabemos. Einstein, aparentemente, consultava a ponta dos seus dedos com frequência.
Tudo isto a respeito de que? Não sei. Eu talvez esteja querendo dizer que se deva recorrer a ponta dos dedos para entender o que se passa na política brasileira hoje, já que os órgãos com que tradicionalmente se avalia a realidade nacional não estão dando conta.
Ou está havendo uma grande mudança disfarçada de nada ou um grande nada disfarçado de mudança. Por aí. Ou não. Se eu não sei nem o que sei, vou saber o que estou dizendo?
Luiz Fernando Veríssimo
terça-feira, dezembro 09, 2014
Sabe aqueles ambulantes que saíam pela cidade a afiar as facas?
Eu gostava de seu assobio estridente, das chispas de fogo fabricadas pelo metal contra metal, dos olhos infantis que admiravam o relampejar, das cozinheiras e arrumadeiras que, da janela, piscavam para o portuga, padroeiro dos degoladores de galinha.
... o afiador de facas, o pipoqueiro, o sorveteiro, o baleeiro, o leiteiro
... profissões populares que se foram com a rapidez que trouxe o automóvel e o avião, esses aparelhos assassinos do século!
Fui reler o poema de Drummond. “Que século, meu Deus!” Diziam os ratos que começavam a roer o edifício.
Graciliano Ramos
segunda-feira, dezembro 08, 2014
Frio. Já é se dar o direito de ser frio. Que dia.
Eu tento passar por ele incógnito. Me entra nos ossos.
É uma questão pessoal. Eu finjo que o frio não me ofende. Talvez se emende, porque o frio tem a delicadeza de um punhal.
domingo, dezembro 07, 2014
Eu olho Teresa, vejo-a sentada aqui a meu lado. A poucos centímetros da mim. A poucos centímetros, muitos quilômetros. Por que essa impressão de que precisaria de quilômetros para medir a distância, o afastamento em que a vejo nesse momento?
Eu olho Teresa como se olhasse o retrato de uma antepassada que tivesse vivido em outro século. Ou como se olhasse um vulto em outro continente, através de um telescópio. Vejo-a como se a cobrisse a poeira tenuíssima ou o ar quase azul que envolvem as pessoas afastadas de nós muitos anos e muitas léguas.
Posso dizer dessa moça ao meu lado que é a mesma Teresa que durante todo o dia de hoje, por efeito do gás do sonho, eu senti pegada a mim?
Esta é a mesma Teresa que na noite passada eu conheci em toda intimidade? Posso dizer que a vi, falhei-le, posso dizer que a tive em toda intimidade? Que intimidade existe maior que a do sonho? A desse sonho que ainda trago em mim como um objeto que me pesasse no bolso?
Ainda me parece sentir o mar do sonho que inundou meu quarto. Ainda sinto a onda chegando à minha cama. Ainda me volta o espanto de despertar entre móveis e paredes que eu não compreendia pudessem estar enxutos. E sem nenhum sinal dessa água que o sol secou, mas de cujo contacto ainda me sinto friorento e meio úmido (penso agora que seria mais justo, do mar do sonho, dizer que o sol o afugentou, porque os sonhos são como as aves, não apenas porque crescem e vivem no ar).
Teresa aqui está. Teresa aqui está, ao alcance de minha mão, de minha conversa. Por que, entretanto, me sinto sem direitos fora daquele mar? Ignorante dos gestos, das palavras?
O sonho volta, me envolve novamente. A onda torna a bater em minha cadeira, ameaça chegar até a mesa. Penso que, no meio de toda essa gente de terra, gente que parece ter criado raízes, como um lavrador ou uma colina, eu sou o único a escutar esse mar. Talvez Teresa...
Talvez Teresa... sim, quem me dirá que esse oceano não nos é comum?
Posso esperar que esse oceano nos seja comum? Um sonho é uma criação minha, nascida de meu tempo adormecido, ou existe nele uma participação de fora, de todo o universo, de uma geografia, sua história, sua poesia?
O arbusto ou a pedra aparecida em qualquer sonho pode ficar indiferente à vida de que está participando? Pode ignorar o mundo que está ajudando a povoar? É possível que sintam essa participação, esses fantasmas, essa Teresa, por exemplo, agora distraída e distante? Há algum sinal que faça compreender termos sido, juntos, peixes de um mesmo mar?
De onde me veio a idéia de que Teresa talvez participe de um universo privado, fechado em minha lembrança, desse mundo que através de minha fraqueza eu me compreendi ser o único onde será possível cumprir os atos mais simples, como por exemplo caminhar, beber um copo de água, escrever meu nome, nada, nem mesmo Teresa. Teresa.
João Cabral de Melo Neto
sábado, dezembro 06, 2014
Início dos anos sessenta, no dia em que os franceses evacuaram Argel, abandonando a cidade à sua própria sorte. A população invade as ruas e chega, em sua caminhada alegre e errante, à estação de televisão. Os estúdios escancarados e o equipamento esparso não queriam dizer nada à multidão. Até que, sem querer, alguém liga uma câmera e uma imagem surge na tela do monitor. Os manifestantes reconhecem seus rostos, divertidos e encorajados e começam a brincar de imitar a televisão. Logo deduzem que a imagem vista no monitor era vista na cidade e, quem sabe, em toda Argélia. Eles podiam, enfim, se mostrar aos outros. Então, cantam, dançam e dizem poesias freneticamente!...
A festa desenfreada termina com a chegada da polícia e do exército. Os soldados desligam as câmeras, expulsam a multidão e, para afirmar seu domínio sobre a televisão pública, lacram os estúdios. E terminou assim a única experiência de que se tem notícia de uma televisão autenticamente popular.
Andrzej Wajda
sexta-feira, dezembro 05, 2014
É espantosa a velocidade com que avança o mundo. Não se sabe bem pra onde. Pra tragédia talvez, mas que avança, avança.
Imagine o que é pra mim, que sou do tempo em que o primeiro ministro da Dinamarca ia ao palácio de bonde, ler nos jornais sobre o smart truck, é, smart truck. Caminhão esperto em português. Smart truck é caminhão esperto. É um carro desenvolvido pelo exército americano para proteger autoridades de presumíveis ataques terroristas. Pura tecnologia de guerra. Tem de tudo para mandar pelos ares os que se aproximarem dos poderosos. Seu grande charme, que ainda um dia conquistará os mercados do terceiro mundo, é um dispositivo a laser que lança granadas pelo teto, a uma distância de até quinhentos metros. Uma verdadeira catapulta eletrônica no sentido inverso. Quinhentos metros!
Para as necessidades de nosso consumidor moderno, daquelas pessoas determinadas que sabem o que querem, quinhentos metros até que é muito, pois é a uma distancia muito menor que se encontram essas crianças que pedem migalhas nas ruas.
quinta-feira, dezembro 04, 2014
Não, não é cansaço… É uma quantidade de desilusão Que se me entranha na espécie de pensar, É um domingo às avessas
Do sentimento, Um feriado passado no abismo… Não, cansaço não é… É eu estar existindo
E também o mundo, Com tudo aquilo que contém, Como tudo aquilo que nele se desdobra E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Não. Cansaço por quê? É uma sensação abstrata Da vida concreta — Qualquer coisa como um grito
Por dar, Qualquer coisa como uma angústia Por sofrer, Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como… Sim, ou por sofrer como… Isso mesmo, como…
Como quê?… Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
Álvaro de Campos
quarta-feira, dezembro 03, 2014
Hoje e Sempre
A virtude deve desaparecer de novo e tornar-se inocência.
terça-feira, dezembro 02, 2014
Índios
Os índios fascinam a gente porque são anteriores ao tempo.
Ao que parece, eram nômades natos.
Banhistas contumazes. Mulherengos.
Como todos os povos que atingiram um alto nível de civilização, os índios eram irrevogavelmente distraídos.
Não costumavam trabalhar. Já que não lhes apetecia comprar nem vender, qualquer trabalho resultava-lhes supérfluo.
E os índios desprezavam o supérfluo, ao contrário de nós próprios que, fabricando diariamente milhares de objetos, acabamos por desembocar na guerra, máquina de matar homens e de... Incinerar objetos.
É um erro pensar que o índio prefere a nossa civilização!
Antonio Callado
Índios
Legião
Urbana
Quem
me dera ao menos uma vez
Ter de
volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu
me convencer que era prova de amizade
Se
alguém levasse embora até o que eu não tinha
Quem
me dera ao menos uma vez
Esquecer
que acreditei que era por brincadeira
Que se
cortava sempre um pano de chão
De
linho nobre e pura seda
Quem
me dera ao menos uma vez
Explicar
o que ninguém consegue entender
Que o
que aconteceu ainda está por vir
E o
futuro não é mais como era antigamente
Quem
me dera ao menos uma vez
Provar
que quem tem mais do que precisa ter
Quase
sempre se convence que não tem o bastante
Fala
demais por não ter nada a dizer
Quem
me dera ao menos uma vez
Que o
mais simples fosse visto
Como o
mais importante
Mas
nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Quem
me dera ao menos uma vez
Entender
como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse
mesmo Deus foi morto por vocês
Sua
maldade, então, deixaram Deus tão triste
Eu
quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim
pude trazer você de volta pra mim
Quando
descobri que é sempre só você
Que me
entende do início ao fim
E é só
você que tem a cura pro meu vício
De
insistir nessa saudade que eu sinto
De
tudo que eu ainda não vi
Quem
me dera ao menos uma vez
Acreditar
por um instante em tudo que existe
E
acreditar que o mundo é perfeito
E que
todas as pessoas são felizes
Quem
me dera ao menos uma vez
Fazer
com que o mundo saiba que seu nome
Está
em tudo e mesmo assim
Ninguém
lhe diz ao menos obrigado
Quem
me dera ao menos uma vez
Como a
mais bela tribo
Dos
mais belos índios
Não
ser atacado por ser inocente
Eu
quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim
pude trazer você de volta pra mim
Quando
descobri que é sempre só você
Que me
entende do início ao fim
E é só
você que tem a cura pro meu vício
De
insistir nessa saudade que eu sinto
De
tudo que eu ainda não vi
Nos
deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei
chorar e não consegui
segunda-feira, dezembro 01, 2014
Dias de luta. Só depois de muito tempo
Fui entender aquele homem Eu queria ouvir muito Mas ele me disse pouco...
Quando se sabe ouvir Não precisam muitas palavras Muito tempo eu levei Prá entender que nada sei Que nada sei!...
Só depois de muito tempo Comecei a entender Como será meu futuro Como será o seu...
Se meu filho nem nasceu Eu ainda sou o filho Se hoje canto essa canção O que cantarei depois? Cantar depois!...
Se sou eu ainda jovem Passando por cima de tudo Se hoje canto essa canção O que cantarei depois?...
Só depois de muito tempo Comecei a refletir Nos meus dias de paz Nos meus dias de luta...
Se sou eu ainda jovem Passando por cima de tudo Se hoje canto essa canção O que cantarei depois?...(2x)
Cantar depois!...
Esta estrada onde eu moro, entre duas voltas do caminho, Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem. Todo mundo é igual. Todo mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única. Até os cães.
Estes cães da roça até parecem homens de negócios: Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar: Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos, Que a vida passa! Que a vida, a vida passa!
E que a mocidade vai acabar.
Manuel Bandeira
domingo, novembro 30, 2014
Um dia desses...num desses encontros casuais eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tive tempo de chorar, sonhe todos os sonhos que não tive tempo de sonhar, e ame tudo que não tive tempo de amar... Ideilson
Ilha das Flores 2012
No dia 21 de abril, o Atos foi mais uma vez à Ilha das Flores, desta vez para participar de um censo social para conhecer melhor a realidade dos moradores da ilha, local de atuação do IDE – Instituto de Educação e Desenvolvimento Humano, Assim, nós do Atos juntamente com outros voluntários, visitamos várias residências, conversando com os moradores e levantado dados.
As “atas” se preparando para entrevistar os moradores da Ilha
A Ilha carece de educação, saúde, saneamento básico, posto de saúde, mais horários de ônibus, e assim por diante. Mas no meio desses problemas generalizados, existem pessoas reais que estão sofrendo muito. Fomos
grandemente impactados, ao nos deparamos com a realidade dessas pessoas em primeira mão. Visitamos algumas casas que só tinham um cômodo. Em uma delas moravam a mãe e 4 crianças pequenas, e como só havia um colchão, a mãe jogava as roupas no chão para que todos pudessem em que dormir. Também ficamos pensando como seria passar o inverno ali, visto que as frestas nas paredes são muitas e o telhado é precário. Numa das casas em que estávamos, chovia pra dentro através de goteiras, e nos molhamos praticamente o mesmo que se estivéssemos do lado e fora. Além disso, os terrenos são muito sujos e as necessidades fisiológicas são jogadas atrás da casa, pois não há banheiros nas residências. Muitas pessoas adoecem como conseqüência da miséria e da falta de higiene. A educação também deixa muito a desejar, conhecemos uma menina na quinta série que além de não saber ler, não sabia a data próprio aniversário.
Nesta casa de uma peça única moram, uma vó, três filhas, um genro e uma netinha.
A visita à Ilha das Flores foi uma experiência marcante, sem dúvidas, ao entramos em contato com uma realidade tão distante da nossa. Nas palavras de uma aluna: “Nunca me deparei com alguém que tem AIDS. Isso me deixou um pouco chocada e me deu uma vontade grande de ajudar essas pessoas, e falar palavras de conforto, de cuidar daquelas crianças que foram abusadas sexualmente; A cada experiência que tenho vivenciado no Atos tenho me importado mais com as pessoas que precisam, saído um pouco do meu mundinho egoísta.” E nas palavras de outra: “Fiquei com a sensação de impotência, e a certeza que o evangelho precisa ser anunciado. […] Deus pode mudar qualquer situação, mas Ele deseja nos usar para isso. E como é bacana ver o pessoal do IDE que tanto se esforça para mudar a realidade da Ilha. Enquanto estava lá, dentro de uma das casas, vi que minha ingratidão é brutal, de grande profundidade. Quantas vezes murmurei sem ter motivos significativos pra isso. Será mesmo que posso reclamar? Que Deus tenha misericórdia de mim.”
Ilha das Flores é um curta-metragem de cerca de 10
minutos, escrito e dirigido, em 1989, pelo cineasta Jorge Furtado.
sexta-feira, novembro 28, 2014
Quando eu era jovem, eu pensava que com a educação seria possível mudar o mundo.
Eu buscava constantemente uma aula que pudesse despertar no coração do público uma esperança.
Eu queria mostrar uma maneira diferente de viver, com mais amizade, criatividade, sem a obrigação de perseguir o dinheiro e o poder. Ilusão fútil que eu nunca consegui alcançar. Não só a revolução não chegou, como as pessoas se tornaram cada vez mais loucas e materialistas.
Quando eu me dei conta disto eu vivi momentos difíceis pensando, pensando inclusive que minha vida era um fracasso e que todo esforço era inútil.
Mas um dia eu tive uma revelação: se não se pode mudar o mundo, pelo menos é possível mudar a si mesmo, encontrar algo em seu coração, um desejo, uma necessidade e entregar-se totalmente a ele, sem olhar para trás. Isso não é para a sociedade ou para os outros, não, é para você mesmo.
E eu fazendo esse educador que eu sou, eu encontrei essa coisa. Provocar, burlar e fazer o público rir. Isso era tudo o que eu buscava em minha vida. Por certo eu não mudava o mundo, mas os educadores nunca mudaram o mundo, passam o tempo tentando sem nunca conseguir, por isso são educadores.
Os educadores gostam do fracasso e das ações ineficazes, são perdedores alegres e isto é a verdadeira força que têm, nunca se cansam de perder. Desfrutam de cada fracasso e voltam em seguida a fracassar de novo, diluindo assim as certezas das pessoas sérias e que nunca duvidam.
Então, esse sangue que pareço ter na minha cabeça, esse sangue que tenho sobre a minha camisa, esse sangue que tenho no meu coração, esse sangue que está todo em mim é tão patético e inútil em seu simbolismo porque é sangue de um educador. Um sangue que não vem de uma grande luta ou em nome de uma causa heróica. É sangue de brincadeira, ao mesmo tempo verdadeiro e pouco importante.
Adaptado de Provocações.
quinta-feira, novembro 27, 2014
No meu
bairro tem uma porção de meninos e outros não tão meninos.
E ainda
outros menos meninos ainda, que dormem nas calçadas de um jeito tão profundo,
Tão
entregues ao sono que, não sentem o ardor do sol batendo neles.
Nem a
dureza da pedra sobre o seu corpo.
Nem os
passos dos transeuntes que quase pisam ou mesmo pisam neles.
Mas
geralmente os evitam.
Nem
sequer olham para eles, como se não estivessem ali.
Dizem que
eles ficam assim porque eles fumam uma substância alucinógena
chamada
crack.
Assim
mesmo, em inglês crack.
Parecido
com os futebolistas que depois viram craques.
Assim, em
português craques.
Em
português a substância se transforma em craques do sono.
Bem, quem
sabe não estaria aí a solução para a minha insônia, porque eu não durmo.
Não, não eu não durmo.
Bairro da Luz - Centro de São Paulo
Lineu Moreira Dias
quarta-feira, novembro 26, 2014
A Morte
Esse negócio de morrer é uma grande atrapalhação. Imagine ter que interromper todos os seus projetos, tarefas, arrumações, coisas a fazer, e para sempre! Já pensou? Não como das outras vezes em que você largava tudo porque tinha ficado doente ou ia fazer uma longa viagem e depois retomava o fio de novo. Mas agora a tal viagem não tem volta. Chato, não? Agora a morte é pra já, pra qualquer minuto. Só peço mais aquele tempinho pra pôr minhas coisas em ordem e não dar muito trabalho aos que vierem depois de mim.
terça-feira, novembro 25, 2014
Tornar a sociedade segura contra roubo e incêndio e infinitamente cômoda para todo comércio e a usura são alvos inferiores, não deveriam ser perseguidos com os meios como se buscam os mais altos e mais raros, como por exemplo, a preponderância do ser humano sobre o lucro.
Friedrich Nietzsche
segunda-feira, novembro 24, 2014
A velha e o Brasil
Povo, povo, povo! O Brasil tem sorte de ainda ser povo. Povo é uma palavra com eco. Muito curiosa essa palavra, ninguém sabe direito. Mas eu posso dizer a vocês que a passageira do meu lado é viúva, sessenta anos, tem dois gatos de que gosta e dois netos de que não. Os gatos ela comanda, os netos é uma batalha. Sobre este mundo louco sabe tudo, ela vê televisão. Ela vê TV. O país não tem remédio, ninguém mais tem trabalho e os que têm não quer mais trabalhar, os políticos só roubam. Não vale a pena falar. Aproveita e volta ao sério. Sério pra ela são as telenovelas. Então ela fala sem parar. Fala sem parar. Ela fala de Big Brother, ela fala da Fazenda, ela fala do Raul Gil, ela fala do povo brasileiro. A passageira do lado é o passageiro em geral. O povo. O louvado povo com discursos do jornal. A que começar do ovo! Porque alguma coisa andou mal
domingo, novembro 23, 2014
Pouco a pouco o silêncio me fez um Robinson assustadiço, sem roupa, mas sem fome, sem sede porque pelos poros a luz mineral nutria e umedecia, mas pouco a pouco o planeta se despencava de minha língua, e errei sem idioma, escuro pelas areias do silêncio. Oh, solidão espacial do silêncio! Se desfaz o ruído do coração, quando sobressaltado ouviu o silêncio debaixo de outro silêncio maior, eu fui emagrecendo até ser somente silêncio naquele bairro do céu onde eu caí e fui enterrado por um alvo silencioso, por um grande rio de esmeraldas que não sabiam cantar.
Pablo Neruda
sábado, novembro 22, 2014
Sobre os especialistas:
Uma das maiores descobertas do século XX, foi a da agressiva estupidez com que se comporta o homem quando sabe muito de alguma coisa. Sabe muito alguma coisa, que iguala todas as demais, ou seja: a especialização é imoral.
Ortega y Gasset
sexta-feira, novembro 21, 2014
Há uma quase histeria de partidos e candidatos em busca dos marqueteiros. Profissionais da política, já tentados e testados em outros pleitos, donos absolutos de um eleitorado cativo, mas insuficiente, se esbofam em melhorar o que chamam de "imagem".
Para conseguir essa melhoria, escondem o que têm de mais legítimo, de mais natural, e adotam a maquiagem preparada pelo marketing.
Deixam de ser o que são e passam a ser o que os técnicos do mercado acham que deve ser. Isso inclui desde o corte do cabelo até o corte em alguns pontos essenciais do programa de cada um. Não se fala em moratória, em FMI, em concentração de renda. O discurso tem de ser politicamente correto, "light", sem ameaças ao capital e sem ameaças a ninguém, o que significa, na realidade, uma ameaça concreta para a grande maioria dos cidadãos.
Fica assim a vida política nacional igualada às telenovelas e dos programas de auditório, quem determina o que vai para o ar é o índice de audiência. O próximo presidente da República terá de ser o produto final da expectativa de um público e não de um povo.
Já tivemos laboratórios desse novo tipo de eleição. Collor se vestia melhor. Lula tinha a barba mal cuidada. Fernando Henrique Cardoso era poliglota; Lula, monoglota. O professor contra o ex-operário.
A Chapeuzinho Vermelho e o Lobo, todos de Minas Gerais.
Dentro do que os marqueteiros chamam de cenário, irá para o trono aquele que for melhor produzido, e não aquele que saiba produzir. É o nosso país, Brasil.
Carlos Heitor Cony - Adaptado
quinta-feira, novembro 20, 2014
O dia 20 de novembro, data em que se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra.
Quando
Quando morto estiver meu corpo, evitem os inúteis disfarces, os disfarces com que os vivos procuram apagar no morto o grande castigo da morte. Não quero caixão de verniz nem ramalhetes distintos, superfinos candelabros e nem as discretas decorações. Quero a morte com mau gosto! Deem-me coroas de pano, flores de roxo pano, angustiosas flores de pano, enormes coroas maciças como salva-vidas, com fitas negras pendentes. E descubram bem a minha cara. Que vejam bem os amigos a incerteza, o pavor, o pasmo. E cada um leve bem nítida a ideia da própria morte. Descubram bem minhas mãos! Meus amigos, olhem as mãos! Onde andaram, o que fizeram, em que sexos demoraram seus dedos sabidos? Meus amigos, olhem as mãos que mentiram a vossas mãos! Foram esboçados nelas todos os gestos malditos: até os furtos fracassados e os interrompidos assassinatos. Mãos que fugiram da suprema purificação dos possíveis suicídios. Descubram e exibam todo meu corpo, as partes excomungadas, as partes sujas sem perdão. Eu quero a morte nua e crua, terrífica e habitual. Quero ser um tal defunto, um morto tão acabado, tão aflitivo e pungente, que possam ver, os meus amigos, que morre-se do mesmo jeito como se vão os penetras escorraçados, as prostitutas recusadas, os amantes despedidos, que saem enxotados mas voltariam sem brio a qualquer gesto de chamada. Meus amigos, tenham pena – senão do morto – aos menos dos dois sapatos do morto. Olhem bem para eles. E para os vossos também!
quarta-feira, novembro 19, 2014
O louva-a-deus era um comilão dos diabos. Um dia, ao deglutir uma folha, deu de cara com Como a maioria dos insetos, só
Pensava em comer e em copular. Passava o dia mastigando tudo o que Fosse comível, mas quanto a copular, A questão era mais delicada. Sabia que a primeira vez que Copulasse seria também sua última. Qualquer das fêmeas que por ali Rondavam iria devorá-lo após o ato Sexual. Por isso, ao louva-a-deus só restava
A masturbação e comer o mais que Pudesse, antes que fosse comido.Uma lindíssima fêmea que o encantou. Corpo esguio, pernas compridas e Bem torneadas, asas brilhantes e um Olhar de desfalecer! Não se importava nada de ser comido Por uma fêmea daquelas!... Primeiro, O louva-a-deus a copulou nervosa e Desvairadamente. Depois, olhou bem no rosto dela e Percebeu o sorriso de monalisa que Já lhe percorria os lábios.
Fernando Aguiar
terça-feira, novembro 18, 2014
E se um dia um palhaço se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse:
"Esta vida, assim como a vives e sempre viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes, não haverá nela nada de novo!
Cada dor, cada pensamento, tudo que há de pequeno em tua vida há de retornar. Tudo, na mesma ordem e sequência. E, do mesmo modo, esse instante e eu próprio: o demônio. O eterno relógio da existência reiniciará outra vez a contagem do seu tempo, e do tempo das tuas desgraças.
Não te lançarias ao chão rangendo os dentes e amaldiçoando o palhaço?
Não, não. Responderias medrosamente que nunca te disseram algo mais divino. Diga, nunca te disseram algo mais divino?
Mentirias que queres para sempre a tua própria desgraça? Vê bem, se disseres que sim, estarás apenas piorando a eternidade.
Friedrich Nietzsche
segunda-feira, novembro 17, 2014
Quem é o surdo?
Há duzentos e cinquenta anos, Chamfort dizia que a sociedade considerava os surdos infelizes por não poderem ouvir o que as pessoas diziam!... Como se pode ver hoje, algumas coisas mudaram: são os surdos que consideram as pessoas infelizes por dizerem o que dizem!.
domingo, novembro 16, 2014
Eu, eu e somente eu, não concordo com nenhuma palavra do que dizeis, mas eu defenderei até a morte o seu direito de dizê-la.
Voltaire
sábado, novembro 15, 2014
Meu caro amigo
A amizade é um pacto, uma convenção. Dois seres se comprometem tacitamente a nunca pôr à luz o que cada um no fundo pensa do outro. Um tipo de aliança fundada em arranjos. Quando um deles assinala em público os defeitos do outro, o pacto está devassado, a aliança rompida. Nenhum amizade dura se uma das partes se nega a jogar o jogo. Em suma, nenhuma amizade atura uma dose exagerada de franqueza.
Emil Cioran
sexta-feira, novembro 14, 2014
Provisoriamente não cantaremos o amor, cantaremos o medo, que esteriliza os abraços...
não cantaremos o ódio porque esse não existe, existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, e medo das mães, e medo das igrejas, cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo depois da morte,depois morreremos de medo
e sobre nosso túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
Drummond
quinta-feira, novembro 13, 2014
Universalmente admite-se que o unicórnio é um ser sobrenatural e de bom agouro; Assim o declaram as odes, os anais, as biografias de varões ilustres e outros textos de indiscutível autoridade. Até os párvulos e as mulheres de povo sabem que o unicórnio constitui um presságio favorável. Mas esse animal não figura entre os animais domésticos. Nem sempre é fácil encontrá-lo, não se presta a uma classificação. Não é como o cavalo, o touro, o lobo, o cervo. Em tais condições poderíamos estar diante de unicórnio e não saberíamos com segurança que se trata dele. Sabemos que tal animal com crina é cavalo e que tal animal com chifres é touro, nós não sabemos como é o unicórnio.
quarta-feira, novembro 12, 2014
A Vitória Ama o Planejamento. A propósito: Como anda o teu Planejamento Estratégico Pessoal? Edson Marques
No momento em que se pensa ter compreendido tudo, se adquire no rosto uma expressão assassina de alguma coisa. Não há como compreender tudo. No edifício do pensamento, não encontrei nenhuma categoria em que pudesse pousar a cabeça. Em compensação, que belo travesseiro é o caos.
Emil Cioran
terça-feira, novembro 11, 2014
Um professor foi convocado ao
tribunal por um aluno ofendido, que o acusava de manter em sala debates que o
obrigava a pensar, mas ele o professor falará com leveza e alegria que parecia um
idiota e o deixava desorientado. O professor declarou ao juiz que seu sucesso
sempre fora estrondoso apenas porque, ao contrário da maioria que se conformara
em reclamar da vida e de seus salários, era honesto o bastante para apresentar
suas alunos comentários, conceitos, sistemas como tragédias e suas tragédias
como comédias, sempre com a certeza da duvida, e que o aluno que se sentira ofendido porque era tão obtuso
quanto milhões de outros alunos no mundo todo. O juiz absolveu o professor,
porque ele – juiz – odiava a comedia e tudo o que tinha a ver com ele. Ao
deixar o tribunal, o professor disse que compartilhava desse sentimento.
Adaptado livre Thomas Bernhard
segunda-feira, novembro 10, 2014
A razão pela qual algumas pessoas acham tão difícil a vida é porque estão sempre a julgar o passado melhor do que foi, o presente pior do que é e o futuro melhor do que será.
Marcel Pagnol.
domingo, novembro 09, 2014
O Professor - Edson Marques
A tabuada não basta. Como não bastam funções hiperbólicas, variáveis complexas, orações subordinadas. Não bastam Euclides e sua geometria, não bastam as teorias. O professor deve ensinar ao aluno a arte de viver com dignidade, com amor, com liberdade.
Não basta falar das guerras, das batalhas, das conquistas — tem que ensinar o aluno a conquistar-se primeiro a si próprio. Ensinar-lhe medir distâncias é pouco — necessário vencê-las. Não basta saber o nome dos rios, temos que fluir. Equações algébricas não resolvem tudo, antes é preciso resolver-se. Em vez das mentiras históricas, o professor deve ensinar as verdades, e o melhor modo de encontrá-las.
Não basta falar de política, o professor tem que ser democrata. Deve olhar nos olhos do aluno e dizer-lhe como a vida é. Aumentar-lhe a coragem de crescer. Ensinar-lhe a lógica das emoções e o amor pelo raciocínio.
O professor transmite sabedoria, incentiva o bom senso e o bom gosto. Mergulha fundo no oceano de dúvidas que o aluno tem no coração, e traz o tesouro pulsante lá submerso. Educa, orienta, aviva a chama na consciência de cada. Ao polir a pedra bruta consegue intenso brilhante.
Bom professor é aquele que não exige, não cobra — obtém. Não corrige — mostra o porquê. Não hesita quando avalia, não constrange quando examina. E nunca faz da nota uma espada.
O bom professor não só ensina, compreende. Não levanta a voz, amplifica o verbo, convence. É sério — mas ri da própria seriedade. Fala do êxtase, da alegria e da profunda emoção que explode no seu peito quando ensina, como pétalas no riso de quem ama.
O professor mostra ao aluno a diferença entre o silogismo e a serpente. Ensina-o a extrair raiz quadrada com poesia. Demonstra como ser ousado sem ser burro. Jamais abusa da confiança do aluno, não lhe invade o espaço, não procura condicioná-lo. Não cria relações de dependência, nem exerce dominação sádica sobre ele. Infunde-lhe o respeito absoluto pela vida. Prefere o aluno criativo ao bem-comportado. Nunca o explora, é só o conquistador de um novo mundo, que leva o aluno a ver mais — mais alto e mais longe.
Não levanta paredes em torno do aluno, e sim derruba aquelas que houver. Abre-lhe as portas da vida, com veemência. Não o repreende, não o censura, não o recrimina. Mostra ao aluno a importância da inteligência na determinação do seu futuro. O velho dilema entre a caneta e a vassoura...
Como Sócrates, o bom professor não vê glórias no que sabe, não esconde o que conhece, nem oculta o que possa não saber. Brinca, tem confiança em si, e não faz da escola uma cela.
Moderno, convence o aluno a saltar os muros da tradição, porque a aventura está sempre do outro lado. Lógico, respeita aquele que aprendeu a questionar. Não o sufoca com preconceitos nem com juízos de valor. Nem lhe causa medo algum. Transmite confiança, pega na mão, aplaude, incentiva, suporta, conduz, ampara na travessia.
Não é hipócrita, faz o que diz e diz o que pensa. É um farol que não vela o que descobre. Mostra um caminho. E não apenas mostra — demonstra, comprova, define.
Aranha em teia de luz, o professor não prende — liberta. Carrega o giz como fosse uma flor, com amor. E quando faz a linha tem firmeza, mas não separa. Ora Dali, ora Picasso, vai colocando a tinta, pondo seu traço, amando seu gesto, compondo a canção. Enaltece o risco do sonho, o círculo do fogo, a pureza da alma, o princípio da vida, o anel da esperança.
Considera o aluno obra de arte quase inacabada. Ama-o como se fosse um anjo. E nunca vai matar-lhe no peito a vontade de ser livre.
O professor é o amigo sincero que ajuda o aluno a superar os limites da vida, desbravando com determinação e ousadia essa fantástica região chamada Experiência.