sábado, novembro 15, 2014

Meu caro amigo
A amizade é um pacto, uma convenção. Dois seres se comprometem tacitamente a nunca pôr à luz o que cada um no fundo pensa do outro. Um tipo de aliança fundada em arranjos. Quando um deles assinala em público os defeitos do outro, o pacto está devassado, a aliança rompida. Nenhum amizade dura se uma das partes se nega a jogar o jogo. Em suma, nenhuma amizade atura uma dose exagerada de franqueza.
 Emil Cioran

sexta-feira, novembro 14, 2014

Provisoriamente não cantaremos o amor, cantaremos o medo, que esteriliza os abraços...
não cantaremos o ódio porque esse não existe, existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, e medo das mães, e medo das igrejas, cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo depois da morte,depois morreremos de medo
e sobre nosso túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Drummond 

quinta-feira, novembro 13, 2014

Universalmente admite-se que o unicórnio é um ser sobrenatural e de bom agouro; Assim o declaram as odes, os anais, as biografias de varões ilustres e outros textos de indiscutível autoridade.
Até os párvulos e as mulheres de povo sabem que o unicórnio constitui um presságio favorável. Mas esse animal não figura entre os animais domésticos. Nem sempre é fácil encontrá-lo, não se presta a uma classificação.
Não é como o cavalo, o touro, o lobo, o cervo. Em tais condições poderíamos estar diante de unicórnio e não saberíamos com segurança que se trata dele. Sabemos que tal animal com crina é cavalo e que tal animal com chifres é touro, nós não sabemos como é o unicórnio.

quarta-feira, novembro 12, 2014

A Vitória Ama o Planejamento. A propósito: Como anda o teu Planejamento Estratégico Pessoal? 
Edson Marques
No momento em que se pensa ter compreendido tudo, se adquire no rosto uma expressão assassina de alguma coisa. Não há como compreender tudo. No edifício do pensamento, não encontrei nenhuma categoria em que pudesse pousar a cabeça. Em compensação, que belo travesseiro é o caos.
Emil Cioran

terça-feira, novembro 11, 2014

Um professor foi convocado ao tribunal por um aluno ofendido, que o acusava de manter em sala debates que o obrigava a pensar, mas ele o professor falará com leveza e alegria que parecia um idiota e o deixava desorientado. O professor declarou ao juiz que seu sucesso sempre fora estrondoso apenas porque, ao contrário da maioria que se conformara em reclamar da vida e de seus salários, era honesto o bastante para apresentar suas alunos comentários, conceitos, sistemas como tragédias e suas tragédias como comédias, sempre com a certeza da duvida, e que o aluno que  se sentira ofendido porque era tão obtuso quanto milhões de outros alunos no mundo todo. O juiz absolveu o professor, porque ele – juiz – odiava a comedia e tudo o que tinha a ver com ele. Ao deixar o tribunal, o professor disse que compartilhava desse sentimento.

Adaptado livre Thomas Bernhard

segunda-feira, novembro 10, 2014

A razão pela qual algumas pessoas acham tão difícil a vida é porque estão sempre a julgar o passado melhor do que foi, o presente pior do que é e o futuro melhor do que será.

 Marcel Pagnol.

domingo, novembro 09, 2014

O Professor - Edson Marques

A tabuada não basta. Como não bastam funções hiperbólicas, variáveis complexas, orações subordinadas. Não bastam Euclides e sua geometria, não bastam as teorias. O professor deve ensinar ao aluno a arte de viver com dignidade, com amor, com liberdade. 

Não basta falar das guerras, das batalhas, das conquistas — tem que ensinar o aluno a conquistar-se primeiro a si próprio. Ensinar-lhe medir distâncias é pouco — necessário vencê-las. Não basta saber o nome dos rios, temos que fluir. Equações algébricas não resolvem tudo, antes é preciso resolver-se. Em vez das mentiras históricas, o professor deve ensinar as verdades, e o melhor modo de encontrá-las. 

Não basta falar de política, o professor tem que ser democrata. Deve olhar nos olhos do aluno e dizer-lhe como a vida é. Aumentar-lhe a coragem de crescer. Ensinar-lhe a lógica das emoções e o amor pelo raciocínio. 

O professor transmite sabedoria, incentiva o bom senso e o bom gosto. Mergulha fundo no oceano de dúvidas que o aluno tem no coração, e traz o tesouro pulsante lá submerso. Educa, orienta, aviva a chama na consciência de cada. Ao polir a pedra bruta consegue intenso brilhante. 

Bom professor é aquele que não exige, não cobra — obtém. Não corrige — mostra o porquê. Não hesita quando avalia, não constrange quando examina. E nunca faz da nota uma espada.

O bom professor não só ensina, compreende. Não levanta a voz, amplifica o verbo, convence. É sério — mas ri da própria seriedade. Fala do êxtase, da alegria e da profunda emoção que explode no seu peito quando ensina, como pétalas no riso de quem ama. 

O professor mostra ao aluno a diferença entre o silogismo e a serpente. Ensina-o a extrair raiz quadrada com poesia. Demonstra como ser ousado sem ser burro. Jamais abusa da confiança do aluno, não lhe invade o espaço, não procura condicioná-lo. Não cria relações de dependência, nem exerce dominação sádica sobre ele. Infunde-lhe o respeito absoluto pela vida. Prefere o aluno criativo ao bem-comportado. Nunca o explora, é só o conquistador de um novo mundo, que leva o aluno a ver mais — mais alto e mais longe. 

Não levanta paredes em torno do aluno, e sim derruba aquelas que houver. Abre-lhe as portas da vida, com veemência. Não o repreende, não o censura, não o recrimina. Mostra ao aluno a importância da inteligência na determinação do seu futuro. O velho dilema entre a caneta e a vassoura... 

Como Sócrates, o bom professor não vê glórias no que sabe, não esconde o que conhece, nem oculta o que possa não saber. Brinca, tem confiança em si, e não faz da escola uma cela.

Moderno, convence o aluno a saltar os muros da tradição, porque a aventura está sempre do outro lado. Lógico, respeita aquele que aprendeu a questionar. Não o sufoca com preconceitos nem com juízos de valor. Nem lhe causa medo algum. Transmite confiança, pega na mão, aplaude, incentiva, suporta, conduz, ampara na travessia. 

Não é hipócrita, faz o que diz e diz o que pensa. É um farol que não vela o que descobre. Mostra um caminho. E não apenas mostra — demonstra, comprova, define. 

Aranha em teia de luz, o professor não prende — liberta. Carrega o giz como fosse uma flor, com amor. E quando faz a linha tem firmeza, mas não separa. Ora Dali, ora Picasso, vai colocando a tinta, pondo seu traço, amando seu gesto, compondo a canção. Enaltece o risco do sonho, o círculo do fogo, a pureza da alma, o princípio da vida, o anel da esperança. 

Considera o aluno obra de arte quase inacabada. Ama-o como se fosse um anjo. E nunca vai matar-lhe no peito a vontade de ser livre. 

O professor é o amigo sincero que ajuda o aluno a superar os limites da vida, desbravando com determinação e ousadia essa fantástica região chamada Experiência. 

Enfim — o professor é o Mestre.

sábado, novembro 08, 2014

Declaração a liberdade.



Declaração a Juventude...
Quanto mais bem formuladas estejam as idéias, quanto mais explícitas elas forem, menor será a sua eficácia: uma idéia clara é uma idéia sem futuro!
 Emil Cioran

Seguir viagem

Viajar! Perder Países
Ser outro constantemente
Por a Alma não ter raízes
De viver de ver somente

Não pertencer nem a mim
Ir em frente, Ir a seguir
A ausência de ter um fim
E da ânsia de o conseguir

Viajar assim é viagem
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem
O resto é só terra e céu


Fernando Pessoa

sexta-feira, novembro 07, 2014





 Visite Santos -  Lugares e Saberes. 



Olá amigos vamos refletir hoje nossa reflexão aborda a morte....se medo, mas como a nosso certeza absoluta, que nosso corpo um dia vai morrer.

Eu ainda não topei pessoalmente com a morte, apesar da idade. Talvez porque, em princípio, eu conte com ela. É uma solução ao que somos ao acabar com o corpo pelo qual somos.
Não há nada mais irrecuperável que um cadáver... E fomos nós!
A frase, o ser que vínhamos encontrando e perdendo, desde a infância, dá com o ponto e se completa. Formará sentido?
Venite corazón... Venite, venite!
A morte... A morte é um fim elegante para o envelhecimento. Deixa que venha, deixa. 
Não fiques te encolhendo com medo de sentir dor, mesmo sentindo. Não lamentes os filmes que não possas ver na semana, o almoço de domingo no Pampulha, não receies que a hora já está chegando. Não receies. Estás vivo, vive! Vive sem medo de viver até o "páre".
Levanta da cadeira, da cama, acompanha a Madonna na TV... Dança, mesmo que apenas mentalmente. Dança, faz um gesto! Gasta uma nota! Telefona pro Bisol, a amizade sempre ganha o dia.
Continua sendo o que podes ser, a ousar, a usar-te. Que quando não der mais, apenas morrerás. Enfim, tendo a elegância de não dar palpites, não se queixar, não exigir dos outros.
O cupim que termine com os móveis e os imóveis abriguem novas gerações!
De existir de mil páginas esboçadas que, findas, podiam funcionar. De poemas que talvez tomassem jeito. De mulheres que te acharam ou achariam possível. Pois as que amaste, amaste: foi para sempre!
Venite, venite, venite corazón!
A vida... A vida nos foi dada, nós temos que devolver. Foi o que pudemos fazer, aceita!
Paulo Hecker Filho

terça-feira, novembro 04, 2014

Hoje um manha cinza abordaremos a mídia e a mediocracia


Meios de comunicação 


Nada mais surpreendente do que ver com que facilidade a maioria é governada pela minoria.
É observar ao longo da história a submissão implícita com que os homens sujeitam seus sentimentos e paixões aos de seus governantes.
De que modo se realiza esse prodígio?
Como são os governados que detêm a força (apenas eles, a maioria, não sabem disso!).
Os governantes nada têm por respaldo senão a opinião pública.
É somente na opinião pública que se fundamentam os governos, desde os mais despóticos e militarizados até os mais liberais e populares.
Não é, por isso, estranho o quanto mentem os poderosos com a ajuda dos meios de comunicação.
 David Hume

segunda-feira, novembro 03, 2014

Gilberto Freyre escreveu isso em 1926.....Seria um aviso para 2014

O outro Brasil que vem aí
Eu ouço as vozes, eu vejo as cores, eu sinto os passos de outro Brasil que vem aí mais tropical, mais fraternal mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças terão as cores das profissões e regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil, todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.

Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil

Lenhador, lavrador, pescador, vaqueiro, marinheiro, funileiro, carpinteiro contanto que seja digno do governo do Brasil que tenha olhos para ver pelo Brasil, ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem de morrer pelo Brasil ânimo de viver pelo Brasil mãos para agir pelo Brasil mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis mãos de engenheiro que lidem com e tratores europeus e norte-americanos a serviço do Brasil mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).

mãos livres, mãos criadoras, mãos fraternais de todas as cores, mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos, sem Irineus, sem Maurícios de Lacerda.

Sem mãos de jogadores nem de especuladores nem de mistificadores.

Mãos todas de trabalhadores, pretas, brancas, pardas, roxas, morenas, de artistas de escritores de operários de lavradores de pastores de mães criando filhos de pais ensinando meninos de padres benzendo afilhados de mestres guiando aprendizes de irmãos ajudando irmãos mais moços de lavadeiras lavando de pedreiros edificando de doutores curando de cozinheiras cozinhando de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.

Mãos brasileiras brancas, morenas, pretas, pardas, roxas, tropicais, sindicais, fraternais.
Eu ouço as vozes eu vejo as cores eu sinto os passos desse Brasil que vem aí.


domingo, novembro 02, 2014

Temos um grande assunto a tratar aqui:

A felicidade!...

... ou, ao menos, ser o menos infeliz que se possa neste mundo.

Eu não poderia suportar que me dissessem que quanto mais se pensa, mais se é infeliz. Isso vale em relação às pessoas que pensam mal. Não estou falando das pessoas que pensam mal dos outros, o que pode ser divertido, mas... Tragicamente divertido!

Falo daqueles que pensam de maneira errada, dos que rearranjam os seus preconceitos e julgam estar... pensando! Estes, sim, merecem compaixão, porque têm uma doença da alma, e toda doença é um estado triste. Infeliz.

Amo as pessoas que pensam de forma correta, mesmo aquelas que pensam de maneira diferente de mim.


Pensar, meus amigos, é um ato que põe em dúvida a estrutura de tudo!

sábado, novembro 01, 2014

A verdade....só a verdade
Uma linguagem que corte o fôlego. Rasante, talhante, cortante. Essa deve ser a linguagem do poeta.
Linguagem de aços exatos, de relâmpagos afiados, de agudos incansáveis, de navalhas reluzentes.
Uma dentadura que triture o eu-tu-ele-nós-vós-eles.
Um vento de punhais que desonre as famílias, os templos, as bibliotecas, os cárceres, os bordéis, os colégios, os manicômios, as fábricas, as academias, os cartórios, as delegacias, os bancos, as amizades, as tabernas, a revolução, a caridade, a justiça, as crenças, os erros, a esperança, as verdades... a verdade!

sexta-feira, outubro 31, 2014

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

Álvaro de Campos

quinta-feira, outubro 30, 2014

Para o momento é  o que temos
Não sonhem com governos, sociedades e civilizações em que o planejamento esteja acima de tudo. Quanto mais o homem planificar a sua atuação, mais facilmente será atropelado pela casualidade.
Friedrich Dürrenmatt

quarta-feira, outubro 29, 2014

A vida e a carne
No açougue do outro lado da rua, no que pensa o açougueiro enquanto corta a carne? É o que tentam adivinhar, embevecidos, os alunos de filosofia, através da janela aberta da sala de aula. À pergunta do professor, o aluno sentimental responde: pensa na mulher e nos filhos. O aluno rebelde grunhe com ironia: pensa nos cães e nos gatos que não têm nada para comer. O aluno ambicioso encolhe os ombros e, pragmático, afirma: pensa no lucro com a carne dos animais ainda não abatidos. E o aluno romântico dispara, sem enganos: pensa nas flores e no mar!... O professor enfileira as respostas e todos os alunos engordam com a certeza: agora sabem no que pensa o açougueiro enquanto corta a carne!
Radomir Andric

segunda-feira, outubro 27, 2014

Tempos de não 
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco. 
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, a fome, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação. 

Carlos Drummond de Andrade

domingo, outubro 26, 2014

Opinião do Blogueiro

O texto de foi publicado hoje é sim um quadro do Brasil e mostra como a nossa Democracia não garante a vontade da maioria e não defende as minorias.
As leis são complicadas e o cidadão comum obrigatoriamente tem que fazer uso de um advogado para usufruir dos seus direitos.
A justiça é  morosa e quem disse foi o ministro do TSF Nelson Jobim, além de cega. 
Não vou ficar aqui relatando os inúmeros problemas que o Brasil tem e sim lutando para um futuro melhor.

Um forte abraço.
Podemos chamar de Brasil
Oleg Svinorg foi o único náufrago que conseguiu chegar à terra firme. O navio afundara ao lago e todos se afogaram somente Oleg, um gigante de dois metros de altura teve forças para nadar até a praia. E ele nem sabia que praia era, um náufrago se salva em qualquer pedaço de terra. Encontrou desolação a sua volta, campos cobertos de capim, rios apodrecidos e em toda parte miseráveis que nem puderam socorrê-lo porque estavam mais famintos e desesperados do que Oleg. Perguntou se havia alguma coisa equivalente a um poder naquela ilha. Não exatamente um governo, mas uma comissão qualquer que cuidasse de melhorar as condições em que todos viviam. Sim, sim, claro. Havia uma comissão de notáveis que trabalhavam dia e noite para reformar o que fosse preciso. Aí sim a ilha conheceria a prosperidade que todos desejavam. Oleg procurou saber onde se reuniam os salvadores da ilha. Foi lá e viu umas quinhentas pessoas discutindo se no país em dificuldade a taxa de câmbio deveria ser super ou inferior a 6,2%, se os maiores a 60 anos teriam direito ao redutor de 25% acrescido pelo coeficiente do tempo de serviço, embora não houvesse serviço algum naquela ilha. Um pequeno grupo escrevia tudo o que era discutido e comunicava o de tempos em tempos essa novidade ao resto da ilha, mas ninguém entendia como iam ficar as coisas e dava tudo na mesma. O mais importante que inflamava corações e mentes era a taxa de juros. Estava altíssima e havia uma turma que achava a inflação pior do que a fome e o desemprego que atingia a todos. Para combatê-la, os juros deveriam ser aumentados disciplinando o consumo porque ninguém consumia nada. Oleg ouviu tudo e entendeu pouco, mas o bastante para atirar-se de volta as ondas e nadar em busca de outra praia.
Carlos Heitor Cony

sábado, outubro 25, 2014

Entretidos em discutir a morte, anoiteceu e não acendemos a luz.
Não víamos o rosto um do outro.
Com doçura e sem fervor, a voz de Macedonio Fernandez repetia que a alma é imortal.
Garantia que a morte não é nada.
Morrer tinha que ser o menos importante que pode acontecer a um homem.
Eu, Jorge Luis Borges, brincava com a navalha de Macedonio: abria e fechava.
Um acordeom, numa casa vizinha, despachava "la cumparsita", essa choradeira infinita e consternada de que muita gente gosta porque inventaram que é velha.
Então, para podermos continuar discutindo em paz a imortalidade, propus a Macedonio que nos suicidássemos.
Francamente, não lembro se nos suicidamos naquela noite. 

Jorge Luis Borges 

sexta-feira, outubro 24, 2014

O inicio o meio e o fim
Um fato marcou a minha vida para sempre: eu nasci!... 
O resto foi uma mera sequência de acontecimentos, que já é passado.
Neste instante, vivo o presente (que ainda não é fato), que está sendo feito, que pulsa no ritmo 
do meu coração, que passa na velocidade do meu pensamento, 
cheio de lembranças, sonhos e, desejos... Tudo tão efêmero quanto a própria existência. 
Outro fato irá selar a minha vida...
Então, o mundo já não existirá para mim.

quinta-feira, outubro 23, 2014

O sempre será.
Já tinha sido. Portanto, é como se fosse. Não ser mais... Não quer dizer nada. Se é, é e pronto. se foi, já foi. A realidade está aí, à vista de todos. Não há porque desconfiar. É tudo muito simples para se tornar Complicado. Há que aceitar os fatos Como são. Se são, são. Se não são, não são!... Mas, cá entre Nós, eles podem ser como se fossem Ou como poderiam ter sido. E é esse, exatamente,o nosso caso!Já tinha sido. Portanto, é como se fosse. Não ser mais... Não quer dizer nada. Se é, é e pronto. se foi, já foi. A realidade está aí, à vista de todos. Não há porque desconfiar. É tudo muito simples para se tornar Complicado. Há que aceitar os fatos Como são. Se são, são. Se não são, não são!... Mas Já tinha sido. Portanto, é como se fosse. Não ser mais... Não quer dizer nada. Se é, é e pronto. se foi, já foi. A realidade está aí, à vista de todos. Não há porque desconfiar. É tudo muito simples para se tornar Complicado. Há que aceitar os fatos Como são. Se são, são. Se não são, não são!... Mas, cá entre Nós, eles podem ser como se fossem Ou como poderiam ter sido. E é esse, exatamente,o nosso caso!, cá entre Nós, eles podem ser como se fossem Ou como poderiam ter sido. E é esse, exatamente,o nosso caso!

Fernando Aguiar

quarta-feira, outubro 22, 2014

A guerra é boa.
Não chore, garota, por causa da guerra. Ela é boa. Porque seu namorado ergueu o braço para o céu e o assustado corcel desgarrou-se sozinho, não chore. A guerra é boa. Poucos tambores retumbantes do regimento, pequenas almas com sede de luta. Estes homens nasceram para treinar e morrer. Inexplicável glória paira sobre eles. Grande é a batalha de Deus, grande é seu reino, onde jazem cadáveres aos milhares. Não chore, criança, pela guerra. Ela é boa. Porque seu pai tombou nas pálidas trincheiras, roto em seu peito, golpeado e morto, não chore. A guerra é boa. Ágil bandeira flamejante do regimento, águia com penacho vermelho e dourado. Estes homens nasceram para treinar e morrer. Mostre-lhes a virtude do massacre, faça-lhes planejar a excelência do matar, e o campo onde jazem cadáveres aos milhares. Mãe cujo coração se pendura humilde como um botão sobre o brilho esplêndido da mortalha do filho, não chore. A guerra é boa.
Stephen Crane

terça-feira, outubro 21, 2014

O tempo
O tempo é indivisível. Diz,
Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vário.

A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconsequente conversa

Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre...
Todas as horas são horas extremas!

 Mário Quintana

segunda-feira, outubro 20, 2014

Nosso dia de cada dia
Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceite o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe. 
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. 


Clarice Lispector

domingo, outubro 19, 2014

O mistério das coisas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.
Alberto Caeiro

sábado, outubro 18, 2014


Até quando?
Nada mais surpreendente do que ver com que facilidade a maioria é governada pela minoria.
É observar ao longo da história a submissão implícita com que os homens sujeitam seus sentimentos e paixões aos de seus governantes.
De que modo se realiza esse prodígio?
Como são os governados que detêm a força (apenas eles, a maioria, não sabem disso!).
Os governantes nada têm por respaldo senão a opinião pública.
É somente na opinião pública que se fundamentam os governos, desde os mais despóticos e militarizados até os mais liberais e populares.
Não é, por isso, estranho o quanto mentem os poderosos com a ajuda dos meios de comunicação.

David Hume

quinta-feira, outubro 16, 2014

Ando só
Foi temendo o isolamento que eu me integrei na multidão.
Isolei-me ainda mais!
Foi receando a miséria que amealhei.
Me tornei miserável!
Foi apavorado ante a morte que me defendi.
E acabei matando!
E pior: foi temendo o medo de ter medo que me tornei medroso. 
 Eduardo Canabrava Barreiros

segunda-feira, outubro 13, 2014

Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,
Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.
Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?
Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?
Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores.

Na noite e ao fim da estrada.
Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.
Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.
 Fernando Pessoa

domingo, outubro 12, 2014

Ninguém sabe
mas você foi o escolhido.
O seu amor é único,
o seu amor é um homem sentado
pensando em seu cachorro morto.
O seu amor é a última orquídea do inverno
é pássaro pedindo água
pupila adormecida.
E você nem se importa
pelo fato de ser melhor.
O seu nariz é grego,
você é tão bonito e nem liga.
É verdade que você tem sofrido muito mas isso faz parte.
Quando você anda na rua as árvores florescem.
Você é meu amigo.
Você é eu.
Renata Pallottini

sábado, outubro 11, 2014

Depois do 2°
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

sexta-feira, outubro 10, 2014

O convite
Se o anarquista que há em mim se junta com o ingênuo que há em você e propõe: "vamos fazer uma República Utópica?".
O princípio da realidade passa com a sirene aberta, pára e nos autua em flagrante.
Alex Polari

quinta-feira, outubro 09, 2014

Amor é quando é concedido participar um pouco mais.
Amor é a grande desilusão de tudo mais.
Amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter inclusive amor.
É a desilusão do que se pensava que era amor.
Amor não é prêmio por isso não envaidece.
Clarice Lispector

quarta-feira, outubro 08, 2014

Por si só, a realidade não vale nada. É a percepção que dá sentido à realidade.
Existe uma hierarquia entre as percepções, até sobre os sentidos. As mais refinadas e sensíveis figuram no topo.
Refinamento e sensibilidade se originam na única fonte possível: a cultura. Cultura, cujo instrumento principal é a linguagem.
A avaliação da realidade feita através de um prisma como este - a cultura - é, portanto, a mais precisa; provavelmente, a mais justa.
 Joseph Brodsky

terça-feira, outubro 07, 2014

O desbarato mais absurdo não é o dos bens de consumo, mas o da humanidade: milhões e milhões de seres humanos nasceram para ser trucidados pela História, milhões e milhões de pessoas que não possuíam mais do que as suas simples vidas. De pouco ela lhes iria servir, mas nunca faltou quem de tais miuçalhas tivesse sabido aproveitar-se. A fraqueza alimenta a força para que a força esmague a fraqueza. 
 José Saramago

segunda-feira, outubro 06, 2014

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.

Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres, é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?

O mar da história é agitado.
As ameaças e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio, cortando-as
como uma quilha corta as ondas.
Maiakoviski
A verdade é tudo aquilo que o homem precisa para viver, não pode ganhar nem comprar dos outros.
Todo homem deve produzi-la sempre no seu íntimo, se não ele se arruína.
Viver sem a verdade é impossível, mas não exagere o culto da verdade.
Não há um único homem no mundo, que não tenha mentido muitas vezes e com razão.
 Franz Kafka

domingo, outubro 05, 2014


Poemas não são para serem publicados
Poemas são Drag Queens
Rolando piteiras em puteiros ou somos nós,
Poetas velhos de caras borradas
Poetas de cinco centavos
Poemas não são para serem publicados


Poemas são para serem escritos
Às vezes rasgados
Às vezes guardados
Podem ser confessionais, imorais de vanguarda
Podem ser apenas a voz humílima do guarda
Podem ser criança



Mas em Geral
São sem esperança de serem publicados
Poemas custam caro e não fazem o mesmo efeito de um choque
Não fazem o efeito de um baseado
Poemas não servem para trepar nem nada



Nem sequer tente publicar seus poemas
Faça-os voltar calados às gavetas
Com eles ninguém se meta



Dormirão como dormem os drogados:
tristes, gelados, pesados
mas serão sempre únicos
Sempre ineditamente mediúnicos



Sempre salvos das graças das prebendas
Sempre coisas pudendas (ainda que sujos)



Poemas, sempre úmidos
Noviços, fim de feira
maus de venda e de vida.



Não são nem mesmo um incentivo à leitura,
pois quem vai ler linhas quebradas
oriundas de alma idem?

                                                                 Renata Pallottini