terça-feira, dezembro 02, 2014

Índios
Legião Urbana
Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu me convencer que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha

Quem me dera ao menos uma vez
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano de chão
De linho nobre e pura seda

Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente

Quem me dera ao menos uma vez
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
Fala demais por não ter nada a dizer

Quem me dera ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto
Como o mais importante
Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente

Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês
Sua maldade, então, deixaram Deus tão triste

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim

E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi

Quem me dera ao menos uma vez
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes

Quem me dera ao menos uma vez
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado

Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim

E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Dias de luta.
Só depois de muito tempo
Fui entender aquele homem
Eu queria ouvir muito
Mas ele me disse pouco...
Quando se sabe ouvir
Não precisam muitas palavras
Muito tempo eu levei
Prá entender que nada sei
Que nada sei!...
Só depois de muito tempo
Comecei a entender
Como será meu futuro
Como será o seu...
Se meu filho nem nasceu
Eu ainda sou o filho
Se hoje canto essa canção
O que cantarei depois?
Cantar depois!...
Se sou eu ainda jovem
Passando por cima de tudo
Se hoje canto essa canção
O que cantarei depois?...
Só depois de muito tempo
Comecei a refletir
Nos meus dias de paz
Nos meus dias de luta...
Se sou eu ainda jovem
Passando por cima de tudo
Se hoje canto essa canção
O que cantarei depois?...(2x)
Cantar depois!...
Esta estrada onde eu moro, entre duas voltas do caminho, Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem. Todo mundo é igual. Todo mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única. Até os cães.
Estes cães da roça até parecem homens de negócios: Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar: Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos, Que a vida passa! Que a vida, a vida passa!
E que a mocidade vai acabar.

 Manuel Bandeira

domingo, novembro 30, 2014

Um dia desses...num desses encontros casuais eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tive tempo de chorar, sonhe todos os sonhos que não tive tempo de sonhar, e ame tudo que não tive tempo de amar...

Ideilson

Ilha das Flores 2012


No dia 21 de abril, o Atos foi mais uma vez à Ilha das Flores, desta vez para participar de um censo social para conhecer melhor a realidade dos moradores da ilha, local de atuação do IDE – Instituto de Educação e Desenvolvimento Humano, Assim, nós do Atos juntamente com outros voluntários, visitamos várias residências, conversando com os moradores e levantado dados.
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As “atas” se preparando para entrevistar os moradores da Ilha
A Ilha carece de educação, saúde, saneamento básico, posto de saúde, mais horários de ônibus, e assim por diante. Mas no meio desses problemas generalizados, existem pessoas reais que estão sofrendo muito. Fomos
grandemente impactados, ao nos deparamos com a realidade dessas pessoas em primeira mão. Visitamos algumas casas que só tinham um cômodo. Em uma delas moravam a mãe e 4 crianças pequenas, e como só havia um colchão, a mãe jogava as roupas no chão para que todos pudessem em que dormir. Também ficamos pensando como seria passar o inverno ali, visto que as frestas nas paredes são muitas e o telhado é precário. Numa das casas em que estávamos, chovia pra dentro através de goteiras, e nos molhamos praticamente o mesmo que se estivéssemos do lado e fora. Além disso, os terrenos são muito sujos e as necessidades fisiológicas são jogadas atrás da casa, pois não há banheiros nas residências. Muitas pessoas adoecem como conseqüência da miséria e da falta de higiene. A educação também deixa muito a desejar, conhecemos uma menina na quinta série que além de não saber ler, não sabia a data próprio aniversário.
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Nesta casa de uma peça única moram, uma vó, três filhas, um genro e uma netinha.
A visita à Ilha das Flores foi uma experiência marcante, sem dúvidas, ao entramos em contato com uma realidade tão distante da nossa. Nas palavras de uma aluna: “Nunca me deparei com alguém que tem AIDS. Isso me deixou um pouco chocada e me deu uma vontade grande de ajudar essas pessoas, e falar palavras de conforto, de cuidar daquelas crianças que foram abusadas sexualmente; A cada experiência que tenho vivenciado no Atos tenho me importado mais com as pessoas que precisam, saído um pouco do meu mundinho egoísta.” E nas palavras de outra: “Fiquei com a sensação de impotência, e a certeza que o evangelho precisa ser anunciado. […] Deus pode mudar qualquer situação, mas Ele deseja nos usar para isso. E como é bacana ver o pessoal do IDE que tanto se esforça para mudar a realidade da Ilha. Enquanto estava lá, dentro de uma das casas, vi que minha ingratidão é brutal, de grande profundidade. Quantas vezes murmurei sem ter motivos significativos pra isso. Será mesmo que posso reclamar? Que Deus tenha misericórdia de mim.”
Fontehttp://doatos.wordpress.com/2012/05/04/ilha-das-flores-2012

As flores morrem

Ilha das Flores é um curta-metragem de cerca de 10 minutos, escrito e dirigido, em 1989, pelo cineasta Jorge Furtado.


sexta-feira, novembro 28, 2014


Quando eu era jovem, eu pensava que com a educação seria possível mudar o mundo.
Eu buscava constantemente uma aula que pudesse despertar no coração do público uma esperança.
Eu queria mostrar uma maneira diferente de viver, com mais amizade, criatividade, sem a obrigação de perseguir o dinheiro e o poder. Ilusão fútil que eu nunca consegui alcançar. Não só a revolução não chegou, como as pessoas se tornaram cada vez mais loucas e materialistas.
Quando eu me dei conta disto eu vivi momentos difíceis pensando, pensando inclusive que minha vida era um fracasso e que todo esforço era inútil.
Mas um dia eu tive uma revelação: se não se pode mudar o mundo, pelo menos é possível mudar a si mesmo, encontrar algo em seu coração, um desejo, uma necessidade e entregar-se totalmente a ele, sem olhar para trás. Isso não é para a sociedade ou para os outros, não, é para você mesmo.
E eu fazendo esse educador que eu sou, eu encontrei essa coisa. Provocar, burlar e fazer o público rir. Isso era tudo o que eu buscava em minha vida. Por certo eu não mudava o mundo, mas os educadores nunca mudaram o mundo, passam o tempo tentando sem nunca conseguir, por isso são educadores.
Os educadores gostam do fracasso e das ações ineficazes, são perdedores alegres e isto é a verdadeira força que têm, nunca se cansam de perder. Desfrutam de cada fracasso e voltam em seguida a fracassar de novo, diluindo assim as certezas das pessoas sérias e que nunca duvidam.
Então, esse sangue que pareço ter na minha cabeça, esse sangue que tenho sobre a minha camisa, esse sangue que tenho no meu coração, esse sangue que está todo em mim é tão patético e inútil em seu simbolismo porque é sangue de um educador. Um sangue que não vem de uma grande luta ou em nome de uma causa heróica. É sangue de brincadeira, ao mesmo tempo verdadeiro e pouco importante.

Adaptado de Provocações.

quinta-feira, novembro 27, 2014

No meu bairro tem uma porção de meninos e outros não tão meninos. 
E ainda outros menos meninos ainda, que dormem nas calçadas de um jeito tão profundo,
Tão entregues ao sono que, não sentem o ardor do sol batendo neles.
Nem a dureza da pedra sobre o seu corpo.
Nem os passos dos transeuntes que quase pisam ou mesmo pisam neles.
Mas geralmente os evitam.
Nem sequer olham para eles, como se não estivessem ali.
Dizem que eles ficam assim porque eles fumam uma substância alucinógena
chamada crack.
Assim mesmo, em inglês crack.
Parecido com os futebolistas que depois viram craques.
Assim, em português craques.
Em português a substância se transforma em craques do sono.
Bem, quem sabe não estaria aí a solução para a minha insônia, porque eu não durmo.
Não, não eu não durmo.

Bairro da Luz - Centro de São Paulo
Lineu Moreira Dias





quarta-feira, novembro 26, 2014

A Morte
Esse negócio de morrer é uma grande atrapalhação. Imagine ter que interromper todos os seus projetos, tarefas, arrumações, coisas a fazer, e para sempre! Já pensou? Não como das outras vezes em que você largava tudo porque tinha ficado doente ou ia fazer uma longa viagem e depois retomava o fio de novo. Mas agora a tal viagem não tem volta. Chato, não? Agora a morte é pra já, pra qualquer minuto. Só peço mais aquele tempinho pra pôr minhas coisas em ordem e não dar muito trabalho aos que vierem depois de mim.

terça-feira, novembro 25, 2014

Tornar a sociedade segura contra roubo e incêndio e infinitamente cômoda para todo comércio e a usura são alvos inferiores, não deveriam ser perseguidos com os meios como se buscam os mais altos e mais raros, como por exemplo, a preponderância do ser humano sobre o lucro.
Friedrich Nietzsche

segunda-feira, novembro 24, 2014

A velha e o Brasil
Povo, povo, povo! O Brasil tem sorte de ainda ser povo. Povo é uma palavra com eco. Muito curiosa essa palavra, ninguém sabe direito. Mas eu posso dizer a vocês que a passageira do meu lado é viúva, sessenta anos, tem dois gatos de que gosta e dois netos de que não. Os gatos ela comanda, os netos é uma batalha. Sobre este mundo louco sabe tudo, ela vê televisão. Ela vê TV. O país não tem remédio, ninguém mais tem trabalho e os que têm não quer mais trabalhar, os políticos só roubam. Não vale a pena falar. Aproveita e volta ao sério. Sério pra ela são as telenovelas. Então ela fala sem parar. Fala sem parar. Ela fala de Big Brother, ela fala da Fazenda, ela fala do Raul Gil, ela fala do povo brasileiro. A passageira do lado é o passageiro em geral. O povo. O louvado povo com discursos do jornal. A que começar do ovo! Porque alguma coisa andou mal

domingo, novembro 23, 2014

Pouco a pouco o silêncio me fez um Robinson assustadiço, sem roupa, mas sem fome, sem sede porque pelos poros a luz mineral nutria e umedecia, mas pouco a pouco o planeta se despencava de minha língua, e errei sem idioma, escuro pelas areias do silêncio. Oh, solidão espacial do silêncio! Se desfaz o ruído do coração, quando sobressaltado ouviu o silêncio debaixo de outro silêncio maior, eu fui emagrecendo até ser somente silêncio naquele bairro do céu onde eu caí e fui enterrado por um alvo silencioso, por um grande rio de esmeraldas que não sabiam cantar.

Pablo Neruda

sábado, novembro 22, 2014

Sobre os especialistas:
Uma das maiores descobertas do século XX, foi a da agressiva estupidez com que se comporta o homem quando sabe muito de alguma coisa. Sabe muito alguma coisa, que iguala todas as demais, ou seja: a especialização é imoral.
Ortega y Gasset

sexta-feira, novembro 21, 2014

Há uma quase histeria de partidos e candidatos em busca dos marqueteiros. Profissionais da política, já tentados e testados em outros pleitos, donos absolutos de um eleitorado cativo, mas insuficiente, se esbofam em melhorar o que chamam de "imagem".
Para conseguir essa melhoria, escondem o que têm de mais legítimo, de mais natural, e adotam a maquiagem preparada pelo  marketing.
Deixam de ser o que são e passam a ser o que os técnicos do mercado acham que deve ser. Isso inclui desde o corte do cabelo até o corte em alguns pontos essenciais do programa de cada um. Não se fala em moratória, em FMI, em concentração de renda. O discurso tem de ser politicamente correto, "light", sem ameaças ao capital e sem ameaças a ninguém, o que significa, na realidade, uma ameaça concreta para a grande maioria dos cidadãos.
Fica assim a vida política nacional igualada às telenovelas e dos programas de auditório, quem determina o que vai para o ar é o índice de audiência. O próximo presidente da República terá de ser o produto final da expectativa de um público e não de um povo.
Já tivemos laboratórios desse novo tipo de eleição. Collor se vestia melhor. Lula tinha a barba mal cuidada. Fernando Henrique Cardoso era poliglota; Lula, monoglota. O professor contra o ex-operário.
A Chapeuzinho Vermelho e o Lobo, todos de Minas Gerais.
Dentro do que os marqueteiros chamam de cenário, irá para o trono aquele que for melhor produzido, e não aquele que saiba produzir. É o nosso país, Brasil.

Carlos Heitor Cony - Adaptado

quinta-feira, novembro 20, 2014

O dia 20 de novembro, data em que se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra.

Quando
Quando morto estiver meu corpo, evitem os inúteis disfarces, os disfarces com que os vivos procuram apagar no morto o grande castigo da morte.
Não quero caixão de verniz nem ramalhetes distintos, superfinos candelabros e nem as discretas decorações. 
Quero a morte com mau gosto!
Deem-me coroas de pano, flores de roxo pano, angustiosas flores de pano, enormes coroas maciças como salva-vidas, com fitas negras pendentes.
E descubram bem a minha cara.
Que vejam bem os amigos a incerteza, o pavor, o pasmo. E cada um leve bem nítida a ideia da própria morte.
Descubram bem minhas mãos!
Meus amigos, olhem as mãos! 
Onde andaram, o que fizeram, em que sexos demoraram seus dedos sabidos?
Meus amigos, olhem as mãos que mentiram a vossas mãos!
Foram esboçados nelas todos os gestos malditos: até os furtos fracassados e os interrompidos assassinatos. Mãos que fugiram da suprema purificação dos possíveis suicídios.
Descubram e exibam todo meu corpo, as partes excomungadas, as partes sujas sem perdão.
Eu quero a morte nua e crua, terrífica e habitual.
Quero ser um tal defunto, um morto tão acabado, tão aflitivo e pungente, que possam ver, os meus amigos, que morre-se do mesmo jeito como se vão os penetras escorraçados, as prostitutas recusadas, os amantes despedidos, que saem enxotados mas voltariam sem brio a qualquer gesto de chamada.
Meus amigos, tenham pena – senão do morto – aos menos dos dois sapatos do morto. Olhem bem para eles. E para os vossos também!

quarta-feira, novembro 19, 2014

O louva-a-deus era um comilão dos diabos. Um dia, ao deglutir uma folha, deu de cara com Como a maioria dos insetos, só
Pensava em comer e em copular. Passava o dia mastigando tudo o que Fosse comível, mas quanto a copular, A questão era mais delicada. Sabia que a primeira vez que Copulasse seria também sua última. Qualquer das fêmeas que por ali Rondavam iria devorá-lo após o ato Sexual. Por isso, ao louva-a-deus só restava
A masturbação e comer o mais que Pudesse, antes que fosse comido.Uma lindíssima fêmea que o encantou. Corpo esguio, pernas compridas e Bem torneadas, asas brilhantes e um Olhar de desfalecer! Não se importava nada de ser comido Por uma fêmea daquelas!... Primeiro, O louva-a-deus a copulou nervosa e Desvairadamente. Depois, olhou bem no rosto dela e Percebeu o sorriso de monalisa que Já lhe percorria os lábios.
 Fernando Aguiar

terça-feira, novembro 18, 2014

E se um dia um palhaço se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse:
"Esta vida, assim como a vives e sempre viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes, não haverá nela nada de novo!
Cada dor, cada pensamento, tudo que há de pequeno em tua vida há de retornar. Tudo, na mesma ordem e sequência. E, do mesmo modo, esse instante e eu próprio: o demônio. O eterno relógio da existência reiniciará outra vez a contagem do seu tempo, e do tempo das tuas desgraças.
Não te lançarias ao chão rangendo os dentes e amaldiçoando o palhaço?
Não, não. Responderias medrosamente que nunca te disseram algo mais divino. Diga, nunca te disseram algo mais divino?
Mentirias que queres para sempre a tua própria desgraça? Vê bem, se disseres que sim, estarás apenas piorando a eternidade.
 Friedrich Nietzsche

segunda-feira, novembro 17, 2014

Quem é o surdo?
Há duzentos e cinquenta anos, Chamfort dizia que a sociedade considerava os surdos infelizes por não poderem ouvir o que as pessoas diziam!... Como se pode ver hoje, algumas coisas mudaram: são os surdos que consideram as pessoas infelizes por dizerem o que dizem!.

domingo, novembro 16, 2014

Eu, eu e somente eu, não concordo com nenhuma palavra do que dizeis, mas eu defenderei até a morte o seu direito de dizê-la.
Voltaire

sábado, novembro 15, 2014

Meu caro amigo
A amizade é um pacto, uma convenção. Dois seres se comprometem tacitamente a nunca pôr à luz o que cada um no fundo pensa do outro. Um tipo de aliança fundada em arranjos. Quando um deles assinala em público os defeitos do outro, o pacto está devassado, a aliança rompida. Nenhum amizade dura se uma das partes se nega a jogar o jogo. Em suma, nenhuma amizade atura uma dose exagerada de franqueza.
 Emil Cioran

sexta-feira, novembro 14, 2014

Provisoriamente não cantaremos o amor, cantaremos o medo, que esteriliza os abraços...
não cantaremos o ódio porque esse não existe, existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, e medo das mães, e medo das igrejas, cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo depois da morte,depois morreremos de medo
e sobre nosso túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Drummond 

quinta-feira, novembro 13, 2014

Universalmente admite-se que o unicórnio é um ser sobrenatural e de bom agouro; Assim o declaram as odes, os anais, as biografias de varões ilustres e outros textos de indiscutível autoridade.
Até os párvulos e as mulheres de povo sabem que o unicórnio constitui um presságio favorável. Mas esse animal não figura entre os animais domésticos. Nem sempre é fácil encontrá-lo, não se presta a uma classificação.
Não é como o cavalo, o touro, o lobo, o cervo. Em tais condições poderíamos estar diante de unicórnio e não saberíamos com segurança que se trata dele. Sabemos que tal animal com crina é cavalo e que tal animal com chifres é touro, nós não sabemos como é o unicórnio.

quarta-feira, novembro 12, 2014

A Vitória Ama o Planejamento. A propósito: Como anda o teu Planejamento Estratégico Pessoal? 
Edson Marques
No momento em que se pensa ter compreendido tudo, se adquire no rosto uma expressão assassina de alguma coisa. Não há como compreender tudo. No edifício do pensamento, não encontrei nenhuma categoria em que pudesse pousar a cabeça. Em compensação, que belo travesseiro é o caos.
Emil Cioran

terça-feira, novembro 11, 2014

Um professor foi convocado ao tribunal por um aluno ofendido, que o acusava de manter em sala debates que o obrigava a pensar, mas ele o professor falará com leveza e alegria que parecia um idiota e o deixava desorientado. O professor declarou ao juiz que seu sucesso sempre fora estrondoso apenas porque, ao contrário da maioria que se conformara em reclamar da vida e de seus salários, era honesto o bastante para apresentar suas alunos comentários, conceitos, sistemas como tragédias e suas tragédias como comédias, sempre com a certeza da duvida, e que o aluno que  se sentira ofendido porque era tão obtuso quanto milhões de outros alunos no mundo todo. O juiz absolveu o professor, porque ele – juiz – odiava a comedia e tudo o que tinha a ver com ele. Ao deixar o tribunal, o professor disse que compartilhava desse sentimento.

Adaptado livre Thomas Bernhard

segunda-feira, novembro 10, 2014

A razão pela qual algumas pessoas acham tão difícil a vida é porque estão sempre a julgar o passado melhor do que foi, o presente pior do que é e o futuro melhor do que será.

 Marcel Pagnol.

domingo, novembro 09, 2014

O Professor - Edson Marques

A tabuada não basta. Como não bastam funções hiperbólicas, variáveis complexas, orações subordinadas. Não bastam Euclides e sua geometria, não bastam as teorias. O professor deve ensinar ao aluno a arte de viver com dignidade, com amor, com liberdade. 

Não basta falar das guerras, das batalhas, das conquistas — tem que ensinar o aluno a conquistar-se primeiro a si próprio. Ensinar-lhe medir distâncias é pouco — necessário vencê-las. Não basta saber o nome dos rios, temos que fluir. Equações algébricas não resolvem tudo, antes é preciso resolver-se. Em vez das mentiras históricas, o professor deve ensinar as verdades, e o melhor modo de encontrá-las. 

Não basta falar de política, o professor tem que ser democrata. Deve olhar nos olhos do aluno e dizer-lhe como a vida é. Aumentar-lhe a coragem de crescer. Ensinar-lhe a lógica das emoções e o amor pelo raciocínio. 

O professor transmite sabedoria, incentiva o bom senso e o bom gosto. Mergulha fundo no oceano de dúvidas que o aluno tem no coração, e traz o tesouro pulsante lá submerso. Educa, orienta, aviva a chama na consciência de cada. Ao polir a pedra bruta consegue intenso brilhante. 

Bom professor é aquele que não exige, não cobra — obtém. Não corrige — mostra o porquê. Não hesita quando avalia, não constrange quando examina. E nunca faz da nota uma espada.

O bom professor não só ensina, compreende. Não levanta a voz, amplifica o verbo, convence. É sério — mas ri da própria seriedade. Fala do êxtase, da alegria e da profunda emoção que explode no seu peito quando ensina, como pétalas no riso de quem ama. 

O professor mostra ao aluno a diferença entre o silogismo e a serpente. Ensina-o a extrair raiz quadrada com poesia. Demonstra como ser ousado sem ser burro. Jamais abusa da confiança do aluno, não lhe invade o espaço, não procura condicioná-lo. Não cria relações de dependência, nem exerce dominação sádica sobre ele. Infunde-lhe o respeito absoluto pela vida. Prefere o aluno criativo ao bem-comportado. Nunca o explora, é só o conquistador de um novo mundo, que leva o aluno a ver mais — mais alto e mais longe. 

Não levanta paredes em torno do aluno, e sim derruba aquelas que houver. Abre-lhe as portas da vida, com veemência. Não o repreende, não o censura, não o recrimina. Mostra ao aluno a importância da inteligência na determinação do seu futuro. O velho dilema entre a caneta e a vassoura... 

Como Sócrates, o bom professor não vê glórias no que sabe, não esconde o que conhece, nem oculta o que possa não saber. Brinca, tem confiança em si, e não faz da escola uma cela.

Moderno, convence o aluno a saltar os muros da tradição, porque a aventura está sempre do outro lado. Lógico, respeita aquele que aprendeu a questionar. Não o sufoca com preconceitos nem com juízos de valor. Nem lhe causa medo algum. Transmite confiança, pega na mão, aplaude, incentiva, suporta, conduz, ampara na travessia. 

Não é hipócrita, faz o que diz e diz o que pensa. É um farol que não vela o que descobre. Mostra um caminho. E não apenas mostra — demonstra, comprova, define. 

Aranha em teia de luz, o professor não prende — liberta. Carrega o giz como fosse uma flor, com amor. E quando faz a linha tem firmeza, mas não separa. Ora Dali, ora Picasso, vai colocando a tinta, pondo seu traço, amando seu gesto, compondo a canção. Enaltece o risco do sonho, o círculo do fogo, a pureza da alma, o princípio da vida, o anel da esperança. 

Considera o aluno obra de arte quase inacabada. Ama-o como se fosse um anjo. E nunca vai matar-lhe no peito a vontade de ser livre. 

O professor é o amigo sincero que ajuda o aluno a superar os limites da vida, desbravando com determinação e ousadia essa fantástica região chamada Experiência. 

Enfim — o professor é o Mestre.

sábado, novembro 08, 2014

Declaração a liberdade.



Declaração a Juventude...
Quanto mais bem formuladas estejam as idéias, quanto mais explícitas elas forem, menor será a sua eficácia: uma idéia clara é uma idéia sem futuro!
 Emil Cioran

Seguir viagem

Viajar! Perder Países
Ser outro constantemente
Por a Alma não ter raízes
De viver de ver somente

Não pertencer nem a mim
Ir em frente, Ir a seguir
A ausência de ter um fim
E da ânsia de o conseguir

Viajar assim é viagem
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem
O resto é só terra e céu


Fernando Pessoa

sexta-feira, novembro 07, 2014





 Visite Santos -  Lugares e Saberes. 



Olá amigos vamos refletir hoje nossa reflexão aborda a morte....se medo, mas como a nosso certeza absoluta, que nosso corpo um dia vai morrer.

Eu ainda não topei pessoalmente com a morte, apesar da idade. Talvez porque, em princípio, eu conte com ela. É uma solução ao que somos ao acabar com o corpo pelo qual somos.
Não há nada mais irrecuperável que um cadáver... E fomos nós!
A frase, o ser que vínhamos encontrando e perdendo, desde a infância, dá com o ponto e se completa. Formará sentido?
Venite corazón... Venite, venite!
A morte... A morte é um fim elegante para o envelhecimento. Deixa que venha, deixa. 
Não fiques te encolhendo com medo de sentir dor, mesmo sentindo. Não lamentes os filmes que não possas ver na semana, o almoço de domingo no Pampulha, não receies que a hora já está chegando. Não receies. Estás vivo, vive! Vive sem medo de viver até o "páre".
Levanta da cadeira, da cama, acompanha a Madonna na TV... Dança, mesmo que apenas mentalmente. Dança, faz um gesto! Gasta uma nota! Telefona pro Bisol, a amizade sempre ganha o dia.
Continua sendo o que podes ser, a ousar, a usar-te. Que quando não der mais, apenas morrerás. Enfim, tendo a elegância de não dar palpites, não se queixar, não exigir dos outros.
O cupim que termine com os móveis e os imóveis abriguem novas gerações!
De existir de mil páginas esboçadas que, findas, podiam funcionar. De poemas que talvez tomassem jeito. De mulheres que te acharam ou achariam possível. Pois as que amaste, amaste: foi para sempre!
Venite, venite, venite corazón!
A vida... A vida nos foi dada, nós temos que devolver. Foi o que pudemos fazer, aceita!
Paulo Hecker Filho

terça-feira, novembro 04, 2014

Hoje um manha cinza abordaremos a mídia e a mediocracia


Meios de comunicação 


Nada mais surpreendente do que ver com que facilidade a maioria é governada pela minoria.
É observar ao longo da história a submissão implícita com que os homens sujeitam seus sentimentos e paixões aos de seus governantes.
De que modo se realiza esse prodígio?
Como são os governados que detêm a força (apenas eles, a maioria, não sabem disso!).
Os governantes nada têm por respaldo senão a opinião pública.
É somente na opinião pública que se fundamentam os governos, desde os mais despóticos e militarizados até os mais liberais e populares.
Não é, por isso, estranho o quanto mentem os poderosos com a ajuda dos meios de comunicação.
 David Hume

segunda-feira, novembro 03, 2014

Gilberto Freyre escreveu isso em 1926.....Seria um aviso para 2014

O outro Brasil que vem aí
Eu ouço as vozes, eu vejo as cores, eu sinto os passos de outro Brasil que vem aí mais tropical, mais fraternal mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças terão as cores das profissões e regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil, todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.

Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil

Lenhador, lavrador, pescador, vaqueiro, marinheiro, funileiro, carpinteiro contanto que seja digno do governo do Brasil que tenha olhos para ver pelo Brasil, ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem de morrer pelo Brasil ânimo de viver pelo Brasil mãos para agir pelo Brasil mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis mãos de engenheiro que lidem com e tratores europeus e norte-americanos a serviço do Brasil mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).

mãos livres, mãos criadoras, mãos fraternais de todas as cores, mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos, sem Irineus, sem Maurícios de Lacerda.

Sem mãos de jogadores nem de especuladores nem de mistificadores.

Mãos todas de trabalhadores, pretas, brancas, pardas, roxas, morenas, de artistas de escritores de operários de lavradores de pastores de mães criando filhos de pais ensinando meninos de padres benzendo afilhados de mestres guiando aprendizes de irmãos ajudando irmãos mais moços de lavadeiras lavando de pedreiros edificando de doutores curando de cozinheiras cozinhando de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.

Mãos brasileiras brancas, morenas, pretas, pardas, roxas, tropicais, sindicais, fraternais.
Eu ouço as vozes eu vejo as cores eu sinto os passos desse Brasil que vem aí.


domingo, novembro 02, 2014

Temos um grande assunto a tratar aqui:

A felicidade!...

... ou, ao menos, ser o menos infeliz que se possa neste mundo.

Eu não poderia suportar que me dissessem que quanto mais se pensa, mais se é infeliz. Isso vale em relação às pessoas que pensam mal. Não estou falando das pessoas que pensam mal dos outros, o que pode ser divertido, mas... Tragicamente divertido!

Falo daqueles que pensam de maneira errada, dos que rearranjam os seus preconceitos e julgam estar... pensando! Estes, sim, merecem compaixão, porque têm uma doença da alma, e toda doença é um estado triste. Infeliz.

Amo as pessoas que pensam de forma correta, mesmo aquelas que pensam de maneira diferente de mim.


Pensar, meus amigos, é um ato que põe em dúvida a estrutura de tudo!

sábado, novembro 01, 2014

A verdade....só a verdade
Uma linguagem que corte o fôlego. Rasante, talhante, cortante. Essa deve ser a linguagem do poeta.
Linguagem de aços exatos, de relâmpagos afiados, de agudos incansáveis, de navalhas reluzentes.
Uma dentadura que triture o eu-tu-ele-nós-vós-eles.
Um vento de punhais que desonre as famílias, os templos, as bibliotecas, os cárceres, os bordéis, os colégios, os manicômios, as fábricas, as academias, os cartórios, as delegacias, os bancos, as amizades, as tabernas, a revolução, a caridade, a justiça, as crenças, os erros, a esperança, as verdades... a verdade!

sexta-feira, outubro 31, 2014

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

Álvaro de Campos

quinta-feira, outubro 30, 2014

Para o momento é  o que temos
Não sonhem com governos, sociedades e civilizações em que o planejamento esteja acima de tudo. Quanto mais o homem planificar a sua atuação, mais facilmente será atropelado pela casualidade.
Friedrich Dürrenmatt

quarta-feira, outubro 29, 2014

A vida e a carne
No açougue do outro lado da rua, no que pensa o açougueiro enquanto corta a carne? É o que tentam adivinhar, embevecidos, os alunos de filosofia, através da janela aberta da sala de aula. À pergunta do professor, o aluno sentimental responde: pensa na mulher e nos filhos. O aluno rebelde grunhe com ironia: pensa nos cães e nos gatos que não têm nada para comer. O aluno ambicioso encolhe os ombros e, pragmático, afirma: pensa no lucro com a carne dos animais ainda não abatidos. E o aluno romântico dispara, sem enganos: pensa nas flores e no mar!... O professor enfileira as respostas e todos os alunos engordam com a certeza: agora sabem no que pensa o açougueiro enquanto corta a carne!
Radomir Andric

segunda-feira, outubro 27, 2014

Tempos de não 
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco. 
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, a fome, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação. 

Carlos Drummond de Andrade

domingo, outubro 26, 2014

Opinião do Blogueiro

O texto de foi publicado hoje é sim um quadro do Brasil e mostra como a nossa Democracia não garante a vontade da maioria e não defende as minorias.
As leis são complicadas e o cidadão comum obrigatoriamente tem que fazer uso de um advogado para usufruir dos seus direitos.
A justiça é  morosa e quem disse foi o ministro do TSF Nelson Jobim, além de cega. 
Não vou ficar aqui relatando os inúmeros problemas que o Brasil tem e sim lutando para um futuro melhor.

Um forte abraço.
Podemos chamar de Brasil
Oleg Svinorg foi o único náufrago que conseguiu chegar à terra firme. O navio afundara ao lago e todos se afogaram somente Oleg, um gigante de dois metros de altura teve forças para nadar até a praia. E ele nem sabia que praia era, um náufrago se salva em qualquer pedaço de terra. Encontrou desolação a sua volta, campos cobertos de capim, rios apodrecidos e em toda parte miseráveis que nem puderam socorrê-lo porque estavam mais famintos e desesperados do que Oleg. Perguntou se havia alguma coisa equivalente a um poder naquela ilha. Não exatamente um governo, mas uma comissão qualquer que cuidasse de melhorar as condições em que todos viviam. Sim, sim, claro. Havia uma comissão de notáveis que trabalhavam dia e noite para reformar o que fosse preciso. Aí sim a ilha conheceria a prosperidade que todos desejavam. Oleg procurou saber onde se reuniam os salvadores da ilha. Foi lá e viu umas quinhentas pessoas discutindo se no país em dificuldade a taxa de câmbio deveria ser super ou inferior a 6,2%, se os maiores a 60 anos teriam direito ao redutor de 25% acrescido pelo coeficiente do tempo de serviço, embora não houvesse serviço algum naquela ilha. Um pequeno grupo escrevia tudo o que era discutido e comunicava o de tempos em tempos essa novidade ao resto da ilha, mas ninguém entendia como iam ficar as coisas e dava tudo na mesma. O mais importante que inflamava corações e mentes era a taxa de juros. Estava altíssima e havia uma turma que achava a inflação pior do que a fome e o desemprego que atingia a todos. Para combatê-la, os juros deveriam ser aumentados disciplinando o consumo porque ninguém consumia nada. Oleg ouviu tudo e entendeu pouco, mas o bastante para atirar-se de volta as ondas e nadar em busca de outra praia.
Carlos Heitor Cony